sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O MEU POEMA



O MEU POEMA

Porque o mundo do trabalho onde sempre vivi
fez de mim o que sou, sofro ou rejubilo
nos desaires e vitórias que a história regista

Porque a exploração não é figura de retórica,
conhecendo-lhe as manhas e tormentos,
abraço os que desde sempre lhe fazem frente

Porque a gratidão não me abandona,
não troco velhos amigos por conhecidos de ocasião
fiel que sempre fui com coerentes e solidários

Porque o meu bem-estar é o bem comum
sentido constante e visceral, acompanho
os que elevam a bandeira da fraternidade

Porque servir e servir-se definem o político
que abnegado cumpre e colhe consideração
daquele que servindo-se chafurda na ignomínia

Porque ideólogos acomodados ou cansados
apressados ou desiludidos baixam os braços,
saltando da trincheira para cómodo abrigo

Porque nunca traindo os companheiros
nem os abandonando nas fráguas mais difíceis,
resistimos na adversidade e retomamos o caminho

Por tudo isto,

pela classe a que pertenço

e tudo o mais que este espaço não comporta


VOTO CDU

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Poema Fábrica - Joaquim Namorado



Poema Fábrica

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança

do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:

é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;

como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.

Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;

as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.





 


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Paixões - Vicente Zito Lema



Paixões

Embora chamem ao abate
sob o céu malicioso
E honrem com a lei como coroa de louros
o tiro pelas costas...
Por cima da angústia que corrói
A resignação opaca
E a fome que devora a alma
na obscura tristeza destes dias...
Ainda assim... Debaixo / profundo
O velho coração humano resiste às golfadas
Ergue bandeira entre as nuvens vermelhas...
A memória guia-nos
A consciência cresce
A beleza é nossa

Buenos Aires, dezembro de 2018

Pasiones
A pesar que llamen a degüello
bajo el cielo malicioso
Y honren con la ley como corona de laureles
el tiro por la espalda…
Por encima de la angustia que corroe
La resignación que opaca
Y el hambre que se traga el alma
en la oscura tristeza de estos días…
Aún así… Desde abajo / hondo
El viejo corazón humano resiste a borbotones
Planta bandera entre las nubes rojas…
La memoria nos guía
La conciencia nos crece
La belleza es nuestra.

Vicente Zito Lema
Buenos Aires, diciembre de 2018

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

ABRIL - Rui Namorado



abril

2.

Abril é uma palavra abandonada
à vertigem de todos os mistérios

um tempo aberto   rigoroso   puro
a casa que sabemos e nos espera

mil vezes esquecidos    nunca ausentes
cabemos neste mês de corpo inteiro

somos nós os recantos deste Abril