sexta-feira, 23 de setembro de 2016

OS SÁTRAPAS - PABLO NERUDA

OS SÁTRAPAS

Nixon, Frei e Pinochet até hoje
até este amargo e doloroso mês de Setembro
do desgraçado ano de 1973.
Juntamente com Bordaberry, Garrastazu e Banzer,
são hienas vorazes da nossa história, roedores
a corroerem com venenosos dentes os pendões conquistados
com tanto sangue vertido e no meio de tanto fogo,
são réus infernais,
enlameados no pantanal das riquezas mal adquiridas,
sátrapas mil vezes vendidos e vendedores
incitados pelos lobos de Nova Iorque.
São máquinas esfomeadas por dólares,
manchadas no sacrifício
dos seus povos martirizados,
mercadores prostituídos
do pão e do ar das Américas,
cloacas assassinas e mal cheirosas
chefes de rebanhos de homens
sem conhecerem outra lei senão a da tortura, da fome e do chicote
que impõem aos seus povos.


CHILE, 15 de Setembro de 1973
(O último poema de Neruda – publicado no Semanário
«A OPINIÃO» em Outubro de 1973.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SALAMARGO - Eduardo Alves da Costa



SALAMARGO


Salamargo é o pão de cada dia;
pão de suor, amargonia.
Amargura por viver nesta agonia,
salamargando a tirania.

Salamargo é o tirano, segundo a segundo
amargo sal que salga o mundo.
Assassino das manhãs, carrasco das tardes,
ladrão de todas as noites
e de seu mistério profundo;
carcereiro de seu irmão, a transmudar
a fantasia em noite de alcatrão.

Amaro é fado de nascer escravo,
amargonauta em mar de sal,
nesta salsa-ardente irreal em que cravo
unha e dentes, buscando viver
como um bravo entre decadentes.

Salamargo, tão amargo quanto
o mais amargo sal, é comer
o pão de cada dia sob o tacão
da tirania. Um pão amargo,
sem sal, pobre de amor e fantasia.
Salamargo existir sem poesia.

no livro “No Caminho com Maiakóvski”

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sigamos o cherne! - Alexandre O'Neill


Sigamos o cherne!
(Depois de ver o filme O Mundo do Silêncio de Jacques-Yves Cousteau)

Sigamos o cherne, minha amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...