segunda-feira, 23 de junho de 2014

Qualquer sistema - Leonard Cohen

Qualquer sistema

Qualquer sistema que façam sem nós será derrubado
Já os avisamos antes
e nada do que construíram ficou de pé.
Ouçam enquanto se debruçam sobre os vossos planos
Ouçam enquanto arregaçam as mangas
Ouçam mais uma vez
Qualquer sistema que façam sem nós
será derrubado
Têm os vossos medicamentos
Têm as vossas armas
Têm as vossas Pirâmides, os vossos Pentágonos
Com toda a vossa erva e balas
já não podem caçar-nos
Tudo o que revelaremos sobre nós
será este aviso
Nada do que construíram ficou de pé
Qualquer sistema que façam sem nós
será derrubado

Leonard Cohen
Poemas e Canções

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA - A.M. PIRES CABRAL

A MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA


A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa,
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe - mais dia, menos dia -
por devorá-los todos.

A.    M. PIRES CABRAL

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Esquecimento - Harold Hart Crane

Esquecimento

O esquecimento é como uma canção
Que, livre de ritmo e cadência, flutua.
O esquecimento é como um pássaro de asas unidas,
estendidas e imóveis, -
Um pássaro que adormece aos ventos da costa

O esquecimento é chuva durante a noite,
Ou uma velha casa na floresta, - ou uma criança.
O esquecimento é branco, - branco como as árvores sem vida,
e pode atordoar a sibila em profecia,
ou enterrar os deuses.

Posso-me lembrar de muitos esquecimentos.

Harold Hart Crane



Forgetfulness

Forgetfulness is like a song
That, freed from beat and measure, wanders.
Forgetfulness is like a bird whose wings are reconciled,
Outspread and motionless, --
A bird that coasts the wind unwearyingly.

Forgetfulness is rain at night,
Or an old house in a forest, -- or a child.
Forgetfulness is white, -- white as a blasted tree,
And it may stun the sybil into prophecy,
Or bury the Gods.

I can remember much forgetfulness


Harold Hart Crane


sexta-feira, 13 de junho de 2014

AMIGO - ALEXANDRE O NEILL

AMIGO

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill
in No Reino da Dinamarca

quarta-feira, 11 de junho de 2014

ESTA É A CIDADE - António Gedeão



ESTA É A CIDADE

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

Uma circe peregrina,
pedúnculo de vorticela,
perpassa sob a janela,
incandesce-me a retina.
Anda como sobre escolhos,
irradiando fragrância.
Envolvo-a toda nos olhos;
possuo-a mesmo a distância.

A multidão chama por mim.
Chama e reclama
que eu nela sou princípio e fim.

Lá vou, lá vou.
Galgo os lanços da escada de roldão
e fluo, coloidalmente disperso,
corpúsculo e onda, sem anverso nem reverso,
fagocitado pela multidão.

António Gedeão