quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O QUE EM ALEGRIA APREGOASTE - Jorge Velhote

O QUE EM ALEGRIA APREGOASTE

É como morto que não procurarás novos lugares,
e, para onde olhares, não verás nem as altas montanhas
nem o fundo do mar, apenas o vento envelhecerá o
que agora te cobre e outros pisam – nãobarco
para navegar, nem ofertas para arrecadar, outros
querem a tua alma, outros deuses conhecer
ou os fragores sábios do povo nomear,

seguir-te, ou de múltiplas e notáveis vénias
se equivocam, e cedem ao deleite e à glória
o que em alegria apregoaste, fazendo
amanhecer as manhãs e os caminhos
pela primeira vez para que fôssemos
compreender quanto poder existe
numa palavra ou no brilho
simples de um olhar.

Jorge Velhote

(poema de Jorge Velhote a Álvaro Cunhal)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

PRESTES - PABLO NERUDA

Prestes
Dito no Pacaembu (Brasil, 1945)

[
Poema lido por Pablo Neruda no Comício do PCB em Julho de 1945 no estádio do Pacaembu]
 
Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,
quantas
histórias, lutas, desenganos, vitórias,
que levei anos e anos no coração para dizer-vos, pensamentos
e
saudações. Saudações das neves andinas,
saudações do Oceano Pacífico, palavras que me disseram
ao
passar os operários, os mineiros, os pedreiros, todos
os povoadores de
minha pátria longínqua.
Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?
Que segredo me disse o marinheiro?
Que me disse a menina pequenina dando-me espigas?

Uma
mensagem tinham. Era: Cumprimenta Prestes.
Procura-o,
me diziam, na selva ou no rio.
Aparta
suas prisões, procura sua cela, chama.
E se
não te deixam falar-lhe, olha-o até cansar-te
e
nos conta amanhã o que viste.

Hoje estou orgulhoso de vê-lo rodeado
por um mar de corações vitoriosos.
Vou
dizer ao Chile: Eu o saudei na viração
das
bandeiras livres de seu povo.

Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite
falei à
multidão, fui pedir auxílio
para a Espanha Republicana, para o povo em sua luta.
A Espanha estava
cheia de ruínas e de glória.
Os franceses ouviam o
meu apelo em silêncio.
Pedi-lhes
ajuda em nome de tudo o que existe
e
lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha lutam, morrem,
Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,
são filhos dos heróis da América, são irmãos
de Bolívar, de O' Higgins, de San Martín, de
Prestes.
E
quando disse o nome de Prestes foi como um rumor imenso.
no
ar da França: Paris o saudava.
Velhos operários de olhos húmidos
olhavam
para o futuro do Brasil e para a Espanha.

Vou contar-vos
outra pequena história.

Junto às grandes minas de carvão, que avançam sob o mar,
no Chile, no
frio porto de Talcahuano,
chegou uma
vez, faz tempos, um cargueiro soviético.
Quando a noite chegou
vieram aos
milhares os mineiros, das grandes minas,
homens, mulheres, meninos, e das colinas,
com suas pequenas lâmpadas mineiras,
a
noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,
para o navio que vinha dos portos soviéticos.

Aquela
noite escura teve estrelas:
as
estrelas humanas, as lâmpadas do povo.
Também hoje, de todos os rincões
da
nossa América, do México livre, do Peru sedento,
de
Cuba, da Argentina populosa,
do Uruguai,
refúgio de irmãos exilados,
o
povo te saúda, Prestes, com suas pequenas lâmpadas
em que brilham as altas esperanças do homem.
Por isso me mandaram, pelo vento da América,
para que te olhasse e logo lhes contasse
como eras, que dizia o seu capitão calado
por tantos anos duros de solidão e sombra.

Vou dizer-lhe
que não guardas ódio.
Que desejas que a tua pátria viva.
E
que a liberdade cresça no fundo
do Brasil
como árvore eterna.

Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas caladas,
carregadas
por estes anos entre a pele e a alma,
sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer
o
poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.

Peço
hoje um grande silêncio de vulcões e rios.
Um grande silêncio peço de terras e varões.
Peço
silêncio à América da neve ao pampa.
Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.
Silêncio: que o Brasil falará por sua boca.

PABLO NERUDA. "Canto Geral".


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

SONETO - Carlos de Oliveira

SONETO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro,
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ela carrega com tudo - Gonçalo Afonso Dias



Ela carrega com tudo;
A
criança e o medo da doença.
A
roupa lavada com lágrimas
...Os
restos para o jantar;
O
que conseguiu encontrar.
A
crueldade do seu homem,
Adormecido pelo maruco,
Perdido
por outras mulheres.
Ela carrega com tudo;
A cubata
que vai abaixo,
Engolida
pelos "senhores",
As
torres que ao longe,
Feitas de vidro e ganância
O
futuro em que não acredita,
O
passado que cheira a morte.
Mas ela carrega com tudo.
E vai
direita, elegante, no seu andar.
E,
apesar do tudo que ela carrega,
Ainda tem força para sonhar.

Gonçalo Afonso Dias
(poeta arquitecto luso-angolano)
in Lusofonia Poética


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

CÓDIGO DE BARRAS – Eduardo Roseira



Imagem e edição: Gonçalo Afonso Dias

CÓDIGO DE BARRAS

era abril de 1974

soltavam-se as
amarras.

hoje os políticos são retrato

nós um código de barras.

Eduardo Roseira
in: "a
colheita íntima" poesia, 2003

terça-feira, 12 de novembro de 2013

OS FAZEDORES DE PROMESSAS - Armando Artur

OS FAZEDORES DE PROMESSAS
Ao H. Bacanani

Como destilar verdades
nestas
palavras com odor a mofo?
até eu poderia emprestar-lhes um ar de sândalo
não fosse a febre nocturna dos búzios.
muito que os fazedores de promessas
Emigraram
sem que ninguém os lembrasse
dos
gestos obscenos deixados para trás.
Quantos sonhos cabem numa palavra?
E quantas
lágrimas numa cabaça?
Diziam-me
que o mundo era pertença de todos.
E enganaram-me
quando não acreditei.
Pois as palavras não enchem a panela de barro.
o Inverno sabe o quão é difícil
suportar as folhas caídas nas estepes.
Mas nenhuma ausência os entristece?
Nem mesmo a dor os alucina?
Armando Artur