sábado, 7 de dezembro de 2013

Candidatos Gulosos - Almeida Faria


Guia para candidatos aos infernos

 VI - Candidatos Gulosos

Nós, os gulosos, temos mais olhos que barriga. Orgulhamo-nos disso.
Cerbero
nos espera, no terceiro círculo, não com uma cabeça,
Mas com três, de cinco olhos em cada uma, nada menos,
Soltando
guinchos que assustariam as almas sensíveis
Se
não as protegesse o gigante Belzebu, todo nariz e boca,
Cujas
tripas lhe nascem na boca (o cheiro daquela boca!)
Que não serve para sorrir, serve para comer
Sem mastigar, para sorver, tragar e devorar.
Nos jantares mais formais, ao encherem os pratos,
Ao enfardarem
até não caber mais,
Ao falarem
antes de terem engolido,
Ao pegarem
nos talheres como animais,
Alguns de nós não voltarão a ser convidados.
Tanto lhes faz. Fazem como o trifauce Cerbero
Cujas
goelas, em trindade, nunca estarão saciadas.
Seguem o
exemplo da grandeza inalcançável
De
Nosso Senhor Belzebu, o grão-patrão da gula.


Almeida Faria

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

CONJUGAÇÕES – 2 (chaves) - Mário Benedetti



Algumas chaves
do futuro
não estão no presente
nem no passado

estão
estranhamente
no futuro

Mário Benedetti




CONJUGACIONES - 2 (claves)
Algunas claves
del
futuro
no están en el
presente
ni en el pasado
están
extrañamente
en el
futuro

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

No céu tem prozac ! - Soares Feitosa

No céu tem prozac !  
Para Francisco, quatro anos, Brasil, Seca do 93; ele partiu depois de perguntar à mãe se no
Céu tem pão.

Sob a ira de Zeus,   
o
monge balbucia,  
entoam-se os
mantras sagrados,  
aperta-se o
cilício,  
o
globo se equilibra,   
em peripécia   
e
gira.  
Adiam-se-lhe os minutos,
ao gesto do amor,
sacrifícios e devoções:
êxtase de Margarida,
êxtase de Madre Teresa,
êxtase do Cura D’Ars,
êxtase da irmã Dulce;
gira e gira,  
sustida
em piedade, Colunas de Hércules,  
Atlas da — a destruição merecida —,  
gira e gira — adiada —   
a
serviço do mal,   
sob o império do mal,   
o
mundo gira e gira...
Os santos vigiam e guardam, eles
vigiai e orai!
—  Mãe, no céu tem pão?

Pois nem de pão vive o homem:  
que ter pão, do céu,  
ao
espírito;  
que ter pão, em cima da mesa,  
aos escolhidos;  
que ter pão, debaixo da mesa,  
aos enjeitados;  
sempre existirão pobres convosco,   
migalhas a Lázaro;  
ao
banquete, as libações:
  
—  Saúde, muita saúde, Coronel

Tem, filhinho, muito pão,  
pão-doce, pão-seco,
muito pão,   
..................
aquele,   
............................ 
bem gostoso .........................  
................................................................................ durma, filhinho,  
amanhã, deixo você brincar...  
Durma,
meu amor.
 

Auriverde pendão de minha terra,
que a brisa do Brasil beija e balança...
Famintas do
meu Brasil
precisam
sonhar com um pão,
as
crianças, às portas do Céu,
para entrar no Céu;
verás,
infante,
nãopaís como este;
em se plantando, ó Caminha,
sim, plantaram,
plantaram nas
algibeiras,
onanistas do
metal;
plantaram fora, nas Flóridas,
plantaram no
sigilo, Gstaad,
plantaram a
mandioca,
sob a Florestasobre o calcário, no pampa imenso,
vinte
centímetros, dizem,
cobriria a
Cisplatina,
aterraria o
Prata...
 
Em se plantando, seu Caminha,
o
que dá, não dá;
o que deu, não deu,
nunca deu...!
o
que deu, o gato comeu;
o
que sobrou, o rato roeu.
  
————  Tem mesmo, mãe, tem...   
                     
verdade,   
                     
,   
                     no
céu,   
                     tem
pão?  
(Em tom de ninar, em voz de mãe):  
Desce gatinho,  
de
cima do telhado,  
para ver o Francisquim  
dormir bem sossegado...  
                         Desce, gatinho,  
                         de
cima do telhado,  
                        
para ver o Francisquim  
                        
dormir bem sosssegado...   
Adormeceu ...................................... :  
  
  

Dormiu.  

Causa mortis:
inanição,
morte.
 
E dormimos,  
todos 
o
sono dos justos 
 
                                   In,  
                                   in memoriam;  
                                   in,  
                                   infamiam;  
                                   in,  
                                   injustitiam:  

                                                  Prozac! 

Soares Feitosa 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS - Daniel Faria



HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS

Homens que trabalham sob a lâmpada
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias

Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente

Homens que escavam dia após dia o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabeça
À procura dessa pedra definida

Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre. Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída.
Daniel Faria
(1971-1999)

Minha Loucura - Gabriel Celaya



MINHA LOUCURA

Depois de muito andar, muito perder, muito lutar,
dizem-me «Para quê
Eu digo simplesmente: «Para viver melhor
Dizem-me: «Como assim,
se tu vives bem? Que queres mais, diz?»
Eu respondo sem jeito: «Não sei.»
É o que desejo para todos,
e digo para comigo: «Claro que estamos bem
E continuo a trabalhar o mais que posso
para uma glória total,
com inocência
e às vezes com tanta claridade
que essa luz quase me agride.
Gabriel Celaya

MI  LOCURA
Después de mucho andar, mucho perder, mucho luchar,
me dicen: «Para qué?»
Yo digo simplemente: «Para vivir mejor.»
Me dicen: «Cómo es eso,
si tú vives bien? Qué más quieres, di?»
Yo digo en tonto: «No
Pero es claro lo que quiero para todos,
y me digo por lo bajo: «Pues sí que estamos bien!»
Y sigo trabajando más que tonto
por una gloria total,
con inocencia,
y a veces con tan alta claridad,
que esa luz casi parece una ferocidad.
Gabriel Celaya
“El hilo rojo”