domingo, 19 de janeiro de 2014

ALMA DE CÔRNO - Fernando Pessoa

ALMA DE CÔRNO

Alma de côrno – isto é, dura como isso;
Cara que nem servia para rabo;
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço

Ó lama feita vida! ó trampa em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
– Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!

De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-te em verso. Tu
Fazes dôr de barriga á inspiração.

Quér faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo.

 Fernando Pessoa


Nota: reprodução do poema respeitando a grafia original do fac-símile.


sábado, 18 de janeiro de 2014

ARY. SEMPRE!

1937 - 1984

Meu Camarada e Amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As
canções que trago prenhas
de
ternura pelos outros
saem das
minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a
poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É
por dentro desta selva
desta
raiva   deste grito
desta
toada que vem
dos
pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo
tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei
bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os
ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo
até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
mas um poeta fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que tenho o que fiz
dando
tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é
que eu sofro o meu país.

Ary dos Santos, in 'Resumo'
 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Juan Gelman - DEUS

DEUS

Debilitado, errante, sorteia
fracassos como charcos
hoje que chove. Não quer
ler o que escreveu. Deram-lhe
um papel que ninguém
pode interpretar.
um louco.
Olha a tarde que se extingue
e espera sem esperanças
que a noite seja eterna.

Juan Gelman

DIOS
Gastado, errante, sorteaDEUS
fracasos
como charcos
hoy
que llueve. No quiere
leer lo
que escribió. Le dieron
un
papel que nadie
puede
interpretar.
Sólo un
loco.
Mira la tarde que se extingue
y
espera sin esperanzas
que la noche sea eterna.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O menino que carregava água na peneira - MANOEL de BARROS


O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.

MANOEL de BARROS


domingo, 5 de janeiro de 2014

CANTIGA DO ÓDIO - Carlos de Oliveira

CANTIGA DO ÓDIO

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?


Carlos de Oliveira

sábado, 4 de janeiro de 2014

Les feuilles mortes / As folhas mortas - Jacques Prévert



Les feuilles mortes / As folhas mortas

Oh, je voudrais tant que tu te souviennes,
Des jours heureux quand nous étions amis,
Dans ce temps là, la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Les feuilles
mortes se ramassent à la pelle,
Tu vois je n'ai pas oublié.
Les feuilles
mortes se ramassent à la pelle,
Les
souvenirs et les regrets aussi,
Et le vent du nord les emporte,
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié,
La chanson
que tu me chantais...
C'est une chanson, qui nous ressemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Nous vivions, tous les deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Et la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit.
Et la mer efface sur le sable,
Les pas des amants désunis.
Nous vivions, tous les deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Et la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit.
Et la mer efface sur le sable,
Les pas des amants désunis...

Jacques Prévert

AS FOLHAS MORTAS
Oh ! gostaria tanto que te lembrasses
Dos
dias felizes da nossa amizade,
Nesse
tempo, a vida era mais bela
E
sol mais brilhante do que hoje.
As
folhas mortas à se recolhem,
Bem vês que eu não esqueci.
As
folhas mortas à se recolhem,
Assim como as lembranças e as mágoas,
E leva-as o
vento norte
Na
noite fria do esquecimento.
Bem vês que eu não esqueci
Aquela
canção que me cantavas…
É uma
canção connosco parecida,
Tu, que me amavas, eu que te amava.
Os
dois juntos vivíamos
Tu que me amavas, eu que te amava.
Mas a vida separa aqueles que se amam,
Muito devagarinho, silenciosamente
E o
mar apaga na areia
Os
passos dos amantes separados.
Os
dois juntos vivíamos,
Tu que me amavas, eu que te amava.
Mas a vida separa aqueles que se amam,
Muito devagarinho, silenciosamente.
E o
mar apaga na areia
Os
passos dos amantes separados…


Jacques Prévert / trad. de Anthero Monteiro