segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Cochat Osório

MISE AU POINT
de
Cochat Osório
O que é que eles querem mais?
É tudo?
Levem tudo então.
Podem levar aquilo que puderem.
Levem também o resto.
Mas não!
O resto não.
Para levar o resto que sou eu.
Não é bem isso,
O que sobra daquilo que sou eu,
Não é também,
Só o que tenho a mais para ser eu...
Em conclusão:
Para levarem o saldo
Precisam da força que não têm,
Precisam da guerra que não têm
Precisavam de ter um coração.
Mas podem levar tudo.
E o resto
O eu.
Ficarei quieto, calmo, cego e mudo
Principalmente mudo.
Não serei eu.
Já sei,
Bem sei.
E não farei o mínimo protesto.
Com uma condição:
Deixem ficar apenas o vazio,
O silêncio concreto,
Espesso, opaco.
O silêncio que ofende,
Ou dá a esta vida
Um riso intencional
E áspero
E incorrecto
E frio
Mas é apenas quando se por acaso ri.
Hei-de fincar com força os dentes
Na polpa saborosa e farta do silêncio
Deste silêncio cheio de todas as matérias-primas
Que se gastam para fazer o nada,
E com o nada aberto ao meio, como um pão
A facada de (gula?) amordaçada
Numa fatia grossa de outro nada para recheio
Hei-de sentir a força alimentada
E a experiência do meu velho tempo gasto
Usado e gasto
Que (ensina?)
Sabor sem conteúdo,
Nada a fingir de tudo
Café sem cafeína
Mas é preciso
Hei-de tirar do nada a força de um sorriso,
Hei-de cumprir a minha sina!
Eu gosto do silêncio com silêncio
Cru e sem tempero
Estar nu, dá a noção exacta do princípio
Faz rebentar vontades de infinito
A certeza do zero.
Isto, porque o melhor é começar e não partir do meio.
É que o princípio é tudo o que virá depois
E ainda não veio,
É partir de viagem, sem saudades nem remorsos
E também sem bagagem.
Levem portanto tudo quanto existe.
Os livros velhos não...
Pelo menos os livros muito lidos não…
Os livros muito gastos pelos olhos não…
Esses que deram sumo a esta insaciedade que não finda
Podem servir-me de aconchego
Podem dizer o que me falta
Podem conter um resto de substância ainda.
Deixem ficar os livros muito lidos só.
Não!
Nem esses quero já
Não quero nada.
O que ficar na solidão
Terá um cheiro de velas apagadas
De compaixão e dó.
As palavras também, fiquem com elas
Hei-de arranjar palavras novas
Simples, rasgadas, abertas de par em par
Sobre a verdade
E o pensamento debruçado nelas
Puro, limpo, vivo
Sentir o ar fresco das manhãs
E a magia das noites de luar a entrar pelas janelas.
Palavras novas, sim, concretas
Que estruturem verdades conscientes
Que sejam palavras claras de gente.
Essas que andam ai nos jornais, nos discursos
Caricaturas de palavras sepulturas
Sarcófagos de ideias já passadas
Rótulos, formulas
Vazio impresso, colado em frascos de purgante
De bom-tom e bem pensante.
Essas palavras todas podem levá-las
Para encher o silêncio, o vazio e o nada.
Se não tiver palavras novas
Hei-de inventá-las
Palavras impelidas pela força imensa de serem
O que são e de saberem sempre aonde se dirigem
Com elas
Falarei a linguagem necessária
Aos contactos dos homens regressados à origem
O corpo. Também. Aguentará quanto puder
Projectores sobre os olhos
Jorros de água na nuca
Queimaduras na carne
Ou deixem-no de pé
Sem repouso de pé
Sem respeito de pé
Sem piedade e pé
Sonâmbulo de sono e de cansaço de pé
Farrapo humano a oscilar ( ? ) deixo de pé
E deixem-no estar de pé
Deixem-no estar a pé
Que falhe o coração ou a vontade
Ou vença, ou quebre, ou fale
Ou se liberte do martírio a rebentar os pés.
Pouco importa.
Levem tudo o que houver
Tudo quanto agarrar essa ganância desmedida
Mas é bom que não esqueça:
Que o regresso começa um tudo-nada antes da partida
Está no que fica
No que ninguém destrói
No que os outros recordam só por recordar
Nas pegadas, na lama que secou
Na saudade
Na angústia
Esta esperança de voltar
E a certeza de encontrar
Um lugar posto na mesa
E o direito de ficar.
Não sendo assim
Melhor é não voltar
E não bater às portas
Não acordar as velhas ilusões que já estão mortas
Melhor é ser um estranho para todos
Os que esqueceram
Os que não querem
Os que não lembram já.
Melhor é ser ausente e já presente
Partido para sempre e já chegado
Com o tempo cortado na ponta da indiferença
E partir pelo mundo ao deus-dará
E tentar renascer
Para estar só
É preferível estar só noutro sítio qualquer
E eu sei que fico sempre e hei-de voltar
O que deixei de mim e o que sobre de mim para falar
Só por isso volto
Porque não se partiu completamente
Porque não se quebrou o fio do contacto
Que une um homem sempre ao outro homem
E que lhe dá o sentido de conjunto
O lugar na multidão
O direito de ser gente
Eu sei que estas palavras gastas uma a uma
Palavras de um rosário de orações humanas
São o rasto indelével da passagem de um homem
Que vibrou e que viveu
São um resto de mim
O que sobra
O saldo a transportar
Direito de voltar e ser ainda um homem
Seja qual for o mundo que vier
Só por isso apenas porque fico
Não me importa que levem ou deixem o que querem levar
Basta o silêncio vazio e o nada
Basta uma noite triste e amargurada
Uma esperança, uma dúvida, um receio
Para saber que nada se perdeu
Voltarei nas palavras renascidas
Voltarei nas cadências revividas
Nas verdades gritadas
Nas canções abafadas
No ritmo, ritmo, ritmo
Neste oceano de ritmos
Que a minha voz criou, a razão embalou, e o coração já deu.
O que é que eles querem mais?
Tudo?
Levem tudo então
Voltem atrás
Procurem mais
Deitem a mão a tudo quanto há
Partam com a certeza consolada
De não deixar restos de nada
De que nada esqueceu
Há-de ficar apenas o silêncio
Esta ideia de ausência consumida
Esse resto de vida mutilada
Que é a vossa presença, que é o vosso progresso
Que é o vosso labéu
E então
O que brotar depois será o meu regresso
E quando grito meu
É porque eu sei que ele é também dos outros
Todos os que exigiram dignidade
Todos os que perderam até a vida
Todos os que o silêncio tornou esperança
Todos os que a ganância não venceu
O que brotar depois será sempre um regresso
E no regresso
Eu!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

quinta-feira, 31 de julho de 2008

HERANÇA

Vamos brincar de Brasil?

Mas sou eu quem manda

Quero morar numa casa grande

Começou desse jeito a nossa história

Negro fez papel de sombra

E foram chegando soldados e frades

Trouxeram as leis e os Dez Mandamentos

Jabuti perguntou:

“— Ora é isso?”

Depois vieram as mulheres do próximo

Vieram imigrantes com alma a retalho

Brasil subiu até o 10.º andar

Litoral riu com os motores

Subúrbio confraternizou com a cidade

Negro coçou piano e fez música

Vira-bosta mudou de vida

Maitacas se instalaram no alto dos galhos

No interior

o Brasil continua desconfiado

A serra morde as carretas

Povo puxa bendito pra vir chuva

Nas estradas vazias

Cruzes sem nome marcam casos de morte

As vinganças continuam

Famílias se entredevoram nas tocaias

noites de reza e cata-piolho

Nas bandas do cemitério

Cachorro magro sem dono uiva sozinho

De vez em quando

a Mula-sem-cabeça sobe a serra

ver o Brasil como vai.

PADRE-NOSSOBRASILEIRO

(1964)

Olé Deus brasileiro, Deus de casa. Venha nos ajudar com a sua graça. Deixe o outro Deus metido em Roma (o que assusta as criancinhas que não rezam de noite), ocupado com a arrecadação de Padre-nossos. Fique aqui com a gente. O Brasil anda ruinzinho. Por favor, nos acuda (senão isso não vai). Precisamos de mágica. Queremos macumba. Feitiçaria. Qualquer coisa serve. um jeito de perdoar as nossas dívidas (de imposto de renda, taxas de consumo. O preço das coisas não pára. Imagine: cafezinho a 25 cruzeiros!) Não deixe o Brasil cair de novo em tentação e corrupção (desfalques na Caixa Económica, Instituto de Aposentadoria e outras coisas). O feijão preto de cada dia dê-nos hoje (feijão com charque, arroz, média-pão-com-manteiga). Queremos renovar os nossos entusiasmos. Ter de novo um Brasil cheio de ternura, com embalos de rede e cata-piolhos: essa “Nêga Fulô; um Brasil que se diverte nas ruas com o “Bumba-meu-boi”; Brasil do Ascêncio Ferreira: “Hora de trabalhar? Pernas pró ar”. Amem.

Raul Bopp

Hora de comer, -- comer!

Hora de dormir, -- dormir

Hora de vadiar, -- vadiar!

Hora de trabalhar?

-- Pernas pró ar que ninguém é de ferro!

(Ascêncio Ferreira)

AGOSTO

A ciência revelou-nos o que era óbvio: Os Humanos não são divisíveis por raças. Há no entanto uns menos humanos que outros: Os racistas.

Agosto. Lisboa é uma cidade sonolenta, aconchegada na modorra que o calor transporta. As ruas estreitas são canais de frescura, veias onde circulam os que lhe mantêm a tonicidade indispensável ao ritmo estival.

Hora de almoço. Restaurantes e tascos de portas amordaçadas. No interior, as cadeiras, em exercícios de equilíbrio, fazem o pino sobre as mesas; cenários de abandono cumprindo o calendário.

Aproveito as sombras somíticas que o sol do meio-dia nos permite. A cidade repousa, respira tranquilidade. O movimento é escasso. Sem pressas e muita curiosidade reparo na toponímia: “Conde Barão”. Sorrio. Conde e Barão... Que exagero! “Poço dos Negros”... Para quando a “Fonte dos Negros”? Pensei, matreiro, satisfeito pela ideia prenhe de malícia.

O olfacto guia-me não sei bem para onde; misturado com o podre das sarjetas, chega-me um odor a peixe grelhado. Sigo o filão: o cheiro encorpa, a curiosidade e a imaginação fundem-se em apetite, a mensagem vai-se tornando clara. Começo a aperceber-me do tipo de pescado que me espera; mais uma ruela, ainda outra... e um recanto de cenário tipicamente alfacinha surge, sem surpresa. No braseiro, à entrada da tasca, carapaus e sardinhas mostram-se, fumegantes, oferecendo-se a quem passa.

Cortadas a meio pelo sol que faz fronteira com a sombra que o afasta, quatro pequenas mesas, alinhadas com o assador, confundem-se com a parede.

O lugar é tranquilo, a frescura do peixe faz alarde. Aproveito a meia sombra de uma das mesas. Sento-me.

A higiénica e proletária toalha e guardanapo de papel não demoram, o simpático galheteiro não se faz esperar. E neste vai e vem do empregado, pronuncio: Carapaus.

Sóbrio e preciso, o breve monólogo ajustava-se à simplicidade do estabelecimento, além do mais não me apetecia falar, predisposto que estava a usufruir da oportunidade que a cidade me oferecia neste singular dia de Agosto.

Numa das restantes mesas, três operários comiam calmamente. Junto deles uma mulher falava, falava, falava. Mansamente, os homens continuavam a almoçar esboçando um sorriso de quando em vez.

Não longe de mim, os carapaus rechinavam na grelha deixando cair gotas de gordura como que dizendo: vais gostar!

Entretanto, a mulher continuava a pregar. Entretido que estava com o meu peixe e de apetite em crescendo, desejoso de um repasto calmo, o som agudo da sua voz começava-me a enfadar.

Continuava a falar dos pretos. Olhei-a. Tinha os olhos em mim, e quando se apercebeu que nela reparei subiu o tom de voz, ganindo: pretos. E sorrio-me./ Os operários, enlevados, chupavam as cabeças dos peixes que sublinhavam com um gole de tinto. Gente que sabe misturar sabores.

O sol teimava em não me libertar a mesa, os carapaus faziam-me negaças e não se despachavam, e a mulher, porque os três homens não lhe davam troco, virava para mim o discurso racista: os pretos, os pretos, os pretos.

Os meus olhos azuis num rosto branco, agora certamente lívido, tomaram-na por alvo.

Também sou racista!” disse. A mulher devolveu-me de imediato um jubiloso sorriso de reconhecimento. E não lhe dando tempo de maior euforia, continuei firme, seco: “Não posso com os brancos!”.

Numa metamorfose súbita, toda a sua expressão de alegria se transfigurou, dando lugar a um semblante amorfo onde o espanto e a perplexidade se confundiam. Fixava-me e não entendia, havia algo que a ultrapassava, não estava ouvindo bem ou não enxergava de feição.

E para que não lhe restassem dúvidas, repeti de modo compassado e agressivo: “Não posso com os brancos, ouviu bem!? E sabe porquê? Porque são os únicos que me têm lixado a vida.”

A catarse resultou, acalmei. Os carapaus, impecavelmente grelhados apresentaram-se-me alinhados, enfeitados com um raminho de salsa. Era carapau do branco, branquinho como eu. Não gosto do carapau negrão, prefiro o chicharro.

bem-humorado, ia degustando, deliciado, esta refeição tão nossa e repetia para comigo: os brancos me têm lixado, é certo, porque todos os outros não têm tido essa oportunidade

Quando dei uma espreitadela para o lado, os homens bebiam o café e a mulher eclipsara-se.

O vírus do racismo é assim, sempre presente; mantêm-se latente em todos os locais, intervêm se nos apanha desprevenidos e prolifera, rapidamente, se lho permitem, atingindo, por vezes, o grau epidémico.