terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Poema IX, na secção “Gândara”



Poema IX, na secção “Gândara”

De verão e de inverno – casa sem telha.
Estio no rosto,
chuvas pela noite velha.
Ganhão me vou ao cabo do inferno
– mosquitos e febres

de verão e de inverno.
Idas e voltas – e a casa sem telha.
Fomes da Gândara
na noite velha.
Ganhão me vou –
e antes não viesse.
– Senhor! O pobre o que merece?
Chuvas e vento – inverno
sem lenha.
E cá me vou ao cabo do inferno.
Antes me vá
– e não venha


domingo, 5 de janeiro de 2020

A Banda - Chico Buarque De Hollanda

Chico Buarque De Hollanda
Prémio Camões 2019

 



Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
(Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor)
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor



sábado, 4 de janeiro de 2020

Um tributo a Ahmad Fouad Najm - Raja Chemayel



Um tributo a
meu mestre, pai e ídolo.

Subjuguem todos os Regimes Árabes,
Subornem-nos e domestiquem-nos.
Enganem as massas árabes
abortem quaisquer direitos nacionais
suprimam todas as aspirações de liberdade
e depois chamem-lhe Paz
Invadam qualquer país não colaborante
ameacem qualquer país desafiador
abafem qualquer economia emergente
protejam qualquer sistema corrupto
e depois chamem-lhe Democracia
Enforquem os nossos líderes
Bombardeiem as nossas escolas
Treinem os nossos carcereiros e o aparelho secreto
Armem os nossos Ditadores, Reis e Princesas
Bombeiem o nosso petróleo
e depois chamem-lhe Liberdade.
e vendam-no de volta a nós próprios, como plástico
Roubem a nossa cultura
e vendam-na de volta, como desenvolvimento.
Falsifiquem a nossa Bíblia e as Escrituras
e vendam-nas de volta a nós próprios, como Israel.

um anão, à beira de Ahmad Fouad Najm.
no oitavo dia do sétimo mês de 2008


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Julgavas, então, que a poesia era um discurso - António Franco Alexandre




Julgavas, então, que a poesia era um discurso

Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.

Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal, que bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente a tua mão, cobrindo a folha.

António Franco Alexandre

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999.