domingo, 20 de outubro de 2019

Os meninos de Huambo - Letra: Manuel Rui Monteiro Música Rui Mingas interprete Paulo de Carvalho




 


Interprete Paulo de Carvalho
 


Os meninos de Huambo

Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos de Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia

Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar

Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

sábado, 19 de outubro de 2019

Apertem os cintos… está prestes a aterrissar!

“Novo livro de Ana Margarida de Carvalho em outubro”

«A Relógio d`Água vai publicar "O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça", o mais recente livro da premiada escritora portuguesa Ana Margarida de Carvalho, cuja história gira em torno de duas sociedades fechadas na raia alentejana, que vivem à margem da lei, em tempos próximos da guerra civil espanhola.»

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Chullage – Eles Comem Tudo


 

Chullage – Eles Comem Tudo

E a Finança enche a pança
Com o aval da liderança
Despedimentos em vez de aumentos
São os rumos da mudança
Especuladores, ladrões de ofício
grandes salários e benefícios
Bebem o fruto do nosso suor
E depois pedem-nos sacrifícios
Apoderam da gerência
Levam empresas à falência
Saem com bónus de milhões
E despedem sem clemência
E o salário mingua
Pra que o lucro não diminua
Justificam-se com a crise
E os bancos põem-nos na rua
Saem do público pró privado
Depois do futuro adjudicado
Vendem serviços a eles próprios
Pilhando cofres do estado
Combatem o défice à nossa mesa
Mas vivem a grande a francesa
Congelam salários e subsídios
Que é pra cortar a despesa

Fazem-nos retenção na fonte
Enquanto empresas põem-se a monte
Num paraíso fiscal
Pra lá do nosso horizonte
Impõem o empréstimo
Em troca de soberania
Enriquecem com os juros
E sufocam a democracia
Cortam na educação
Exigem mais avaliação
Abandonam o ensino público
Mas os seus filhos lá não estão
Saúde também leva facada
Comparticipação cortada
Morremos na fila de espera
Que eles estão na clínica privada
Falam de paz e democracia
Igualdade cidadania
E dão-nos o direito de escolha
Pró próximo rosto da tirania
Entram com tanques e aviões
Chamam paz a ocupações
Deixam um rasto de sangue
Na riqueza das nações
Trazem cérebros e minérios
Deixam escombros e cemitérios
Enriquecem a reconstruir
Os seus velhos impérios
Pro mundo levam do ocidente
Os seus restos e excedentes
E em nome de ajuda humanitária
Destroem a economia das gentes
Entram com máquinas a dentro
Expulsam-nos do nosso alojamento
Pra longe em prisões de cimento
E fazem grandes empreendimentos
Dos seus condomínios fechados
Com seguranças e empregados
Afastados da miséria
E ódio por eles criado

Vêm com o grande capital
Abrem o centro comercial
Catedral do consumo
E matam o comércio local
Nas terras de outros enchem carteiras
Fazem turismo com peneiras
Refugiam-se na fortaleza
E fecham as suas fronteiras
Fazem crescer economias
Parasitando minorias
últimos a quem reconhecem
Liberdades e garantias
cruzadas evangelistas
Holocaustos sionistas
vão conquistando o mundo
Na caça aos fundamentalistas
Pregam a fé dos belicistas
Queixam-se de guerrilhas e bombistas
pela contagem das vítimas
Eles é que são os terroristas
Impunes a roubar milhões
Prendem os pequenos ladrões
Que neste pa´s pilhado
Gladiam-se por uns tostões
Depõem o inimigo eleito
E põem o amigo do peito
Pra manejar as marionetas
Do colonialismo refeito
Aumentam o orçamento
Pra guerra e policiamento
Pra conter o descontentamento
Esse é o crime violento

Pra se proteger da multidão
Que só quer pão e habitação
Comem tudo o que há pra comer
E deixam-nos a estender a mão

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

MAR DE PENICHE - Armando Silva Carvalho




MAR DE PENICHE 


1

Todos os dias
acordam
violadas
estas praias
que dizemos
virgens.
2

A chuva
esse suor
do mar
já não desfaz
a solidão dos homens
ou o piar dos corvos. 
3

Mar de Peniche
onde os peixes se atiram
contra os barcos
e as grutas dos rochedos
nada acoitam.
4

As traineiras
juntaram-se a dormir.
Mas o mar não esquece
e grita
contra a fortaleza. 
5

O mar
sorveu
todo este dia
exausto.
E o que fica
da praia
são estas pedras
lassas
transidas
pelo sono.

6

O que fica
das pedras
é este mar
de sono
que os homens
já submersos
sorvem
a curtos
haustos.

7

O que fica
da noite
são os presos
exaustos
que as pedras
dissimulam
e o mar
absorveu.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

“Em Creta, com o Minotauro"

 “Em Creta, com o Minotauro"
I

Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

II

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da “langue”.
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.

III

É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.

IV

Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.

V

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

Poesia-III (Peregrinatio ad Loca Infecta, Exorcismos, Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos, Conheço o Sal… e Outros Poemas, Sobre Esta Praia…), Moraes Editores, 1978