sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Cavaleiro da Esperança


Prestes

[Poema lido por Pablo Neruda no Comício do PCB]
Pacaembu (Brasil, 1945)

Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,
quantas
histórias, lutas, desenganos, vitórias,
que levei anos e anos no coração para dizer-vos, pensamentos
e
saudações. Saudações das neves andinas,
saudações do Oceano Pacífico, palavras que me disseram
ao
passar os operários, os mineiros, os pedreiros, todos
os povoadores de
minha pátria longínqua.
Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?
Que segredo me disse o marinheiro?
Que me disse a menina pequenina dando-me espigas?

Uma
mensagem tinham. Era: Cumprimenta Prestes.
Procura-o,
me diziam, na selva ou no rio.
Aparta
suas prisões, procura sua cela, chama.
E se
não te deixam falar-lhe, olha-o até cansar-te
e
nos conta amanhã o que viste.

Hoje estou orgulhoso de vê-lo rodeado
por um mar de corações vitoriosos.
Vou
dizer ao Chile: Eu o saudei na viração
das
bandeiras livres de seu povo.

Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite
falei à
multidão, fui pedir auxílio
para a Espanha Republicana, para o povo em sua luta.
A Espanha estava
cheia de ruínas e de glória.
Os franceses ouviam o
meu apelo em silêncio.
Pedi-lhes
ajuda em nome de tudo o que existe
e
lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha lutam, morrem,
Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,
são filhos dos heróis da América, são irmãos
de Bolívar, de O' Higgins, de San Martín, de
Prestes.
E
quando disse o nome de Prestes foi como um rumor imenso.
no
ar da França: Paris o saudava.
Velhos operários de olhos húmidos
olhavam
para o futuro do Brasil e para a Espanha.

Vou contar-vos
outra pequena história.

Junto às grandes minas de carvão, que avançam sob o mar,
no Chile, no
frio porto de Talcahuano,
chegou uma
vez, faz tempos, um cargueiro soviético.
Quando a noite chegou
vieram aos
milhares os mineiros, das grandes minas,
homens, mulheres, meninos, e das colinas,
com suas pequenas lâmpadas mineiras,
a
noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,
para o navio que vinha dos portos soviéticos.

Aquela
noite escura teve estrelas:
as
estrelas humanas, as lâmpadas do povo.
Também hoje, de todos os rincões
da
nossa América, do México livre, do Peru sedento,
de
Cuba, da Argentina populosa,
do Uruguai,
refúgio de irmãos exilados,
o
povo te saúda, Prestes, com suas pequenas lâmpadas
em que brilham as altas esperanças do homem.
Por isso me mandaram, pelo vento da América,
para que te olhasse e logo lhes contasse
como eras, que dizia o seu capitão calado
por tantos anos duros de solidão e sombra.

Vou dizer-lhe
que não guardas ódio.
Que desejas que a tua pátria viva.
E
que a liberdade cresça no fundo
do Brasil
como árvore eterna.

Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas caladas,
carregadas
por estes anos entre a pele e a alma,
sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer
o
poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.

Peço
hoje um grande silêncio de vulcões e rios.
Um grande silêncio peço de terras e varões.
Peço
silêncio à América da neve ao pampa.
Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.
Silêncio: que o Brasil falará por sua boca.

PABLO NERUDA. "
Canto Geral".

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Francisco Lopes - Candidato


sexta-feira dia 10 de Setembro, 17h30

Hotel Altis - Lisboa

candidatura de esquerda, patriótica e vinculada aos valores de Abril


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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O cumpridor Anobium - Miguel Serrano

Recordando Miguel Serrano e o nosso necessário e saudoso «o diário»

23.8.86
O cumpridor Anobium

Miguel Serrano

O consumismo para onde somos empurrados não se refere apenas aos electrodomésticos, aos automóveis, mas também ao afastamento dos cidadãos dos fenómenos sociais e políticos.

A mim a política não me interessa para nada; a minha política é o trabalho; ó vocês pensam que não sei; eles são todos iguais… etc.

Quando ouvir isto, leitor, e certamente o tem ouvido, está em presença de um individuo que vota nos partidos de direita, com um emprego que julga não merecer e que receia perder se cair em desgraça aos olhos do patrão que deve ser omnipresente como o era nos salazarentos temposolhos e ouvidos em toda a parte; está em presença, repetimos, de fulano que vota contra ele próprio e que, assim procedendo, se pensa sem política, portanto acima dos outros, que assim queria o manholas de Santa Comba Dão se pensasse. Logo a sua dele política é o trabalho, o tachinho a que chama ternamente sopinha que devia haver e não havia em toda a casa portuguesa com certeza, pão e vinho sobre a mesa.

Claro que quando tal afirma ele está a fazer política, a mais baixa e porca política, ou quer pura e simplesmente dizer que nasceu com alma de escravo rejubilante, que entrega ao patrão o direito de despedir quando muito bem lhe aprouver e que honrado fica, sempre que o patrão der por ele, cumprimentando-o com um simples gesto de cabeça. Se um dia lhe apertar a mão é caso para a não lavar jamais.

De resto, é esta atitude que o Governo pretende fomentar, como acontecia nos outros tempos. E operário que refilasse tinha a PIDE à perna porque assim o solicitavam os patrões. Não havia fábrica que não tivesse os seus «informadores». E era isto o não ter política. É isto ainda o não ter política ou não ter o resto… O não ter política é o eu estou bem, os outros que se lixem, tenham juízo façam como eu: sejam sabujos. O não ter política é também o não ser solidário com companheiros, ser egoísta, ter a política do patrão, aquela que ele quer que tenha porque assim parece bem, o escalão social onde comunga é outro, mais distinto, mais fino, mais vermute. Claro que há nisto muito de ignorância, comomesmo nos bem intencionados, naqueles que dizem eu não percebo nada dessas coisas – e riem.

Para que esta mentalidade se mantenha e se possível aumente tudo está montado: as notícias são tendenciosas ou filtradas, o acesso ao ensino é cada vez mais difícil, o livro é proibitivo, o desemprego é maior, as dificuldades aumentam – tudo isto para que o fosso se torne intransponível: de um lado, os cérebros privilegiados, os que têm a decisão, o poder, os senhores; do outro, os que lutam e trabalham para comer, apenas para comer.

Intimidar ou corromper foi (é) o meio de exercer autoridade, uns pelo excesso de importância individual, outros pelo despeito de vaidades não satisfeitas.

«A minha política é o trabalho»: são palavras-produto inventadas pelo grande capital, palavras que passaram a ser uma existência de tempo, de um tempo/hoje de reciclagem de desperdícios.

O consumismo para onde somos encaminhados não se refere apenas aos electrodomésticos, aos automóveis, mas também ao afastamento dos cidadãos dos fenómenos sociais e políticos.

Dizer: eu não sou político, é o mesmo que afirmar: eu não me importo de estar desempregado, de ter ordenados em atraso, que os meus filhos não tenham que comer nem direito à saúde e à educação; eu desisto da minha condição de homem e de cidadão, entrego a minha dignidade e liberdade ao querer dos outros.

Eu não sou político é muitas vezes ignorância, o medo e o desprestígio infundidos pela palavra político nos tempos salazarentos, é também muitas vezes carreirismo, porreirismo perante a entidade empregadora, o sentido dado à palavra, e é também uma mentalidade criada: de facto estar alheio ao destino da pessoa humana, aos problemas da paz e da segurança.

Eu não sou político e não tenho direito a nada, apenas me governo muito bem com os favores do patrão todo-poderoso, ou com a minha crença num poder superior. E assim tenho o céu garantido.

Os outrosOra os outros, cada qual amanha-se como pode e muito bem entende.

Eu não sou político. Claro que quando tal se afirma está a defender-se um facto político, uma atitude de direita regra geral, a tentar não ofender ou irritar o patrão. Está a afirmar que é um indivíduo «bem comportado», acima dessas coisas. É esta a maneira que encontrou de ser político.

A sensibilidade para o facto político e sua responsabilidadeporque todos somos responsáveis – é uma apreciável força política que pode exercer e exerce influência no desenvolvimento dos acontecimentos.

Não ser político, ou assim se julgar ou dizer, é não existir, não ser, não estar, não participar. Os velhos conceitos salazarentos, que permanecem e continuam a ser estimulados, são bem um exemplo da destruição de um povo como elemento histórico.

Não fosse político Afonso Henriques e de Portugal nunca teria sido rei, nem dinastias teríamos decorado na instrução primária.

Não digo que o Anobium de que nos fala José Saramago nesse muito belo conto «cadeira», -- o «Anobium vencedor», o último elo que faltava para a destruição da cadeira do ditador, não digo que fosse, na sua infinita sabedoria de muitos séculos – a sabedoria de ir desfazendo a madeira mais ou menos dura --, não digo que fosse político. Mas ele e todos os seus antecessores cumpriram, neste caso específico, a sua função. Não digo que Viva o Anobium, mas sei que nesse momento exacto em que a cadeira tombou o Anobium esteve connosco. Ora, se o muito minúsculo Anobium pode cumprir a sua missão, porque motivo hão-de ficar cidadãos conscientes alheios à luta dos povos pela paz, pela fraternidade, pela habitação, pelo emprego, pela saúde, pelo bem-estar dos filhos, pelo futuro? Se de ciência sabida se sabe, embora não tivesse sido divulgado que, como nos informa o referido conto, as botas do ditador eram bifurcadas… as damas de pé-de-cabra ainda por andam. E insinuam-se…

A linguagem encontra-se conforme o vivido de cada um e muitas vezes com a certeza que esse vivido coincide com as conveniências do senhor-todo-poderoso-patrão.