terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

António Miranda - POETA


O HAITI SOMOS NÓS

Para Zilda Arns,
in memoriam*



Todos os furacões açoitaram o Haiti!!
E o Haiti é o
nosso paradigma de liberdade!
Todos os ditadores devastaram o Haiti!
E o Haiti é
nosso exemplo de iluminismo!
Espelho de Bolivar e admiração de Washington!
Todos os terremotos abalaram o Haiti!
Alejo Carpentier sabia
ser ali, sem dúvida,
"el
reino de este mundo", a Bastilha da América!
Reflexos, vestígios de uma herança maldita.
Devemos
manipular magicamente
os
elementos, para exorcizá-los. Vudú.
Diante das imagens terríveis dos destroços,
vêm as
perguntas de respostas sabidas!
De
horror, de indignidade, de indiferença.
Diante das imagens terríveis dos escombros,
a
mesma pergunta que o Papa fez
quando visitou os campos de extermínio:
"
Onde estava Deus?" Onde estamos nós?!

Janeiro de 2010

Poema de Antonio Miranda

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

TURBULÊNCIA - IMENSIDÃO - TURISMO SENTIMENTAL - EGOÍSMO


POEMAS

TURBULÊNCIA

O vento experimenta

o que irá fazer

com sua liberdade

IMENSIDÃO

Cheiro salgado

de um cavalo suado.

Quem galopa no mar?...

TURISMO SENTIMENTAL

Viajei toda a Ásia

ao alisar o dorso

da minha gata angorá

EGOÍSMO

Se fosse eu

a chorar de amor,

sorriria…

João Guimarães Rosa

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Jaques Prévert - Pour toi...


PARA TI MEU AMOR

Fui à feira dos pássaros

E comprei pássaros

Para ti

meu amor

Fui à fera das flores

E comprei flores

Para ti

meu amor

Fui à feira da sucata

E comprei correntes

Pesadas correntes

Para ti

meu amor

E depois fui à feira dos escravos

E procurei-te

Mas não te encontrei

meu amor

POUR TOI MON AMOUR

Je suis allé au marché aux oiseaux

Et j’ai acheté des oiseaux

Pour toi

mon amour

Je suis allé au marché aux fleurs

Et j’ai acheté des fleurs

Pour toi

mon amour

Je suis allé au marché à la ferraille

Et j’ai acheté des chaînes

De lourdes chaînes

Pour toi

mon amour

Et puis je suis allé au marché aux esclaves

Et je t’ai cherchée

Mais je ne t’ai pas trouvée

mon amour

Jacques Prévert

(trad. De Manuela Torres)




Posted by Picasa

domingo, 31 de janeiro de 2010

António Gedeão



INTERMEZZO


Hoje não posso ver ninguém:

sofro pela Humanidade.

Não é por ti.

Nem por ti.

Nem por ti.

Nem por ninguém.

É por alguém.

Alguém que não é ninguém

mas que é toda a Humanidade.


António Gedeão

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A não esquecer


Das alianças desiguais

Gato do Mato e o Leão, conforme o combinado,
Juntos caçavam corças pelo mato.
As corças escaparam... Resultado:
Não escapou o gato.

Mário Quintana
in Espelhp Mágico



terça-feira, 17 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um tiro no alvo


"quem rouba um poema não merece castigo"

Aos filhos da puta


A
todos os que se vendem e abandalham
a
todos os que crêem que são os únicos
os
melhores e a elite entre os demais e
se pavoneiam na
sua imbecilidade estonteante
intelectuais de pacotilha e militantes da mediocridade
a
todos que se aplaudem em salamaleques de familiaridades
e consanguinidades de
palavras para aplauso umbilical
aos
curtos de vista viscerais defensores da pequenez
provinciana travestida de
francesismos e transatlânticas
vitualhas literárias a
peso ou a metro milimetricamente
deglutidas
entre croquetes e champanhes de imitação
pechisbeques de
cabeças vazias embevecidas na vã cegueira
dos
que se acreditam os únicos olhos como se em terra de cegos vivessem

ergo a
minha taça
e
desejo que a terra lhes seja pesada aos ossos
fragilizados de
tanto curvar a cerviz
em cansaços vividos na inverdade da sua académica peralvilhice

bebo aos
filhos de puta
aos inúteis
aos
sem afectos
aos
sem memória
aos
medíocres
à
matilha e à corja
bebo a
todos os filhos de puta
mas bebo de aos filhos de puta maiores
a
todos eles e aos que me enojam

Fátima Pinto Ferreira

publicado no
seu blog...
Forja de Palavras

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Acreditem, disse-a Angela Merkel


09/11/09

A frase do dia

Acreditem, disse-a Angela Merkel


Raramente tão poucas palavras disseram tanto ou, pelo menos, propiciam tantas reflexões sobre quem diz e porque o diz e que, sendo quem é e vindo de onde veio, é capaz afrontar neste termos um dominante mundo de clichés, caricaturas e simplificações. Essas palavras estão hoje no final de uma peça na página 6 do Público e foram ditas pela actual Chanceler da República da Alemanha, Angela Merkel, cuja família - segundo biografia no mesmo jornal se mudou em 1954 da República Federal Alemã para a República Democrática Alemã.

«No entanto, se era uma ditadura do proletariado,
"não era tudo preto ou branco", concluiu Merkel.
"
Eu era feliz, e não quero esquecer
esses 35 anos da minha vida
"

domingo, 8 de novembro de 2009

Álvaro Cunhal


10 de Novembro de 1913

Poema que Pablo Neruda dedicou a Álvaro Cunhal, então preso, em 1953

La Lámpara Marina

I


El Puerto Color de cielo

Cuando tú desembarcas
en Lisboa,
cielo
celeste y rosa rosa,
estuco blanco y oro,
pétalos de ladrillo,
las
casas,
las puertas,
los techos,
las
ventanas,
salpicadas del oro limonero,
del
azul ultramar de los navíos.

Cuando tú desembarcas
no conoces,
no sabes
que detrás de las ventanas
escuchan,
rondan
carceleros de
luto,
retóricos, correctos,
arreando
presos a las islas,
condenando al silencio,
pululando
como escuadras de sombras
bajo
ventanas verdes,
entre montes azules,
la policía
bajo las otoñales cornucopias
buscando portugueses,
rascando el suelo,
destinando los hombres a la
sombra.

II


La Cítara Olvidada

Oh Portugal hermoso
cesta de fruta y flores,
emerges
en la orilla plateada del océano,
en la
espuma de Europa,
con la
cítara de oro
que te dejó Camoens,
cantando con dulzura,
esparciendo en las
bocas del Atlántico
tu tempestuoso olor de vinerías,
de azahares marinos,
tu luminosa luna entrecortada
por nubes y tormentas.

III


Los presidios

Pero,
portugués de la calle,
entre nosotros,
nadie
nos escucha,
sabes
dónde
está Álvaro Cunhal?
Reconoces la ausencia
del valiente
Militão?
Muchacha portuguesa,
pasas
como bailando
por las calles
rosadas de Lisboa,
pero,
sabes dónde cayó
Bento Gonçalves,
el portugués más
puro,
el honor de
tu mar e de tu arena?
Sabes
que existe
una isla,
la isla de la
Sal,
y Tarrafal en ella
vierte
sombra?
Sí, lo sabes, muchacha,
muchacho, sí, lo sabes.
En silencio
la palabra
anda con lentitud pero recorre
no sólo el Portugal,
sino la tierra.
Sí, sabemos,
en
remotos países,
que hace treinta años
una lápida
espesa
como tumba o como túnica
de clerical murciélago,
ahoga, Portugal,
tu triste trino,
salpica
tu dulzura
con
gotas de martirio
y mantiene sus
cúpulas de sombra.


IV


El Mar Y Los Jazmines

De
tu mano pequeña en otra hora
salieron
criaturas
desgranadas
en el asombro de la
geografia.
Así volvió Camoens
a dejarte
una rama de jazmines
que siguió floreciendo.
La inteligencia ardió
como una viña
de
transparentes uvas
en
tu raza.

Guerra Junqueiro entre las olas
dejó caer su trueno
de libertad bravía
que transportó el océano en su canto,
y otros multiplicaron
tu esplendor de rosales y racimos
como si de tu territorio estrecho
salieran
grandes manos
derramando semillas
para toda la tierra.

Sin
embargo,
el tiempo
te ha enterrado.
El
polvo clerical
acumulado en Coimbra
cayó en
tu rostro
de naranja oceánica
y cubrió el
esplendor de tu cintura.

V


La Lámpara Marina

Portugal,
vuelve al
mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a
tu fragancia,
a
tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la
luz matutina
del clavel y la
espuma.
Muéstranos
tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más
tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.

La
súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la
aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de
auroras.
Cómo es
esto?
Cómo puedes negarte
al
ciclo de la luzque mostraste
caminos a los ciegos?

Tú, dulce y
férreo y viejo,
angosto y
ancho padre
del
horizonte, cómo
puedes
cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del
Oriente?

Proa de Europa, busca
en la corriente
las
olas ancestrales,
la
marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de
tus hijos
aquellos
para quienes
descubriste la
arena
hasta entonces oscura
de la geografía
deslumbrante,
muéstranos
que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo
mar oscuro
y descubrir al hombre
que ha nacido
en las islas más
grandes de la tierra.

Navega, Portugal, la
hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y
entre las islas y los hombres vuelve
a
ser camino.

En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
aprenderás de nuevo a
ser estrella.


Pablo Neruda


Poema extraído de Obras Completas, 3ª ed. aumentada,

Buenos Aires, Editorial Losada, Col. Cumbre, 1967



terça-feira, 3 de novembro de 2009

Bernardo Soares - Fernando Pessoa


Bernardo Soares

Inconsciência

O ódio entre católicos e protestantes, o entre católicos e maçons, o entre cristãos e livres-pensadores modernos, tudo isso tem a ferocidade e o disparatado do ódio entre seitas da mesma religião. Não acabou nunca a luta entre seitas crististas que dura desde o aparecimento do próprio que, quando nos surge na história, nos surge bipartido nas seitas paulina e petrista. O cristismo é essencialmente dividido. cristismo,

Toda a linha da evolução do cristismo, quecomo vimos — alcança todos os movimentos, por pouco cristãos que pareçam, da história moderna, é representada por uma série incoerente de cisões por um encadeamento desconexo de inimizades e de desinteligências . e subcisões,

A fatalidade de degenerescência que persegue, como uma maldição, os escarnecedores dos Deuses, rói sempre a própria substância humana interior ao cristismo sobreposto ou, após tantos séculos, infelizmente intraposto.


Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação.

Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996.