quarta-feira, 8 de abril de 2020

Canto X LVIII - Luís de Camões


Canto X
  LVIII

Mas na Índia cobiça, e ambição,
Que claramente põe aberto o rosto
Contra Deus, e justiça, te farão,
Vitupério nenhum, mas só desgosto.
Quem faz injúria vil, e sem razão,
Com forças, e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira,
É saber ter justiça nua, e inteira


segunda-feira, 6 de abril de 2020

PAI - Silviano Santiago



PAI

A perseguição e a descrença
marcaram tanto,
que preferiu encaminhar
os filhos
para a classe média.
Proíbe que se fale
de política à mesa
e indica com o gosto
e o dedo
a profissão liberal
de cada um.

Cultiva flores no jardim
e esquizofrênicos em casa.


sábado, 4 de abril de 2020

Gabriel Celaya e José Gomes Ferreira


Dois poetas, dois idiomas,
a mesma preocupação: OS OUTROS!



(Um momento de filosofia barata.)


Para além do «ser ou não ser» dos problemas ocos,
o que importa é isto:
- Penso nos outros.
Logo existo.

  “Poeta Militante I”




MI  LOCURA

Después de mucho andar, mucho perder, mucho luchar,
me dicen: «Para qué?»
Yo digo simplemente: «Para vivir mejor.»
Me dicen: «Cómo es eso,
si tú vives bien? Qué más quieres, di?»
Yo digo en tonto: «No sé.»
Pero es claro lo que quiero para todos,
y me digo por lo bajo: «Pues sí que estamos bien!»
Y sigo trabajando más que tonto
por una gloria total,
con inocencia,
y a veces con tan alta claridad,
que esa luz casi parece una ferocidad.

“El hilo rojo”

quinta-feira, 2 de abril de 2020

O Regino - Gloria Fuertes



      O Regino
(Tradução de Egito Gonçalves)


O Regino era um homem sem trabalho;
de tanto padecer fez-se mendigo
e levava já de ofício vinte anos.
De cor sabia o bater das portas,
os degraus das catedrais
e as pedras de todos os caminhos;
polia com as costas as esquinas,
aquecia ao sol suas sardinhas.
Tinha calos de pedir esmola,
a mão curtida pelos ventos
e uma ferida no centro da palma
por onde já caíam as moedas.
Fora seu ofício o de mineiro
porém tossia quando ia à mina
e o médico aconselhou «mudança de ares»;
mendiga desde então
pelas aldeias da serra.



Da: (edição comemorativa do 120º aniversário do 1º de Maio)
Prefácio de
José Casanova

quarta-feira, 1 de abril de 2020

A Poesia Não Vai - Eugénio de Andrade



A Poesia Não Vai

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.