sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Samih Al-Qassim

DISCURSO NO MERCADO DO DESEMPREGO

Talvez eu perca — se desejares — a minha subsistência
Talvez venda as minhas roupas e o meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó
inimigo do sol
E
até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones a minha juventude
Talvez me roubes a herança dos meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes os meus poemas e os meus livros
Talvez atires o meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre a nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó
inimigo do sol
E
até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes da minha noite
Talvez me prives da ternura da minha mãe
Talvez falsifiques a minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar os meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas em meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó
inimigo do sol
E
até à última pulsação das minhas veias
Resistirei
Ó
inimigo do sol
O
porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os
cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no
horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o
regresso de Ulisses
Do
mar das privações
O
regresso do sol... do meu povo exilado
E
para os seus olhos
Ó
inimigo do sol
Juro que não me venderei
E
até à última pulsação das minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei

Samih Al-Qassim
(
poeta palestiniano proibido de exercer a profissão docente pelos israelitas)


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

ÇA IRA - João Rui de Sousa



ÇA IRA

Isto vai, caro amigo.
Não como nós queremos, é certo,
mas isto vai.

Por noites de insónia e alcatrão
por laranjas e lábios ressequidos
por desespero na voz e escuridão
isto vai, caro amigo.

Por mágoas acesas e relógios
pelo sabor dos braços na alegria
pelo odor das plantas venenosas
isto vai, caro amigo.

Pelo cabo axial que liga a nossa esperança
pela luz dos cabelos, pelo sal
pela palavra remo, pela palavra ódio
isto vai, caro amigo.

Pela ternura e pela confiança
pela vontade e força, as nossas casas
pelo fervor com que inventamos (e depois calamos)
isto vai, caro amigo.

João Rui de Sousa