quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sono das Águas - Guimarães Rosa

Sono das Águas
"Há uma hora certa, no meio da noite, uma hora morta, em que a água dorme. Todas as águas dormem: no rio, na lagoa, no açude, no brejão, nos olhos d'água, nos grotões fundos E quem ficar acordado, na barranca, a noite inteira, há de ouvir a cachoeira parar a queda e o choro, que a água foi dormir... Águas claras, barrentas, sonolentas, todas vão cochilar. Dormem gotas, caudais, seivas das plantas, fios brancos, torrentes. O orvalho sonha nas placas da folhagem e adormece. Até a água fervida, nos copos de cabeceira dos agonizantes... Mas nem todas dormem, nessa hora de torpor líquido e inocente. Muitos hão de estar vigiando, e chorando, a noite toda, porque a água dos olhos nunca tem sono..." Guimarães Rosa

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Deve-se amar o perto



Deve-se amar o perto

O homem
chegou à
lua, e ao sol
e ao
fundo do mar,
e
Londres tem a população do meu país,
e nisso
nemmal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina
me recebe contente
na
Primavera da sua quinta,
eu penso na D. Felisbina
e
amo a sua cabeça branca.
Depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e
cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a
vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.

Eduardo Valente da Fonseca


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

MODELO DA TEORIA DO CONHECIMENTO

 MODELO DA TEORIA DO CONHECIMENTO


Aqui tens
uma
grande caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a
abrires
encontraras nela
uma
caixa
com o rótulo:
caixa.
Se a
abrires
agora me refiro
a esta
caixa
não àquela – ,
encontrarás nela
uma
caixa
com o rótulo
etcetra;
e se
continuares
depois de infindáveis fadigas
uma
caixa
infinitamente pequena
com um rótulo
tão miúda
que, por assim dizer,
se evapora
diante de teus olhos.
É uma
caixa
que existe na tua imaginação.
Uma
caixa totalmente
vazia.

Hans Magnus Enzemberger



domingo, 2 de fevereiro de 2014

CANTIGA DE ABRIL – Jorge de Sena



CANTIGA DE ABRIL

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»

Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste
pais,
e
conta de tantos danos,
de
tantos crimes e enganos,
chegava
até à raiz.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Tantos morreram sem ver
o
dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o
poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa
emigração medonha,
e a
tristeza uma peçonha
envenenando o
ar puro.
Qual a cor da liberdade?
É
verde. verde e vermelha.
Essas guerras de além-mar
gastando as
armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Esse perder-se no mundo
o
nome de Portugal,
essa amargura
sem fundo,
miséria sem segundo,
desespero fatal.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
durou esta
eternidade,
numa
sombra de gusanos
e
em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.
Qual a cor da liberdade?
E
verde, verde e vermelha.
Saem tanques para a rua,
sai o
povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a
verdade mais veraz.
Qual a cor da liberdade?
É
verde, verde e vermelha.
Jorge de Sena
26-28(?)/4/1974