segunda-feira, 21 de março de 2016

TENTATIVA DE DESCRIÇÃO DE UM BANQUETE DE MÁSCARAS EM PARIS FRANÇA - Jaques Prévert




TENTATIVA DE DESCRIÇÃO DE UM BANQUETE DE MÁSCARAS EM PARIS FRANÇA

(Publicado em Commerce em 1931)

Os que piedosamente…
Os que copiosamente…
Os que embandeiram
Os que inauguramos que crêem
Os que crêem crer
Os que crocitam
Os que pavoneiam
Os que se aproveitam
Os que sentenciam
Os que atropelam
Os que incham
Os que papagueiam
Os que lambem botas
Os que têm barriga cheia
Os que baixam os olhos
Os que sabem desossar o frango
Os que são carecas por dentro da cabeça
Os que abençoam as tropas
Os que bajulam
Os que incensam os mortos
Os que espetam baionetas
Os que dão canhões aos filhos
Os que dão filhos aos canhões
Os que se mantêm à tona sem nunca irem ao fundo
Os que não tomam o Pireu por homem
Os que têm asas de gigantes que os impedem de voar
Os que em sonhos espetam cacos de garrafa na grande muralha da China
Os que põem máscara de lobo quando comem carneiro
Os que roubam ovos e não se atrevem a cozê-los
Os que têm quatro mil oitocentos e dez metros de Monte Branco,
(…)
     O sol brilha para todos, não brilha nas prisões, não brilha
para os que trabalham na mina,
para os que escamam peixe
para os que comem carne estragada
para os que fabricam ganchos para o cabelo
para os que sopram garrafas vazias que outros beberão cheias
para os que cortam o pão com as suas facas
para os que passam as férias nas fábricas
para os que não sabem o que convém dizer
para os que mugem as vacas mas não bebem o leite
para os que não são anestesiados no dentista
para os que cospem os pulmões no metropolitano
para os que fabricam nas caves as canetas com as quais outros escreverão ao ar   livre que tudo corre bem
para os que têm demasiado para dizer para poderem dizê-lo
para os que têm trabalho
para os que não o têm
para os que procuram trabalho
para os que não o procuram
para os que dão de beber aos cavalos
para os que vêem o seu cão morrer
para os que têm o pão nosso de cada dia relativamente semanal
para os que no inverno se aquecem nas igrejas
para os que o sacristão manda ir aquecer-se lá fora
para os que vivem na miséria
para os que queriam comer para viver
para os que viajam ao rés das rodas
para os que vêem correr o Sena
para os que são contratados, despedidos, aumentados, dispensados, manipulados,  revistados, agredidos
para os que têm ficha na polícia
para os que são escolhidos ao acaso para serem fuzilados
para os que são obrigados a desfilar sob o Arco do Triunfo
para os que não têm maneiras em parte nenhuma
para os que nunca viram o mar
para os que cheiram a linho porque trabalham no linho
para os que não têm água corrente
para os que estão condenados à farda azul*
para os que deitam sal na neve por salário irrisório
para os que envelhecem mais depressa que os outros
para os que não se baixaram para apanhar um alfinete
para os que morrem de tédio ao domingo à tarde
porque vêem aproximar-se a segunda-feira
e a terça-feira, e a quarta, e a quinta e a sexta-feira
e o sábado
e o domingo à tarde.
 

 - extrato pag 13 a 31
Edição bilingue de Paroles de Jacques Prévert
Tradução de Manuela Torres

*Cor da farda dos soldados rasos a partir de1 915

domingo, 20 de março de 2016

A ciência pode classificar… - Manoel Barros

 21 de março dia mundial da poesia
A ciência pode classificar…

A ciência pode classificar e nomear os órgãos
de um
sabiá
mas não pode medir seus encantos.

A ciência não pode calcular quantos cavalos
de força
existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o
condão  de
adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.

Manoel Barros
(Livro Sobre Nada)


sábado, 19 de março de 2016

Iniciação do Prisioneiro - Thiago de Mello

Iniciação do Prisioneiro
(Poema escrito a 21 de novembro de
1965, numa cela do Quartel da Polícia
do Exército, no Rio de Janeiro, ao qual
o autor foi recolhido por haver participado
de uma manifestação contra a ditadura,
em frente ao Hotel Glória, no
instante mesmo em que ali chegava o
ditador para inaugurar a Conferência
da OEA. Desse protesto participaram,
entre outros, os companheiros Antônio
Callado, Jayme de Azevedo Rodrigues,
Carlos Heitor Cony, Márcio Moreira
Alves, Flávio Rangel, Glauber Rocha,
Joaquim Pedro de Andrade e Mário
Carneiro, todos eles presos — e aos
quais é dedicado este poema.)


É preciso que Amor seja a primeira
palavra a ser gravada nesta cela.
Para servir-me agora e companheira
seja amanhã de quem precise dela.


Não sei o que vai vir, mas se desprende
dessa palavra tanta claridão,
que com poder de povo me defende
e me mantém erguido o coração.


No muro sujo, Amor é uma alegria
que ninguém sabe, livre e luminosa
como as lanças de sol da rebeldia,
que é amor, é brasa e de repente é rosa.


Thiago de Mello

sexta-feira, 18 de março de 2016

Assentamento - Chico Buarque




Assentamento
Chico Buarque

Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
-- contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido de coração

Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora

Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora

Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora