quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Onde nem tudo o que luz é oiro - Eduardo Valente da Fonseca



Onde nem tudo o que luz é oiro

Somos talvez até um país rico,
e tivemos Camões, e tivemos
pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na
areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela
vejo as linhas do destino,
de
que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.


Eduardo Valente da Fonseca

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Epitáfio para uma Europa



Epitáfio para uma Europa

Limpo do Espírito o unto da Europa, e deito-o
nas feridas do ocidente para que sequem mais
depressa. A Europa impregna-me com a sua febre,
que eu acalmo com a água de um ócio de
culturas. A Europa atravanca os passeios da memória,
e obriga a empurrá-la para deixar passar
os que chegam. Às vezes, a Europa encosta-se
às esquinas, como se não fizesse nada,
e confundem-na com a puta da noite, como
se ela estivesse à venda; mas o que ela faz
é oferecer o corpo a quem quiser. De outras
vezes, a Europa é a virgem que não quer
descer do altar, como se alguém a adorasse,
ainda, e lhe acendesse as velas de uma devoção
de milénios. "Tirem-me a Europa
da frente", dizem os que querem chegar
mais depressa aos lugares que a Europa
descobriu, e perdeu, há muito. "Quero ser
como a Europa", dizem outros — os que
andaram atrás dela, e não souberam acompanhar-lhe
o passo, e caíram no primeiro obstáculo,
vendo acumularem-se por cima de si os corpos
de quem vinha atrás. A Europa enlouqueceu,
e pede que a fechem para que ninguém mais
acredite no que ela diz. A Europa é o mocho sábio
da fábula, e as crianças juntam-se à sua volta
a pensar que vão aprender alguma coisa. Tiro
a Europa do mapa e meto-a no bolso. E quando
alguém me pedir lume para o cigarro, vou puxar
por ela e acendo-a. Se o mundo arder, a culpa é
de quem me pediu lume; se a Europa se apagar,
deito-a fora e troco de isqueiro. 
Nuno Júdice,
(A matéria do poema)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

BREVE HISTÓRIA DA BURGUESIA

BREVE HISTÓRIA DA BURGUESIA

Este foi o momento, quando nós,
sem nos apercebermos, durante cinco minutos
estávamos
imensamente ricos, generosamente
refrigerados
com a eletricidade no verão,
ou caso fosse o inverno,
a
lenha, trazida de longe via aérea, ardia
em lareiras estilo renascentista. Curioso:
havia
tudo, vindo por avião,
de
certa maneira automaticamente. Elegantes
éramos,
ninguém nos aturava.
Jogávamos pelas
janelas concertos de solistas,
chips, orquídeas embrulhadas em celofane. Nuvens
que diziam: “Eu”. Únicos!
Íamos a todas as partes em vôos de carreira. Mesmo os nossos suspiros
eram
pagos com cartões de crédito. Xingávamos
como gralhas, todos ao mesmo tempo. Cada um
guardava a
sua própria desgraça debaixo do assento,
à
mão. Que pena!
Era tão prático. A água
corria à
toa das torneiras.
Lembram-se?
Simplesmente atordoados
por nossos sentimentos minúsculos
comíamos
pouco. Se soubéssemos
que tudo passaria
em cinco minutos, teríamos saboreado
bem mais, muito mais, o roast-beef Wellington.
HANS MAGNUS ENZENSBERGER


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Samih Al-Qassim

DISCURSO NO MERCADO DO DESEMPREGO

Talvez eu perca — se desejares — a minha subsistência
Talvez venda as minhas roupas e o meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó
inimigo do sol
E
até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones a minha juventude
Talvez me roubes a herança dos meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes os meus poemas e os meus livros
Talvez atires o meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre a nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó
inimigo do sol
E
até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes da minha noite
Talvez me prives da ternura da minha mãe
Talvez falsifiques a minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar os meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas em meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó
inimigo do sol
E
até à última pulsação das minhas veias
Resistirei
Ó
inimigo do sol
O
porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os
cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no
horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o
regresso de Ulisses
Do
mar das privações
O
regresso do sol... do meu povo exilado
E
para os seus olhos
Ó
inimigo do sol
Juro que não me venderei
E
até à última pulsação das minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei

Samih Al-Qassim
(
poeta palestiniano proibido de exercer a profissão docente pelos israelitas)