quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Deve-se amar o perto



Deve-se amar o perto

O homem
chegou à
lua, e ao sol
e ao
fundo do mar,
e
Londres tem a população do meu país,
e nisso
nemmal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina
me recebe contente
na
Primavera da sua quinta,
eu penso na D. Felisbina
e
amo a sua cabeça branca.
Depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e
cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a
vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.

Eduardo Valente da Fonseca


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

MODELO DA TEORIA DO CONHECIMENTO

 MODELO DA TEORIA DO CONHECIMENTO


Aqui tens
uma
grande caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a
abrires
encontraras nela
uma
caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a
abrires
agora me refiro
a esta
caixa
não àquela – ,
encontrarás nela
uma
caixa
com o rótulo
etcetra;
e se
continuares
depois de infindáveis fadigas
uma
caixa
infinitamente pequena
com um rótulo
tão miúda
que, por assim dizer,
se evapora
diante de teus olhos.
É uma
caixa
que existe na tua imaginação.
Uma
caixa totalmente
vazia.

Hans Magnus Enzemberger



domingo, 2 de fevereiro de 2014

CANTIGA DE ABRIL – Jorge de Sena



CANTIGA DE ABRIL

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»

Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste
pais,
e
conta de tantos danos,
de
tantos crimes e enganos,
chegava
até à raiz.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Tantos morreram sem ver
o
dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o
poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa
emigração medonha,
e a
tristeza uma peçonha
envenenando o
ar puro.
Qual a cor da liberdade?
É
verde. verde e vermelha.
Essas guerras de além-mar
gastando as
armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Esse perder-se no mundo
o
nome de Portugal,
essa amargura
sem fundo,
miséria sem segundo,
desespero fatal.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
durou esta
eternidade,
numa
sombra de gusanos
e
em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.
Qual a cor da liberdade?
E
verde, verde e vermelha.
Saem tanques para a rua,
sai o
povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a
verdade mais veraz.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Jorge de Sena
26-28(?)/4/1974

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A ÚNICA SABEDORIA



A ÚNICA SABEDORIA

Toda a crença
pressupõe uma pretensa
sabedoria
revelada.
Eu quero-a conquistada
dia a dia.


Armindo Rodrigues

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

As canções da nossa liberdade - Jorge Castro



- Um outro poema de referência, como agradecimento a João Bajula Cid
e aos seus (nossos) amigos em sessão memorável Poemas



as canções da nossa liberdade
são da cor das madrugadas da vida
no acaso tanta vez
feito vontade
por valer uma esperança enfim cumprida

são da cor de um olhar ao mar aceso
são o brilho desse olhar na noite escura
são raiz do pensamento enfim coeso
são as mãos da paz

da guerra
e da aventura

as canções da nossa liberdade
são aquelas soltas no vento que passa
alvoroço contra o medo e sem idade
de haver sempre uma candeia na desgraça
uma luz
algum farol
o olhar ardente
essa bola entre as mãos de uma criança
que saltita alegre e viva à nossa frente
e por saber ser assim livre
é cor da esperança

hão-de ser para alguns um leme inteiro
o velame que impele a nau premente
esse grito que nos rasga o nevoeiro
quando o tempo de mudança
é mais urgente

as canções da nossa liberdade
são a carne viva feita de emoções
cada nota
cada estrofe que em nós arde
incendeia aqui e agora os corações
a crescer entre o peito e a garganta
a valer de pena e espada que acontece
quando a noite se finou e amanhece
nesse querer voar que sempre se agiganta 
na invenção do amor que nunca é tarde
inteiro e limpo
o dia que enfim canta
as canções da nossa liberdade

e por ser assim e assim nos valer a pena
nas canções da nossa liberdade
o povo é quem mais ordena.
 Jorge Castro
 18 de Novembro de 2013