sábado, 22 de fevereiro de 2020

TOMAR PARTIDO - José Carlos Ary dos Santos



TOMAR PARTIDO


Tomar partido é irmos à raiz
do campo aceso da fraternidade
pois a razão dos pobres não se diz
mas conquista-se a golpes de vontade.

Cantaremos a força de um país
que pode ser a pátria da verdade
e a palavra mais alta que se diz
é a linda palavra liberdade.

Tomar partido é sermos como somos
é tirarmos de tudo quanto fomos
um exemplo um pássaro uma flor.

Tomar partido é ter inteligência
é sabermos em alma e consciência
que o Partido que temos é melhor.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

HOMILIA COM DEFENESTRAÇÃO - Inês Lourenço


HOMILIA COM DEFENESTRAÇÃO

Nós os crentes
falamos da ventura
do ser e do lugar
heróico na Criação, daquele vizinho
tetraplégico ou do privilégio redentor
do nosso tumor na tiróide. 


Outros não
menos crentes do que nós
filiam-se ainda nos teoremas do
despertar político dos povos


Passamos os anos a
consumir as fábulas
desejantes de corpos, terras, casas, 
viagens, outras vidas. 


Quando Deus fecha uma porta
abre uma janela e que seja bem alta
para gozarmos da força
da gravidade
até ao chão.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

De boca concêntrica na rota do sol - Corsino Fortes


De boca concêntrica na rota do sol

Depois da hora zero
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes
E a seiva não longe do coração


E

Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta

África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda

Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra

*

A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha

partida partidas
E dobra a espinha

como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante

o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente
E muita luta.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

"Fado Tropical" - Chico Buarque e Ruy Guerra




"Fado Tropical"

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

``Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo

além da sífilis, é claro 
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,
trucidar
Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora...''

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

``Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intencão e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa''

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

Letra e música 1972-1973

"Fado Tropical" é mais uma música de Chico Buarque de Hollanda que mostramos um pouco de  como surgiu. Como na semana passada apresentamos a primeira música de "Histórias de canções", livro de Wagner Homem, onde o autor, depois de muitas pesquisas e conversas com Chico e amigos conseguiu saber a história da maioria das músicas do poeta carioca. Hoje, mostramos como Chico inspirou-se para fazer  "Fado tropical", música dele e de Ruy Guerra.
Nesta canção, de 1973, Chico faz uma perfeita comparação poético-cultural entre Portugal e Brasil.  O País luoso vivia em plena ditadura fascista de Marcelo Caetano e o Brasil já se sabe, não é? A música, de letra longa e rica, entremeada por um soneto declamado por Ruy Guerra, foi tida como ofensiva tanto por Portugal como pelo Brasil.  Com a Revolução dos Cravos, que em Abril de 1975 depôs a ditadura portuguesa,  a música ficou sendo considerada subversiva e ameaçadora para o regime militar que ainda vigorava pelas nossas bandas.
A capa do disco teve que ser modificada às pressas  por causa da censura e na troca sobrou para Ruy Guerra, que teve seu nome retirado da capa branca. O soneto recitado por Ruy  com um perfeito sotaque lusitano além de cheio de lirismo é politicamente forte e sofreu um corte pela censura na parte em que o teatrólogo diz: "Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sifilis, claro). Detalhes interessantes nas comparações, principalmente culturais e geográficas entre Portugal e Brasil são o que dão  maior riqueza à música e ao grande sucesso do teatro que foi "Calabar". Curtam Chico, Fado Tropical e um pouco da história desta beleza de música. Marcos Moraes de Lima»