quarta-feira, 23 de setembro de 2015

AS PALAVRAS - Eugénio de Andrade



AS PALAVRAS

São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
Poema de Eugénio de Andrade (in "Coração do Dia", Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; "Antologia Breve", 7.ª edição, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1999 – págs. 35-36) Dito pelo autor (registo do arquivo da RDP)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

BALADA DO PAÍS QUE DÓI - Ana Hartherly



BALADA DO PAÍS QUE DÓI

O barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o corpo cai
o corpo dói

português vai
português cai

o barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o país cai
o país dói

o tempo vai
o tempo dói

português cai
português vai
português sai
português dói

Ana Hartherly



sábado, 19 de setembro de 2015

campos amarelos



campos amarelos

(para Sérgio Ferreira Pinto Júnior)



cemitério de pobre tem poucas flores
tem poucas cores
tem túmulos parcos
o sal da terra tempera a carne
dos corpos mortos
pregados no solo
cruz de pobre tem muita madeira
muito tijolo
muito cupim
cemitério de pobre tem tanto Silva
tem tanta bala
tem tanta dor
J.
por que
atirador de elite
só mata
filho de pobre?
 J.


Sérgio Ferreira Pinto Júnior é um homem que foi assassinado pela polícia do Rio de Janeiro. A imagem é muito forte, mostra o Sérgio sendo morto: https://www.youtube.com/watch?v=EMsOzSutvd0  . Escrevi um outro poeminha que também trata desse acontecimento triste: atirador de elite / só mata / filho de pobre. Cortaram nos vídeos, mas depois do assassinato as pessoas aplaudiram. Terrível.