terça-feira, 27 de outubro de 2015

Hino à Razão - Antero de Quental



Hino à Razão
Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

Antero de Quental

sábado, 24 de outubro de 2015

Dom Sebastião - Renato Filipe Cardoso



Dom Sebastião

fumei tanto esta noite
que o espesso nevoeiro por dentro
me atacou os genitais

esquece lá isso da precariedade
os recibos verdes, a crise
— as bolhas fazem arder os olhos

passa mas é o gel de banho
meu bom heráclito
e faz favor esfolia-me as costas

demora-te
não te preocupem as horas
ou a conta dos serviços municipalizados

após a batalha importa o olvido
porque o regresso é
sal impossível
Renato Filipe Cardoso

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

OS BANCOS - Armando Silva Carvalho



OS BANCOS

Era bom descolar dos bancos, erguer o olhar acima
das cantarias, deste peso rotundo,
desta massa de cifras, destes arranjos de papéis abstractos,
destes homens que sou obrigado a ler e ouvir
como tributo ao facto de estar ainda vivo.
Tudo isto e o futebol
e os seus comentadores de camisa aberta,
deprime a minha idade, mata-me
mais cedo.

Eu descubro a febre antes dela me chegar aos membros,
olho-me ao espelho e pareço um cientista ambulante
desses que ganham prémios
e só lhes falta fixamente o próximo
para alcançarem o cómodo lugar de santos laicos.
As doenças estendem-se nos mapas
as pestes são como as mariposas,
e tudo parece esvoaçar na febre programada.

Mas melhor mesmo era descolar dos bancos,
subir acima do mármore, adormecer sem idade nem estrela,
ou descer tão baixo que a água não consiga encontrar-me,
e os vermes duma beleza estranha, azul, tão movediça,
venham beijar-me os poemas, discípulos da morte.
Sim, descolar dos bancos, encher a boca de terra,
enfim, saber dormir.
armando Silva Carvalho

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Todas as folhas secas… - Vasco Costa Marques



Todas as folhas secas…

Todas as folhas secas retiremos
de nós como os ulmeiros no outono:
sempre jovens seremos.

Serenos, não nos prenda a nostalgia cega
do que fomos.
A vida está na esperança que depomos
no que em nós já foi sonho e que nos nega.

Vasco Costa Marques