sábado, 7 de novembro de 2015

Ouvindo Beethoven - JOSÉ SARAMAGO



Ouvindo Beethoven

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.


JOSÉ SARAMAGO
In "Os Poemas Possíveis", 1966

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

É o tempo da travessia - FERNANDO TEIXEIRA de ANDRADE



É o tempo da travessia

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas

que já têm a forma do nosso corpo,

e esquecer os nossos caminhos

que nos levam sempre aos mesmos lugares.

É o tempo da travessia...

e, se não ousarmos fazê-la,

teremos ficado, para sempre,

à margem de nós mesmos.”


FERNANDO TEIXEIRA de ANDRADE
1946-2008
[O medo: o maior gigante da alma. s/e, s/d. ]

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O ATERRO - Fernanda de Castro




O ATERRO

Ao longo dêste cais enorme e mal tratado,
sobre o rio de águas turvas e barrentas,
estende-se o mercado…

Ao lado,
há rixas violentas
e sangrentas,
nas mil tabernas
do cais…

Fatais,
eternas,
as lutas pela vida, mais e mais,
deformam certos crâneos já brutais.

E há faces negras e mãos aduncas,
nas espeluncas…

Vejam esse petiz de de olhos profundos,
que já sabe roubar,
e faz gestos imundos
a quem vai a passar…

Esse outro que aí anda,
de cigarro na boca e gorro à banda,
já é mestre no conto do vigário.

E essa garota ingénua,
de gesto envergonhado,
que vida tem levado!

De volta da Ribeira,
uma linda peixeira,
miudinha,
escultural,
tem movimentos ágeis de sardinha,
cheira a sal…

Agora estala o silvo de um combóio,
que sacode o torpor da linha férrea,
parada, adormecida…
Impagável a fé deste saloio,
que vai jorgar
naquela casa térrea,
tudo o que tem,
talvez a própria vida…

Cabeçudos, biliosos, os eléctricos,
passam nos rails hirtos e geométricos

Oiço um pregão
e o timbre extraordinário,
obriga me a pensar
nos versos de Cesário…

…Dá meio-dia um velho campanário,
para lá da Pampulha…

Nas docas
tem sono o rio e marulha…

O mercado é agora
um monte de destroços
onde uma velha bruxa,
passa arrastando os ossos.

No cais a maré puxa e repuxa,
tenta arrastar o lôdo,
mas jamais conseguiu leva-lo todo,
e as águas continuam cor de barro,
e as muralhas de pedra criam sarro.

Ingénua e linda apenas uma nota:
ao longe, sobre o Tejo,
um vôo de gaivota.

Fernanda de Castro

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Cantar de Amigo - Geir Nuffer Campos



Cantar de Amigo

O claro pão
que repartimos
dá-nos um título:
companheiros.

A indagação
que aprofundamos
faz de nós, artesãos,
camaradas.

O olhar sem visgo,
a voz precisa,
o gesto mundo,
eis-nos: amigos.

Quantos, que marcham pela vida
como quem carrega uma estrada,
terão amigo, companheiro e camarada?

Geir Nuffer Campos, in 'Canto Provisório'

domingo, 1 de novembro de 2015

Se Eu Tivesse Um Chicote - JOAQUIM LAGOEIRO



Se Eu Tivesse Um Chicote

Se eu tivesse um chicote
chicote de fios de aço
eu nem sei o que faria
mas não fazia o que faço!

Certos homens que eu conheço
sem alma e sem vergonha
veja você, suponha:
se eu tivesse um chicote!...

(Posso vir a construí-lo
de fino, profundo traço!),
mas se eu tivesse um chicote
chicote de fios de aço

Homem que viva do homem
decerto não haveria...
Se eu tivesse um chicote
eu nem sei o que faria.

Se eu tivesse um chicote
o meu braço e outro braço
o que faria nem sei
-mas não fazia o que faço!

JOAQUIM LAGOEIRO
1918-2011