quinta-feira, 7 de abril de 2016

HO CHI MINH - poemas


«Quando Ho Chi Minh saiu da prisão e lhe perguntaram como conseguiu escrever versos tão cheios de ternura numa prisão tão desumana ele respondeu: «Eu desvalorizei as paredes.» Essa lição se converteu num lema da minha conduta.» Mia Couto

I - OUVINDO O CANTAR DO GALO




Você é só um velho galo comum,
Mas toda madrugada você canta saudando a aurora.
Có-có-ri-có ! Você tira a gente do sono.
Sua tarefa de cada dia tem a sua importância.

II - NOITE DE OUTONO

Junto ao portão, está postado o guarda com seu rifle.
No alto, nuvens desordenadas escondem a lua.
Os percevejos fazem manobras nas camas,
enquanto os mosquitos formam esquadrilhas, atacando como caças.
Meu coração viaja mil li para longe, no rumo de minha terra natal.
Meu sonho é um emaranhado de tristezas, um nó de fios misturados.
Inocente, completo agora um ano inteiro na prisão.
Usando minhas lágrimas como tinta, transformo meus pensamentos em versos.


in, Diário de Prisão de Ho Chi Minh, Ed. Difel, Rio .Sem data, nem nº de edição
consiste de 115 versos – quadras e poemas Tang no clássico estilo chinês.
Ho escreve na Primeira Página do Diário:

Recitar versos nunca foi um dos meus hábitos,
Mas agora, na prisão, que me resta mais fazer?
Esses dias de prisão vou passar escrevendo poemas,
E o seu canto trará mais depressa o dia da liberdade.

Cantar a natureza era o prazer dos antigos
Flores e neve, luz e vento, montanha e rios.
É preciso armar de aço os versos de nosso tempo
E o poeta também deve saber combater.

Mesmo com as pernas e braços fortemente amarrados,
Por toda montanha eu ouvi o canto dos pássaros,
E senti através da floresta o perfume das flores da primavera.
Quem me impede de fruir livremente isso,
que tira da longa jornada um pouco da sua solidão?

quarta-feira, 6 de abril de 2016

VÍDEO-GAME - Augusto de Guimaraens Cavalcanti


VÍDEO-GAME
Para Domingos Guimaraens

E quantos campeões de vídeo-game não são perdedores na vida? Afinal que delicada poesia é essa que evapora fácil e ainda assim é poesia, mais real que o real. Deuses de vidro, igrejas de sal. Vídeo-games deveriam se chamar dilúvios azuis. Que delicados maestros são esses que conquistam o mundo inteirinho e depois se apagam quando a tela se suicida? E quantos deuses do vídeo-game não morrem na simulação da vida, nessa estrada de idiotas. E quantas histórias lindas não são facilmente descartáveis pela tirania e quantos vídeo-games bonitos não apodrecem no vento? E quantos campeões de vídeo-games não são perdedores na vida?
Augusto de Guimaraens Cavalcanti

segunda-feira, 4 de abril de 2016

ALENTEJO - João Pedro Mésseder

ALENTEJO

Junta o rio e seu advérbio: nasce um país. Com homens, vinho, um pão difícil.
Tenta pronunciar a palavra como se de uma planície se tratasse; depois a terra interminável, a água na sua escassez. E também o sol. E o amarelo da terra, entre um arco-íris de ocres e castanhos, dispostos com rigor na tela do Verão.
No alto de um pequeno monte, no centro da palavra, descobrirás então outra cor. A forma será a de uma casa coberta de cal. Pronuncia a cor como se a visses pela primeira vez e como se, ao pronunciá-la, o mundo recomeçasse.»

João Pedro Mésseder

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Defesa do lobo contra os cordeiros - Hans Magnus Enzensberger



Defesa do lobo contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?
o que exigem do chacal?
do lobo, que mude de pele? Querem
que ele mesmo extraia seus dentes?
O que é que não apreciam
nos comissários políticos e nos papas,
porque olham, feito burros,
o vídeo mentiroso?

Olhem-se no espelho: covardes,
temendo a fadiga da verdade
sem vontade de aprender, entregando
o pensar aos lobos
um anel no nariz como adorno preferido,
nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
barato o suficiente, cada chantagem
ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vocês:
vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
Fraternidade reina
entre lobos:
andam em alcateias.

Louvados sejam os salteadores: vocês
convidam para o estupro
deitando-se no leito preguiçoso
da obediência. Mesmo gemendo
vocês mentem. Querem
ser devorados. Vocês
não mudam o mundo.

Hans Magnus Enzensberger
(Tradução de Kurt Scharf e Armindo Trevisan)

:

Verteidigung der Wölfe gegen die Lämmer

soll der geier vergissmeinicht fressen?
was verlangt ihr vom schakal,
dass er sich häute, vom wolf? soll
er sich selber ziehen die zähne?
was gefällt euch nicht
an politruks und an päpsten,
was guckt ihr blöd aus der wäsche
auf den verlogenen bildschirm?
wer näht denn dem general
den blutstreif an seine hose? wer
zerlegt vor dem wucherer den kapaun?
wer hängt sich stolz das blechkreuz
vor den knurrenden nabel? wer
nimmt das trinkgeld, den silberling,
den schweigepfennig? es gibt
viel bestohlene, wenig diebe; wer
applaudiert ihnen denn, wer
steckt die abzeichen an, wer
lechzt nach der lüge?

seht in den spiegel: feig,
scheuend die mühsal der wahrheit,
dem lernen abgeneigt, das denken
überantwortend den wölfen,
der nasenring euer teuerster schmuck,
keine täuschung zu dumm, kein trost
zu billig, jede erpressung
ist für euch noch zu milde.

ihr lämmer, schwestern sind,
mit euch verglichen, die krähen:
ihr blendet einer den anderen.
brüderlichkeit herrscht
unter den wölfen:
sie gehen in rudeln.

gelobt sein die räuber: ihr,
einladend zur vergewaltigung,
werft euch aufs faule bett
des gehorsams. winselnd noch
lügt ihr, zerrissen
wollt ihr werden. ihr
ändert die welt nicht.