quarta-feira, 25 de março de 2020

Cordura de Deus que acalmas o pecado do mundo - Juam Bonilla

Cordura de Deus que acalmas o pecado do mundo

Pai-nosso que está em local
desconhecido, livra-nos de Ti.

Não nos preenchas o tempo com tua ausência.

Tu utilizaste o fogo do inferno
para acender o sol da nossa infância.

Não nos dês a eterna certeza dos teus olhos
depois de que os nossos já não possam
olhar a rosa negra da vida.

Oh sanidade de Deus que procuras
o pecado do mundo,
despendia a tua bondade com os covardes,
os que te encontram em qualquer fenómeno
de meteorologia, os que impõem
o teu Nome em leis e orações.

Conforma-te em ser um hóspede
da nossa infância quebrada em mil pedaços.
Esvazie-nos de Ti,
regressa às tuas origens
àquela imensa noite de tormenta
em que o medo de uns macacos te inventou.

Juan Bonilla


Cordura de Dios que quitas el pecado del mundo’, de Juan Bonilla
Padre nuestro que estás en paradero
desconocido, líbranos de Ti.

No nos llenes el tiempo con tu ausencia.

Tú utilizaste el fuego del infierno
para encender el sol de nuestra infancia.

No nos des certidumbre de tus ojos
después de que los nuestros ya no puedan
mirar la rosa negra de la vida.

Oh cordura de Dios que catas
el pecado del mundo,
dispendia tu bondad con los cobardes,
los que te encuentran en cualquier fenómeno
de meteorología, los que imponen
tu Nombre en leyes y oraciones.

Confórmate con ser un huésped
de nuestra infancia rota en mil pedazos.
Vacíanos de Ti,
regresa a tus orígenes
a aquella inmensa noche de tormenta
en la que el miedo de unos monos te inventara.



terça-feira, 24 de março de 2020

A Carlos Paredes - Mia Couto



Não são dedos:
São lágrimas.
Não são cordas:
São fios de saudade.
Não é um país: É um coração
que soletra lágrimas
na saudade que temos de nós próprios.


segunda-feira, 23 de março de 2020

Chegará… chegaremos? – Outro mundo nos espera - RAFAEL ALBERTI


“Um fantasma percorre a Europa”


Chegará… chegaremos? – Outro mundo nos espera

... E as velhas famílias fecham as janelas,
trancam as portas,
e o pai corre sombrio para os Bancos
e o pulso para se lhe na Bolsa
e sonha pelas noites com fogueiras,
com gado ardendo,
em vez de trigo tem chamas,
em vez de grãos, chispas,
caixas,
caixas de ferro cheias de pavões.
Onde estás,
onde está?
Os camponeses passam pisando o nosso sangue.
O que é isto?
- Fechemos,
fechemos já as fronteiras...

1933

¿Llegará… llegaremos? – Otro mundo nos espera
…Y las viejas familias cierran las ventanas,
afianzan las puertas,
y el padre corre a oscuras a los Bancos
y el pulso se le para en la Bolsa
y sueña por las noches con hogueras,
con ganados ardiendo,
que en vez de trigos tiene llamas,
en vez de granos, chispas,
cajas,
cajas de hierro llenas de pavesas.
¿Dónde estás,
dónde estás?
Los campesinos pasan pisando nuestra sangre.
¿Qué es esto?
-Cerremos,
cerremos pronto las fronteras…

RAFAEL ALBERTI (1933)

domingo, 22 de março de 2020

2º Poema da Cidade - Mendes de Carvalho


 
2º Poema da Cidade

Há de tudo nesta sossegada e hospitaleira cidade
Contando é evidente com os artigos importados
desde cintas dernier cri da Rue de la Paix
para uso de damas ventrudas da alta sociedade
passando pelos três sorrisos da menina Sagan
e a filosofia de monsieur Jean-Paul Sartre
até ao oriental vírus “A-Sigapura I-57”.
Os peões caminham pela direita como foi estabelecido
muito bem comportados muito fantasmas líricos
conformados com a pacífica vida quotidiana.
Os que não resistem ao clima dão dentadas na alma
o que em nada prejudica o singular sossego da cidade.

Tudo se passa tudo acontece muito liricamente
como convém a um país de sol à beira-mar plantado.
As pessoas morrem de morte puramente natural
exceptuando um ou outro inadaptado.

A cidade continua a ser muito própria para turistas.


Em: “Camaleões e Altifalantes” (1963)