quinta-feira, 13 de março de 2014

O HOMEM INACABADO - Vera Lúcia de Oliveira



O HOMEM INACABADO
           Para Donizete Galvão

o homem inacabado
é o que nunca envelhece
o homem inacabado
é o que nunca para de crescer
o homem inacabado
é o que morre provisório
morre oblíquo na alvorada
sem avisar ninguém
o homem inacabado
deixa tudo por fazer
e temos que juntar na pressa
esses passos de ternura
que esquece pelas ruas
de uma cidade habitada
até nas crostas mais nuas

Vera Lúcia de Oliveira
Perugia, 30 de janeiro de 2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

Dos nossos medos - Eduardo Galeano

 
Dos nossos medos  
nascem as nossas coragens,
e em nossas dúvidas,
vivem as nossas certezas. 
Os sonhos anunciam 
outra realidade possível, 
e os delírios outra razão. 
Nos descaminhos
esperam-nos surpresas,
porque é preciso perder-se
para voltar a encontrar-se.
Eduardo Galeano
De nuestros miedos
nacen nuestros corajes
y en nuestras dudas
viven nuestras certezas.
Los sueños anuncian
otra realidad posible
y los delirios otra razón.
En los extravios
nos esperan hallazgos,
porque es preciso perderse
para volver a encontrarse.

terça-feira, 11 de março de 2014

Eu não me calo - Pablo Neruda

Eu não me calo

Perdoe o cidadão esperançado
minha lembrança de ações miseráveis,
que levantam os homens do passado.

Eu não preconizo um amor inexorável.

E não me importa pessoa nem cão:
só o povo me é considerável:
só a pátria me condiciona.

Povo e pátria manejam meu cuidado:
Pátria e Povo destinam meus deveres
e se logram matar o revoltado
pelo povo, é minha Pátria quem morre.

É esse meu temor e minha agonia.

Por isso no combate ninguém espere
que fique sem voz minha poesia.

Pablo Neruda
XXXVIII.
YO NO ME CALLO
Perdone el ciudadano esperanzado
mi recuento de  miserables
que levantan los  del pasado.
Yo no predico un amor inexorable.
Y no me importa perro ni persona:
sólo el pueblo es en mí considerable:
sólo la Patria a mí me condiciona.
Pueblo y Patria manejan mi cuidado:
Patria y Pueblo destinan mis deberes
y si logran matar lo levantado
por el pueblo, es mi Patria la que muere.
Es ése mi temor y mi agonía.
Por eso en el combate nadie espere
que se quede sin voz mi poesía.
Pablo Neruda

segunda-feira, 10 de março de 2014

INTERROGATÓRIO - Luís Veiga Leitão.



INTERROGATÓRIO


-Fala! A Dor lhe grita (impuro
seu grito branco que de rastos medra)
-Nunca. Quero quebrar de corpo duro
como as estátuas de pedra.
 
Luís Veiga Leitão.

domingo, 9 de março de 2014

Soneto para Cesário - Diniz Machado

Soneto para Cesário

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te - sei lá! - desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.
Diniz Machado

terça-feira, 4 de março de 2014

Cecília Meireles + Chico Buarque - TEMA DE "OS INCONFIDENTES"

TEMA DE "OS INCONFIDENTES"

Toda vez que um justo grita,
um carrasco o vem calar.
Quem não presta, fica vivo;
quem é bom, mandam matar.
Quem não presta, fica vivo;
quem é bom, mandam matar.    [do Romance V]

Foi trabalhar para todos...
— e vede o que lhe acontece!
Daqueles a quem servia,
já nenhum mais o conhece.
Quando a desgraça é profunda,
que amigo se compadece?

Foi trabalhar para todos...
Mas, por ele, quem trabalha?
Tombado fica seu corpo,
Nessa esquisita batalha.
Suas ações e seu nome,
por onde a glória os espalha?    [do Romance LIX]

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
que reformava este mundo
de cima da montaria.

Por aqui passava um homem...
— e como o povo se ria! —
Ele, na frente, falava
e, atrás, a sorte corria...

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
"Liberdade ainda que tarde"
nos prometia.

Por aqui passava um homem...
— e como o povo se ria! —
No entanto, à sua passagem,
Tudo era como alegria.

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
"Liberdade ainda que tarde"
nos prometia.                          [do Romance XXXI]

Toda vez que um justo grita,
um carrasco o vem calar.
Quem não presta fica vivo;
quem é bom, mandam matar.
Quem não presta fica vivo;
quem é bom mandam matar.    [do Romance V]

sábado, 1 de março de 2014

Ney Matogrosso, Tem Gente com Fome (1979). Música de João Ricardo sobre poema de Solano Trindade



TEM GENTE COM FOME

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

Estação de Caxias
de novo a correr
de novo a dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Só nas estações
quando vai parando
começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu.
 

ALMA DE CORNO - Fernando Pessoa