quarta-feira, 22 de abril de 2020

COMO OS TECELÕES DE TAPETES DE KUJAN-BULAK HONRARAM A MEMÓRIA DE LÉNINE - Bertolt Brecht

150 aniversário
150 aniversário - 22 de abril de 1870

COMO OS TECELÕES DE TAPETES DE KUJAN-BULAK HONRARAM A MEMÓRIA DE LÉNINE

1

Muitas vezes e à farta foi honrado
o Camarada Lénine. Há bustos dele e estátuas.
Puseram o nome dele a cidades e crianças.
Fazem-se discursos em muitas línguas
há assembleias e demonstrações
desde Xangai a Chicago em honra de Lénine.
Mas foi assim que o honraram os tecelões de tapetes
de Kujan-Bulak, pequena povoação no Sul do Turquestão:
Vinte tecelões de tapetes levantam-se ali ao anoitecer
do miserável tear, sacudidos pela febre.
Anda febre por lá: a estação de caminho-de-ferro
está cheia do zumbir dos mosquitos, nuvem espessa
que se ergue do pântano por detrás do velho cemitério dos camelos.
Mas o comboio
que de quinze em quinze dias traz água e fumo, traz
também um belo dia a notícia
que vem aí o dia da homenagem ao Camarada Lénine.
E as gentes de Kujan-Bulak, gente
pobre, tecelões de tapetes, decidem
que também na sua povoação
se erga o busto de gesso ao Camarada Lénine.
Mas quando se vai juntar o dinheiro para o busto
ei-los todos sacudidos de febre a pagar
os copeques penosamente ganhos com mãos a adejar.
E Stepa Gamalev, do Exército Vermelho, que vai contando
e vendo com cuidado e precisão.
vê a prontidão deles em honrar Lénine, e fica contente,
mas vê também as mãos vacilantes,
e faz de repente a proposta
de comprar, com o dinheiro para o busto, petróleo
para derramar no pântano atrás do cemitério dos camelos
donde vêm os mosquitos
que causam febres.
Para assim combater as febres em Kujan-Bulak, e em verdade
em honra do falecido, mas
não esquecido
Camarada Lénine.

Assim o resolveram. No dia da homenagem levaram
os seus baldes amolgados cheios de petróleo negro
um após outro, para lá,
e regaram o pântano com ele.
Assim tiraram proveito para si mesmos ao honrarem Lénine e
honraram-no, com proveito para si mesmos, e assim
o tinham entendido.

2

Ouvimos pois como as gentes de Kujan-Bulak
honraram Lénine. Mas à noitinha,
comprado e espalhado o petróleo sobre o pântano,
eis se levantou um homem na assembleia e exigiu
que se colocasse uma placa na estação do comboio
com o relato do acontecido, contendo
também exatamente a alteração do plano e a troca
do busto de Lénine pela tonelada de petróleo que acabou com as febres.
E tudo isto em honra de Lénine.
E assim fizeram também isto
e puseram a placa.


terça-feira, 21 de abril de 2020

Portugal (Fado Tropical) - Gorges Moustaki


 
Portugal (Fado Tropical)

Oh muse ma complice
Petite sœur d'exil
Tu as les cicatrices
D'un 21 avril*

Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t'ont déçue
De n'avoir rien pu faire
Ou de n'avoir jamais su

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal

On crucifie l'Espagne
On torture au Chili
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l'oubli

Aux quatre coins du monde
Des frères ennemis
S'expliquent par les bombes
Par la fureur et le bruit

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes
Enfermés dans les stades
Déportés dans les îles

Oh muse ma compagne
Ne vois-tu rien venir
Je vois comme une flamme
Qui éclaire l'avenir

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Débouche une bouteille
Prends ton accordéon
Que de bouche à oreille
S'envole ta chanson

Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles
En avril au Portugal

Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial

Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial

*Ele fala da sua própria musa, das suas irmãs de exílio e das suas cicatrizes: evocando claramente o 21 de abril de 1967, quando do golpe de Estado na Grécia.

Portugal

Oh musa, minha cúmplice
Pequena irmã do exílio
Tens as cicatrizes
De um 21 de abril

Mas não são severos
Para aqueles que os desapontaram
De nada ter feito
Ou de não ter jamais sabido

Para aqueles que não acreditam mais
Ver cumprir-se seus ideais
Diz-lhe que um cravo vermelho
Floresceu em Portugal

Crucificados na Espanha
Torturados no Chile
A guerra do Vietnã
Continua no esquecimento

Nos quatro cantos do mundo
Irmãos inimigos
Explicam-se pelas bombas
Na fúria e no barulho

Para aqueles que não acreditam mais
Ver cumprir-se seus ideais
Diz-lhe que um cravo vermelho
Floresceu em Portugal

Para todos os camaradas
Perseguidos nas cidades
Fechados em estádios
Deportados nas ilhas

Oh musa minha companhia
Não vês nada vir
Vejo como uma chama
Que ilumina o futuro

Para aqueles que não acreditam mais
Ver cumprir-se seus ideais
Diz-lhe que um cravo vermelho
Floresceu em Portugal

Podes abrir uma garrafa
Pega teu acordeão
E que de boca em boca
Segue tua canção

Porque finalmente o sol
Aquece as pétalas
Das flores vermelhas
Em abril em Portugal

E esta nova flor
Que floresce em Portugal
É talvez o fim
De um império colonial

E esta nova flor
Que floresce em Portugal
É talvez o fim
De um império colonial

segunda-feira, 20 de abril de 2020

25 de Abril - Manuel Alberto Valente



25 de Abril

1

Manhã por começar. Ainda da noite
se aquece adormecido
o corpo exausto.

E de súbito o sol
o salto
o sal.

2

Manhã por começar a do teu corpo
pátria
de ponta a ponta percorrida

pedra a pedra  ou boca
a boca  num amor sem grades
nem intriga.

Manhã por começar. Um cão lambendo
pátria
a tua longa ferida.