domingo, 4 de setembro de 2016

Liberdade - António Borges Coelho



Liberdade

... amo-te de menino
Encontrei-te 
num mundo de operários
na prisão.
É tempo! É tempo!
O nosso Povo sofre
Sai para a rua
Com uma flor na mão!

A liberdade tal como a definiu António Borges Coelho em Janeiro de 1957

sábado, 3 de setembro de 2016

OPERÁRIAS - Carl Sandburg

OPERÁRIAS

As raparigas operárias que de madrugada vão para
     o trabalho, caminham em longas filas entre as
     lojas e as fábricas da cidade baixa. São milhares.
     Trazem debaixo do braço o almoço embrulhado
     em papel de jornal.
Todas as manhãs, quando me cruzo com este rio de
     jovens vidas femininas, pergunto a mim mesmo
     para onde vai ele, para onde vão faces aveludadas
     de juventude, risos de lábios róseos e recordações,
     nos olhos, das danças da noite anterior, de
     brincadeiras e passeatas.
Verdes e cinzentas correntes vão lado a lado no
     mesmo rio: também aqui há sempre as outras,
     as que já concluíram a vida, as que conhecem
     o fim do jogo que é a vida, o sentido que ela tem,
     o nó do problema, o como e o porquê das danças
     e dos dedos que lhes acariciaram os cabelos.
Passam caras e nelas está escrito: "Sei tudo, sei onde
     vão acabar a frescura e o riso. Tenho as minhas
     recordações", e caminham com pés mais
     vagarosos: mostram experiência em lugar da
     beleza que as outras ostentam.
Assim o verde e o cinzento correm misturados, de
     manhãzinha, pelas ruas da cidade baixa.

trad. Alexandre O'Neill
1878 - 1967

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Mar novo - Manuel Rui Alves Monteiro

Mar novo

1

E a embarcação aparecia como um barco de recreio.
Do pescador a musculatura dolorosamente suada
merecia uma simples pincelada
de silhueta negra
impressionismo fácil
afirmação exótica de que o dongo
não andava sozinho.

2

Mas é novo este azul    tela rasgada
é novo o nosso olhar.
É nova esta forma gestual de espuma
feita sabor de amor de guerra e de vitória
em nossas bocas férteis em nossa pálpebras
de antigo medo clandestino
soletrando a lágrima
quando era o nosso mar recordação também
escravizada:
caminho secular de ir e não vir.

3

É nova esta areia
este marulhar de fogo nos ouvidos
quase notícia do rebentamento maior
sobre o inimigo.
É novo este calor como se o sol
fosse um ananás coletivo suculento
rasgado pelos dedos da madrugada mais quente
e mais suave.

4

E é bom medir a água evaporada
sobre a concha
a alga
a rocha.
Medir também teu corpo natural
onde encontrar a boca
os pés
os olhos
a palavra.

5

E é bom verificar as mãos. Principalmente
as nossas mãos umedecidas pelo mar.
As mãos que tocam as coisas
As mãos que fazem as coisas
As mãos. As mãos terminal de carga
e de descarga do nosso pensamento
As mãos mergulhadas sob a água.
na (re)descoberta tímida das essências
no pulsar submarino de uma nova esperança.

6

Tudo é fugaz
entre o desenho do teu pé na areia
e a onda que desfaz
a marca

Entre a guerra e a paz
retorno fisicamente o poema      a onda
constante meditação primeira.

Nós e as coisas.

Nada permanece que não seja
para a necessária mudança.
 Que o diga o mar.