quinta-feira, 18 de julho de 2019

Linguagem e medo global - Eduardo Galeano

Linguagem e medo global


Na era vitoriana, as calças não podiam ser mencionadas na presença de uma senhorita.

Hoje, não fica bem dizer certas coisas na presença da opinião pública. 


O capitalismo ostenta o nome artístico de economia de mercado, o imperialismo chama-se globalização.

As vítimas do imperialismo chamam-se países em vias de desenvolvimento, o que é como chamar de crianças aos anões.

O oportunismo chama-se pragmatismo, a traição chama-se realismo.

Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

A expulsão das crianças pobres do sistema educativo é conhecida sob o nome de deserção escolar.

O direito do patrão a despedir o operário sem indemnização nem explicação chama-se flexibilização do mercado laboral.

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.

Ao invés de ditadura militar, diz-se processo.

As torturas chamam-se pressões ilegais, ou também pressões físicas e psicológicas.

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões e sim cleptómanos.

O saqueio dos fundos públicos pelos políticos corruptos responde pelo nome de enriquecimento ilícito.

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos automóveis.

Para dizer cegos, diz-se não visuais, um negro é um homem de cor.

Onde se diz longa e penosa enfermidade deve-se ler cancro ou SIDA.

Doença repentina significa enfarte, nunca se diz morte e sim desaparecimento físico.

Tão pouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares.

Os mortos em batalha são baixas, e as de civis que a acompanham são danos colaterais.

Em 1995, aquando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: "Não me agrada essa palavra bomba, não são bombas. São artefactos que explodem".

Chamam-se "Conviver" alguns dos bandos que assassinam pessoas na Colômbia, à sombra da proteção militar.

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade a maior prisão da ditadura uruguaia.

Chama-se Paz e Justiça o grupo paramilitar que, em 1997, metralhou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, no momento em que rezavam numa igreja da aldeia de Acteal, em Chiapas. 

 


quarta-feira, 17 de julho de 2019

Noite - José Crisóstomo Bação Leal

Noite
Se tivesses boca e fosses mulher
conheceria o morrer de amor

Toma uma almofada e dorme
Não insistas em compreender
o que julgas que te faz sofrer
será melhor que adormeças
que pura e simplesmente te esqueças
que existes numa sociedade
que aceita a fome como uma necessidade
na medida em que ela
lhe alimenta a conversa
quando não tem nada para dizer
Esquece o lugar onde vives
e transporta-te para outro mundo
onde possas ser à vontade um vagabundo
e onde alguém sofre quando dizes
que pensas seriamente em desaparecer.

Poesias e Cartas, Tipografia Vale Formoso,  Porto, 1971
Poesias recolhidas pela mãe do autor de rascunhos que este deitava fora e que assim escaparam à fogueira em que Bação Leal destruiu as suas poesias antes de embarcar para Moçambique.


terça-feira, 16 de julho de 2019

PANFLETÁRIO - JORGE BARBOSA


PANFLETÁRIO 

ao poeta José Bizarro 

Era para eu
ser panfletário.

Os meus escritos
teriam a verrina
as iras
o rubro
grito da revolta!

Era para eu
ser panfletário.

Combateria
            os tiranos
            os arbitrários
            os agiotas
            os exploradores da miséria
            e do trabalho dos pobres
            os homens poderosos
            e os seus mandatários
            e bajuladores
            e as leis que os protegem.

Era para eu
ser panfletário.

Teria o porte
audaz e altivo
e belo
de um guerreiro.
Levaria nos olhos
a chama e os sonhos
no sorriso um ar
amargo e triste
a cabeça ao léu
impávida erguida
e a cabeleira ao sol
ao vento
e ao frio nocturno
dos secretos e longos
caminhos da fuga.

Era para eu
ser panfletário.

Ao passar pelas ruas
das vilas rurais
então se fechariam
as portas para mim.
Talvez pelo exíguo
espaço de alguma
janela entreaberta
os pais me apontassem
aos filhos tementes
e lhes segredassem
— o panfletário!

Era para eu
ser panfletário
Escreveria
            panfletos
            sátiras
            libelos
seria
            o inimigo
            o subversivo
            o foragido
            o perseguido
            o réprobro
conheceria
            tribunais
            esconderijos
            cárceres
sentiria
            a fome e o cansaço
            teria no corpo
            a tatuagem marcada
            das torturas policiais.

Era para eu
ser panfletário.

O magnífico
e heroico destino
que eu imaginava
tão liricamente
ser o meu
venceram-no
a prudência
o temor
a família
venceu-o
este meu outro
real
e melancólico
destino burocrático...

Era para eu
ser panfletário.

Não o fui
e ainda me dói
o desejo de o ser...

Mas agora
com o resíduo do tempo
tingindo de branco
os meus cabelos
gotejando
doloroso
nos meus ossos
é tarde demais
para a magnífica aventura...

Era para eu
ser panfletário.


Ilha do Sal, aeroporto, 24 de Novembro de 1966
(in revista África, n° 2, Outubro-Dezembro de 1978. Esta última versão contém ligeiras alterações)

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Café-Expresso - Cassiano Ricardo

Café-Expresso

1

Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um
pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um
cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...

2

Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha
uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!


 Cassiano  Ricardo

In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198