sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ela carrega com tudo - Gonçalo Afonso Dias



Ela carrega com tudo;
A
criança e o medo da doença.
A
roupa lavada com lágrimas
...Os
restos para o jantar;
O
que conseguiu encontrar.
A
crueldade do seu homem,
Adormecido pelo maruco,
Perdido
por outras mulheres.
Ela carrega com tudo;
A cubata
que vai abaixo,
Engolida
pelos "senhores",
As
torres que ao longe,
Feitas de vidro e ganância
O
futuro em que não acredita,
O
passado que cheira a morte.
Mas ela carrega com tudo.
E vai
direita, elegante, no seu andar.
E,
apesar do tudo que ela carrega,
Ainda tem força para sonhar.

Gonçalo Afonso Dias
(poeta arquitecto luso-angolano)
in Lusofonia Poética


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

CÓDIGO DE BARRAS – Eduardo Roseira



Imagem e edição: Gonçalo Afonso Dias

CÓDIGO DE BARRAS

era abril de 1974

soltavam-se as
amarras.

hoje os políticos são retrato

nós um código de barras.

Eduardo Roseira
in: "a
colheita íntima" poesia, 2003

terça-feira, 12 de novembro de 2013

OS FAZEDORES DE PROMESSAS - Armando Artur

OS FAZEDORES DE PROMESSAS
Ao H. Bacanani

Como destilar verdades
nestas
palavras com odor a mofo?
até eu poderia emprestar-lhes um ar de sândalo
não fosse a febre nocturna dos búzios.
muito que os fazedores de promessas
Emigraram
sem que ninguém os lembrasse
dos
gestos obscenos deixados para trás.
Quantos sonhos cabem numa palavra?
E quantas
lágrimas numa cabaça?
Diziam-me
que o mundo era pertença de todos.
E enganaram-me
quando não acreditei.
Pois as palavras não enchem a panela de barro.
o Inverno sabe o quão é difícil
suportar as folhas caídas nas estepes.
Mas nenhuma ausência os entristece?
Nem mesmo a dor os alucina?
Armando Artur

sábado, 9 de novembro de 2013

Uma flor para Álvaro Cunhal – a minha homenagem



Álvaro Cunhal
10/11/1913
Não me permito interromper o discurso da flor. O colorido luminoso da palavra sugere a fragrância da terra e o horizonte da verdade. Resta-me ficar atento para escutar o que sinto.
cid simões
(reedição)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

DIZEM ALGUNS…- Albano Martins


Albano Martins



DIZEM ALGUNS

Dizem
alguns que tu
foste uma lenda arrancada
das páginas da história. Que a tua
palavra ardia
como uma tocha, às vezes
como uma lança cravada
na carne da ignomínia.
Eu diria
apenas que foste
a encarnação dum sonho, o rosto
humano da utopia.


 *      *      *
Álvaro Cunhal
[Desenho de Álvaro Siza Vieira]

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Manuel Gusmão - UMA CHAMA NÃO SE PRENDE

UMA CHAMA NÃO SE PRENDE 

rodeado de paredes
rodeadas de
muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao
longo da terrível década de 50
inteira
Não cedeu.

Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950
então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o
seu Partido a sua acção
e a
sua orientação política

Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do
terror de estado Ponto a ponto
responde
com o orgulho do homem livre
e o
vigor da inteligência Responde por si
e
pelos seus como quem acusa
e
ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11
anos seguidos, preso,
14 meses
incomunicável,
8
anos em isolamento
E
não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara
marina

Não cede e desenha
e
estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada
pelo vento e pelo silêncio
numa
cela
Não cede e escreve
A
Questão Agrária
As
lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma
tradução do Rei Lear
e escreve
Até Amanhã, camaradas

o homem livre encarcerado
fugiu
enfim
colectivamente
a 3 de
Janeiro de 1960
e
nunca mais foi apanhado

Manuel Gusmão
(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal”)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

ESSA GENTE / ESSA GENTE - Ana Hatherly

ESSA GENTE / ESSA GENTE

Essa gente dominada por essa gente
nem sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

a gente
é dominada por gente
quando não sabe que é gente
Ana Hatherly

sábado, 2 de novembro de 2013

Armindo Mendes de Carvalho - Estamos porreiros



Estamos porreiros

Saúde excelente
bem comidos
e dormidos
Ninguém está doente
o
que chateia
O
sol aqui é quente
e a
chuva fria

Vento em popa
conveniente

O
mar tranquilo
regulado
para nadar

A
hora é exacta
às doze
em ponto
é
mesmo meio dia

O
melhor que
passa por
vamos ao
teatro
vamos ao
cinema
vamos ao ballet

Estamos
todos porreiros
estamos
todos contentes
olarilolé

Vamos ao Algarve
para falar estrangeiro
Vamos
viajar
vamos
dar uma volta
num
cruzeiro

Vamos ao Tavares
vamos ao Lacerda
a
todos os lados
aqui e ali

e vamos à merda

Armindo Mendes de Carvalho