segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

HOMEM - António Gedeão



HOMEM

 Inútil definir
 este animal aflito.
Nem palavras
nem cinzéis
nem acordes
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito
 a menos infinito.

António Gedeão

sábado, 23 de janeiro de 2016

O mendigo Sexta-Feira jogando no Mundial - Mia Couto



O mendigo Sexta-Feira jogando no Mundial

“(…) O que me inveja não são esses jovens, esses fintabolistas, todos cheios de vigor. O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (…)”

Mia Couto, in O fio das Missangas

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os ombros suportam o mundo - Carlos Drummond de Andrade

Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Auto-retrato - José Luandino Vieira



Auto-retrato

A angústia da inércia
a idade tece-a?
Mar amarrado
a areias de desterro
os lábios guardam
marés de ferro.
Vento da tarde
onde o sol esfria
os olhos ardem
lumes de alegria.
Água quieta
sob o limo mansa
a alma projecta
o peixe da esperança.
A coragem da inércia
a liberdade tece-a!

José Luandino Vieira
– 13-5[-1967] Para a Nela: um boneco e um poema para lhe agradecer as suas delicadezas.

In PAPÉIS DA PRISÃO APONTAMENTOS DIÁRIOS, CORRESPONDÊNCIA (1962-1971)