sábado, 25 de junho de 2016

Guia para candidatos aos infernos - Almeida Faria


Guia para candidatos aos infernos

V
Candidatos Luxuriosos

Ao contrário

Dos patamares do purgatório,

Agrestes, nus, exaustos, escalvados,

Monótonos, concêntricos, iguais, repetitivos,

Sem que ao pobre mortal, depois de morto, agrade o esforço

De escalar degrau após degrau, até ao cimo nebuloso, o anfiteatro

Circular do monte seco, fero, duro e estéril, os infernos

São um mar ebuliente, um magma imenso,

Comparável ao sem fundo da luxúria

Onde nós, os deste culto,

Entraremos sem custo.

No meio das ágeis águas desse mar,

No coração das ondas desse magma,

Fica o gelado Lago dos Lamentos.

Aí, perto da lúcida luz de Lúcifer,

Seremos, como Paolo e Francesca,

Luxuriosos por inteiro, e para sempre.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

A Europa segundo Filipa Leal




A Europa segundo Filipa Leal*

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
Nós não queremos disparar.

Filipa Leal
*É um poema em cadeia escrito por 28 poetas de 28 países europeus, que abordam de forma literária as questões do presente e futuro da Europa. Cada poeta começa a escrever a partir do último verso do poema anterior, dando origem a uma obra gigantesca que espelha uma miríade de olhares e referências culturais. Este poema foi lido pela autora em português, na sessão de apresentação da obra conjunta, na Akademie der Künste de Berlim.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O céu das gruas - Fernando de Castro Branco

fernando de castro branco
(Miranda do Douro), 1959
o céu das gruas 

Lázaro Inocêncio do Nascimento,
manobrador de gruas na auto-estrada
transmontana sai do túnel do Marão
para a negra luz do desemprego
e das carências em família. Manobrou

com perícia a cegonha de ferro no céu
da montanha, dialogou com Deus
e com os pássaros sociáveis; olhou
para o fundo de si e concluiu que na terra
ou nas nuvens a vida é sempre abismo

onde a altura é uma questão menor. Hoje
desceu de vez as escalas íngremes,
findou a concessão do troço e do capital,
agora está entregue a si que o mesmo é dizer
ao destino de ninguém. Lázaro

Nascimento diz que com esta descida
à terra morreu um pouco, e assim à terra
descerá definitivamente em tempo certo
sem estranheza de maior. Não carece
pois o Mestre o ressuscitar por mais

que alastre o pranto das irmãs
e os direitos da quadra. Na ferrugem
definitiva dos materiais o sinal perene
de que não vale a pena o esforço
de retirar os panos uma e outra vez.
fernando de castro branco
Fernando de Castro Branco (Duas Igrejas, 1959). Professor, poeta e ensaísta. Publicou Poética do Sensível em Albano Martins (2004), Alquimia das Constelações (2005), O Nome dos Mortos (2006), Biografia das Sombras (2006), Estrelas Mínimas (2008), Plantas Hidropónicas (2008), A Carvão – Poesia Reunida (2009). Também publicou poemas e ensaios em revistas literárias e antologias temáticas dentro e fora do país.