sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

INTER-VIAGENS - Ivo Machado

INTER-VIAGENS

No comboio direção a Lisboa, uma mulher
— humilde, tem sua idade no rosto de rosa encarnada —
acordou-me para vender Queijadinhas de Coimbra
e Pasteis de Tentúgal. E de repente, de Norte
para o Sul, o que alcanço
não é o que a mulher traz no cesto, o que alcanço
não é o cenário através da janela em movimento,
nem sequer os rumos das grandes questões da Poesia;
não pergunto onde começa ou acaba
a nossa melancolia como Povo, onde principia a viagem
sem saída que sempre me traz dentro de um poema.
O que alcanço é o nada, ou assim me parece
vou em viagem; vou de viagem
atravesso uma espessura de dédalos com ou sem funduras
de melancolia, com ou sem borboletas por entre as pétalas
das rosas abrindo, que pressinto débeis como frágeis
os meus laivos de memória salobra
reflectidos num animal serpenteando-se mais além
— Um réptil carregando o meu espanto
vou em viagem; vou de viagem
sabendo que desembarcando, voltarei de novo a embarcar
imaginando que os poetas
viajam por dentro das rosas encarnadas, na sombra
de uma árvore ou na cauda de um cometa, esperando
que desembarque a mulher fazendo as suas matemáticas
misturadas em perguntas ao coração
Ah, quantas Queijadinhas de Coimbra
e Pasteis de Tentúgal terão cumprido a sua função?

(Inédito)

(Inédito) In, Os Limos do Verbo, 2005

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Menina dos meus olhos - José Mário Branco





Menina dos meus olhos

 
Fosse a menina dos meus olhos puta
e fornicara com as televisões
as duas novas da greta e da gruta
e as duas velhas pelas mesmas razões

 
rectangular e omnipresente nesga
que tem pra tudo as melhores soluções
fosse a menina dos meus olhos vesga
logo lhe dera as suas atenções

 
ai fosses tu menina dos meus olhos
com teus lacinhos e caracóis
a inocência vai nos entrefolhos
e fica a pátria amada em maus lençóis

 
entram pelas casas sem ser convidados
tempos de antena e outros futebóis
ficaram todos mais bem informados
opinião pública dos o...rinóis


são cus e mamas a dançar de gatas
mailas gravatas dos seus figurões
as euforias ficam mais baratas
e domesticam-se as excitações


pobre menina ficas à janela
depenicando as tuas distracções
lavas a loiça fazes a barrela
mas essa merda não cede às pressões


os antropófagos das nossas dores
tomaram conta da aldeia global
fazem milhões a converter horrores
em audiências de telejornal

 
o insuportável torna-se rotina
e a realidade já é virtual
a dor da gente é inesgotável mina
que lhes rentabiliza o capital

 
as reportagens e as telenovelas
juntam os trapos pezinhos de lã
com a verdade ali a olhar pra elas
histórias da civilização cristã

 
já não é sangue o líquido vermelho
que nos reserva o dia de amanhã
e tu menina vais-te vendo ao espelho
e sofres dos dois lados do ecrã

 
noventa e quatro chegou à cidade
noventa e oito está quase a chegar
fez vinte aninhos a nossa liberdade
já é bem tempo de a desvirginar

 
e se o dinheiro não dá felicidade
televisões bem a puderam dar
talvez que para manter a sanidade
eu chegue ao ponto de ter que cegar

 
e a menina dos meus olhos há-de
conseguir ver para além do meu olhar. 



quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A vila de Alvito - Raul de Carvalho


 
A vila de Alvito

A vila de Alvito
tem ruas e praças
homens e mulheres
e muitas desgraças.
A vila de Alvito
tem dois lavradores.
Tem muita riqueza
e raros amores.
A vila de Alvito
Tem uma cruz ao lado -
Quem manda na vila
não lhe dá cuidado
Maltezes, ganhões,
sangue misturado.
Na vila de Alvito
é que eu fui cuidado.


QUE MÁGOA TENHO! QUE MÁGOA TENHO - Arquimedes da Silva Santos

QUE MÁGOA TENHO! QUE MÁGOA TENHO


Que mágoa tenho! Que mágoa tenho!
Em minha pátria estranho.

(E a medo e em segredo
Ver o voo de aves
Remar a outro lar)

Em minha pátria estranho
Que mágoa tenho? Que mágoa tenho?

In «Cantos cativos – Poemas coligidos: 1938-58», de Arquimedes da Silva Santos,
Colecção Campo da Poesia (n.º 51), Campo das Letras, Porto, Maio de 2003 (1.ª edição).