quarta-feira, 6 de maio de 2015

Caroço - A. M. Pires Cabral




Caroço



O caroço deste fruto parece ser apenas
um invólucro frio, incomestível,
sem serventia alguma. Mas esconde
no fundo do seu poço uma vida
destinada a eclodir, mal sinta propício
o agasalho da terra.

Que o mesmo é dizer: está lá dentro
uma morte emboscada.

A.M. Pires Cabral
As Têmporas da Cinza
Livros Cotovia, 2008

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Cravo branco - António Borges Coelho



Cravo branco
Poema de um casamento «branco»
no Forte de Peniche em 4/1/59

Como está pronta a terra para a semente
assim estavas debaixo do meu braço:
os nossos corações estavam tão juntos
que não ficava entre eles o menor espaço.

Na botoeira do meu fato escuro
pregaste um cravo branco.
Não sabia que no teu peito
nasciam cravos de uma tal brancura.

Um funcionário cansado
leu em voz monótona os papéis.
Dissemos: - Sim!-
E cumpriram-se as leis.

O sol deitava bagos de arroz amarelo
ondas pequenas vinham rebentar
na muralha
como garotos endiabrados
a pedir rebuçados.

As gaivotas pelo céu piavam.
Voltei para a cela só olhando o mar:
a tua falta era um cravo branco cortado
no meu peito a sangrar.

António Borges Coelho


in «No Mar Oceano»,
Colecção O Campo da Palavra
Lisboa: Editorial Caminho, edição 9/81, 1981

domingo, 3 de maio de 2015

Na véspera - Fernando Pessoa



Na véspera

Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.


Fernando Pessoa