sábado, 12 de outubro de 2019

Adeus trigo - Arquimedes da Silva Santos

(Desenhos, Álvaro Cunhal)


Adeus trigo

Adeus trigo ai adeus trigo
Depois de ceifado adeus
Amanho-te e não mastigo
Nem eu nem eu nem os meus.

Searas cor do sol posto
Meu mar alto de aflição
Encho-o com suor do rosto
Em troca falta-me o pão.

Ai campos como os meus olhos
Rasos de água tanta vez
Foram-se espigas nos molhos
Vem fome pró camponês.

 (Musicado por Luís Cília)

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

TUDO SE TRANSFORMA - Bertolt Brecht

TUDO SE TRANSFORMA

Tudo se transforma.
Recomeçar é possível mesmo no último suspiro.
Mas o que aconteceu, aconteceu. E a água
que puseste no teu vinho não pode
mais ser retirada.
O que aconteceu, aconteceu. A água
que puseste no teu vinho não pode
mais ser retirada. Porém
tudo se transforma. E recomeçar
é possível mesmo no último suspiro.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Poesia premiada

Olga contra o conservadorismo do governo polaco

Peter um afirmado anti-NATO

E TAMBÉM DISTINGUIDOS COM O PRÉMIO NOBEL DE LITERATURA

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

ACONSELHO-VOS O AMOR - Fernando Assis Pacheco

ACONSELHO-VOS O AMOR

Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor cheio de força;
os moinhos girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
— vão dizer-vos que não —
para os gestos diários).

ACONSELHO-VOS A LUTA.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Como lobos de súbito - Daniel Filipe




Como lobos de súbito 


Como lobos de súbito
irrompem na planície citadina
carregados de morte

Seu nome é violência
 
Trazem nas mãos mortíferos sinais
e de órbitas vazias
caminham em silêncio
envoltos na terrível solidão
do crime encomendado

Marginam as esquinas
escondem o rosto sob aço liso
dos negros capacetes
e anónimos ocultos
pela espessa cortina de ódio e névoa
como robots avançam

A morte engatilhada
espera o momento de partir Agora
Cumpra-se o ritual

Uma voz grita Viva
a liberdade O coro lhe responde
pontuados de tiros

Canalhas Temos fome
Arranquemos as pedras da calçada
Ó meu amor resiste

Resiste os olhos secos
Sem lágrimas Sem medo Só talhada
no sílex da ira

Pronta a dar corpo ao sonho
e entanto testemunha do martírio
companheira e amante

De mãos dadas cantando
abrimos flores às balas assassinas
merecemos a vida