domingo, 14 de fevereiro de 2016

Reportagem - João Guimarães Rosa





Ilustrações de Poty [Napoleon Potyguara Lazzarotto], para
a obra de João Guimarães Rosa


Reportagem

O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário...

Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou...

Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles...

Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...

O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio...

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...

 João Guimarães Rosa
em 'Magma'.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A NAU PERDIDA - Álvaro Feijó



A NAU PERDIDA

                            Pobre, lá vai! Que rombo no costado!
                            Como a água a penetra aos borbotões!
                            Açoita-a, em fúria, o Mar. Adorna ao lado.
                            Anda à mercê das vagas, dos tufões!
                            Mas segue, segue em frente. O vento a ajuda!
                            Galga nas ondas, que doidinha, olhai!...
                            Julga-se, ainda, a nau que dantes era,
                            por levar, no porão, uma quimera,
                            por ir, do vento na refrega aguda,
                            ovante e sem saber per'onde vai!

                            Julga-se, ainda, a nau que dantes era...
                            – o que passa não torna ..
                            Na pobre nau perdida
                            a água entra e a adorna.
                            Vai sendo, aos poucos, pelo mar sorvida.

                            Na agonia estrebucha. Num desejo
                            de vida e luz, arfante, desesperada,
                            busca furtar-se ao comprimente beijo
                            do Mar que a envolve. – Após, é o Mar e nada...

                            Doirado como um astro,
                            haste esquecida em campo onde as mondas
                            colheram tudo, o topo do seu mastro
                            fica esperando ainda sobre as ondas.

                            Na rota pelo mundo
                            – ao deus-dará na vaga azul e infinda –
                            nós vamos – nau perdida em Mar profundo –
                            joguetes do tufão;
                            mas conservando, ainda,
                            na última Esperança a última Ilusão.
Álvaro Feijó

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Movimento Perpétuo Associativo - Deolinda


Movimento Perpétuo Associativo
 
Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vai parar!

Agora não, que é hora do almoço…
Agora não, que é hora do jantar…
Agora não, que eu acho que não posso…
Amanhã vou trabalhar…

Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos vencer!

Agora não, que me dói a barriga…
Agora não, dizem que vai chover…
Agora não, que joga o Benfica…
e eu tenho mais que fazer…

Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, é esta a direcção!

Agora não, que falta um impresso…
Agora não, que o meu pai não quer…
Agora não, que há engarrafamentos…
Vão sem mim, que eu vou lá ter…