terça-feira, 5 de abril de 2011

Renegociar a dívida pública

Conferência de Imprensa, Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do PCP

Renegociar a dívida pública - Desenvolver a produção nacional

Terça 5 de Abril de 2011

Jerónimo de Sousa, numa declaração sobre o endividamento do País apresentou as propostas do PCP: renegociação imediata da dívida pública; intervenção junto de outros países; defesa e promoção da produção nacional; diversificação das fontes de financiamento; avaliação do conjunto de situações que envolvem as chamadas Parcerias Publico Privadas.

Como há muito o PCP vem denunciando o endividamento externo líquido do país é uma das consequências mais visíveis da política de desastre nacional que PS, PSD e CDS impuseram nos últimos 35 anos. Uma dívida, pública e privada, em que a dívida privada é maior que a dívida pública, que assume hoje a colossal dimensão de mais de 107% do PIB e que é inseparável de um processo de desindustrialização, do abandono da produção nacional, das privatizações, da submissão às imposições da EU e ao grande capital nacional e estrangeiro.

Uma dívida que resultou, não de um povo a viver acima das suas possibilidades, mas de um processo de aprofundamento da dependência externa e de subordinação aos grupos económicos e financeiros.

Com o endividamento do país ganharam aqueles que nos impuseram a liquidação do aparelho produtivo como a França e a Alemanha e a quem passámos a comprar aquilo que o país deixou entretanto de produzir.

Com o endividamento do país ganharam e ganham os bancos da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha, da Holanda, da França e também de Portugal, que de forma escandalosa se financiam junto do BCE a taxas de juro de cerca de 1%, para depois adquirirem dívida pública cobrando 6%, 7% e até 8% ao estado português, numa ilegítima usurpação de recursos nacionais.

Com o endividamento do país ganharam os banqueiros, a quem o Estado limpou prejuízos (como no BPP e no BPN) e adiantou garantias, transformando dívida privada em dívida pública, distribuindo depois os respectivos sacrifícios pelos trabalhadores e o povo.

Como consequência desse endividamento, da cumplicidade e papel da União Europeia e do quadro decorrente da natureza e funcionamento do capitalismo, Portugal encontra-se hoje confrontado com um insuportável e ilegítimo processo de extorsão dos seus recursos nacionais por via do agravamento dos juros sobre a dívida pública portuguesa.

Com a escalada no valor das taxas de juro sobre a dívida pública portuguesa designadamente a 5 e a 10 anos a ultrapassarem já os 10%, e o serviço da dívida a ultrapassar em 2010 os 5.200 milhões de euros, sendo que a perspectiva para este ano de 2011 é de mais de 7.100 milhões de euros, o processo de financiamento do Estado português e da economia nacional encontra-se numa insustentável espiral de agravamento.

Este é um processo que decorre com a cumplicidade e o papel activo da União Europeia que, apostada na salvaguarda dos interesses do capital financeiro e das grandes potencias (em particular da Alemanha) é conivente com esta onda especulativa, quando teria condições mesmo no actual contexto político e institucional para lhe pôr fim. Em vez disso, a UE assume as concepções e políticas do FMI, chamando-se assim, ou chamando-se Fundo Europeu de Estabilização Financeira, com consequências devastadoras para vários países como a Grécia e a Irlanda onde os resultados ficaram à vista com a subida das taxas de juro, o aprofundamento da recessão económica, o agravamento do desemprego e das injustiças sociais.

Ao contrário do que foi sendo dito, as chamadas medidas de austeridade impostas por PS e PSD em sucessivos PEC's e no último Orçamento do Estado, longe de conterem o roubo em curso ou de acalmarem os mercados, são em si mesmas designadamente pelo efeito recessivo que produzem um factor de agravamento das taxas de juro cobradas, e do processo de chantagem e extorsão com que o grande capital está a confrontar o país. Hoje é o défice, amanhã é a recessão: a espiral especulativa nunca parará enquanto o chantageado ceder ao chantagista

A indispensável rejeição pela Assembleia da República do chamado PEC 4 em Portugal que corresponderia a mais um salto qualitativo contra os direitos dos trabalhadores e do povo português - não anulou os impactos negativos das chamadas medidas de austeridades assumidas nos últimos meses pelo PS, PSD e CDS. Mas também não tornou necessário, como alguns procuram fazer crer, o recurso à ingerência externa no nosso país, designadamente ao FMI.

Há medida que aumenta a pressão - externa e interna - para a entrada do FMI em Portugal, mais claro fica que aquilo que o grande capital pretende é perpetuar a agenda da austeridade, agravar a exploração e a dependência externa, comprometendo as próximas décadas do nosso país em função dos seus próprios lucros e interesses.

Isso mesmo foi confirmado hoje pela posição assumida pela banca nacional, que depois de beneficiar de apoios e financiamentos do Estado a fundo perdido, de especular com a dívida pública, de fugir ao pagamento de impostos, veio publicamente recusar empréstimos ao Estado português e exigir o recurso ao FMI, para prosseguir com a especulação financeira que lhe enche os bolsos. Esta é uma declaração inaceitável. O país não precisa dos favores da banca privada, o que país precisa é de um forte sector financeiro nas mãos do Estado, com papel determinante da Caixa Geral de Depósitos, única forma de defender o interesse e a soberania nacionais.

Portugal não pode assim, aceitar que sejam aqueles que mais beneficiaram do processo de endividamento do nosso país grande capital nacional e estrangeiro - a querer ditar o modo e as condições nas quais o nosso país deveria continuar a ser saqueado.

O PCP considera que a resposta não pode ser outra senão a da firme recusa deste rumo de austeridade seja por via do PEC, seja por via do FMI. A resposta não pode ser outra senão afirmação clara de que Portugal não pode continuar a pagar juros agiotas e a ser vítima dos especuladores, dos agora chamados mercados.

Face à situação insustentável que está criada e aos seus possíveis desenvolvimentos nos próximos tempos, o PCP considera que o Estado português deverá assumir, em ruptura com a actual política, as seguintes posições:

A renegociação imediata da actual dívida pública portuguesa com a reavaliação dos prazos, das taxas de juro e dos montantes a pagar no sentido de aliviar o Estado do peso e do esforço do actual serviço da dívida, canalizando recursos para a promoção do investimento produtivo, a criação de emprego e outras necessidades do país.

A intervenção junto de outros países que enfrentam problemas similares da dívida pública Grécia, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica, etc visando uma acção convergente para barrar a actual espiral especulativa, a par da revisão dos estatutos e objectivos do BCE e da adopção de medidas que visem o crescimento económico, a criação de emprego e a melhoria dos salários.

A adopção de uma política virada para o crescimento económico onde a defesa e promoção da produção nacional assuma um papel central produzir cada vez mais para dever cada vez menos. Com medidas imediatas que visem o reforço do investimento público, a aposta na produção de bens transaccionáveis e por um quadro excepcional de controlo da entrada de mercadorias em Portugal, visando a substituição de importações.

A diversificação das fontes de financiamento, retomando uma política activa de emissão de Certificados de Aforro e de Tesouro e de outros instrumentos vocacionados para a captação de poupança nacional, bem como o desenvolvimento de relações bilaterais encontrando formas mais vantajosas de financiamento. Uma política de diversificação também das relações comerciais, mutuamente vantajosas, com outros países designadamente de África, Ásia e América Latina.

A avaliação do conjunto de situações que envolvem as chamadas Parcerias Publico Privadas, visando, de acordo com o apuramento, a renegociação ou cessação de contractos que se mostrem ruinosos para o Estado.

Os trabalhadores e o povo português não podem continuar a alimentar os super lucros da banca com juros obscenos, nem a salvar os accionistas de bancos falidos como aconteceu com o BPN e o BPP. Os trabalhadores e o povo português não podem continuar a suportar sacrifícios para encher os bolsos dos especuladores e da banca, ao mesmo tempo que o país se afunda na recessão económica, o desemprego alastra e o custo de vida aumenta.

Para o PCP não há outra atitude patriótica e defesa do interesse nacional que não seja a da recusa clara de manter o país sujeito ao saque e à especulação e isso exige que se considerem as medidas que aqui propomos. Esta é a opção indispensável e urgente, inserida na política e no governo patriótico e de esquerda que o PCP propõe ao país.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

AS CRIANÇAS E A VIDA


(a criança e a vida)

SÃO MÃOS QUE TRABALHAM

São mãos que trabalham.

São de homens que puxam barcos, guiam máquinas,

arrancam pedras, martelam nas ruas.

Estas mãos têm dores.

As mãos com feridas têm saudades da água fresca,

das flores, da língua dum cão, das penas dum passarinho.

Os homens destas mãos são tristes. Têm fome, têm sede,

gostavam de acordar um dia e descansar de manhã à noite.

Gosto muito das mãos das pessoas que trabalham.

Estas mãos fazem lembrar um coração com susto.

Miguel Macedo (1966)

MÃOS DE PEDRA

Estas mãos são muito tristes.

Parecem pedras.

Tem estas cores porque estiveram muito tempo

debaixo de água.

Eram mãos de amigos que iam para longe

e os outros não queriam e choravam.

Nunca mais se encontraram.

As mãos ficaram de pedra, à espera,

à espera, à espera, à espera, muito tempo.

Dos dedos nasceram formigas e flores encarnadas.

Maria da Conceição (1966)

AS MÃOS DOS AFOGADOS

São mãos de afogados.

Morrem e depois ficam as flores do mar.

Dão gritos.

Ninguém ouve os gritos.

Os companheiros é Deus, os peixes, as rosas e o escuro.

Sonham que estão vivos e conversam e são amigos

das flores, e das pedras e dos peixes.

A morte dos afogados é como uma canção.

As ondas são berços azuis.

Alberto (1966)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Até já


Até já
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Somos todos tunisinos

DECLARAÇÃO DE FUNDAÇÃO DA

FRENTE 14 DE JANEIRO DAS FORÇAS NACIONAIS, PROGRESSISTAS

E DEMOCRÁTICAS DA TUNÍSIA

PELO SOCIALISMO

Colocado em linha em: 2011/02/03

Tradução para castelhano de Hatem AK., para Corriente Roja

Para afirmar e assegurar a nossa participação na revolução do nosso povo, que lutou pelo seu direito à liberdade e à dignidade nacionaleste povo que deu centenas de mártires e milhares de feridos e detidos – e para completar e garantir a vitória contra os inimigos do interior e do exterior e aqueles que tentam fazer gorar os sacrifícios do povo, constituímos a “Frente 14 de Janeiro”, como marco político para promover e assegurar a revolução, até alcançar os seus objetivos, bem como para lutar e parar as forças da contrarrevolução; frente (e marco) que agrupa os partidos, forças e organizações nacionais, progressistas e democráticas.

Os seus objetivos e tarefas são:

1. A queda do atual governo de Ghanouchi ou de qualquer governo que inclua pessoas do anterior regime, que efetuaram as políticas antinacionais e ntipopulares e serviram os interesses do presidente derrubado.

2. Dissolver o partido do ex-presidente e confiscar as suas sedes, bens, ativos financeiros e fundos, porque são do povo.

3. A formação de um governo de transição que expresse a confiança do povo, das suas forças políticas progressistas e das suas organizações sociais, sindicais e juvenis.

4. A dissolução da câmara de representantes, dos assessores e de todas as instituições, do conselho superior da magistratura; o desmantelamento de toda a estrutura política do antigo regime e a preparação para a eleição de uma assembleia constituinte, para a elaboração de uma nova constituição democrática e um novo marco legal da vida pública, que garanta os direitos políticos, económicos e culturais do povo.

5. A dissolução da polícia política e a promulgação de uma nova política de segurança, que respeite os direitos humanos e as leis.

6. Pedir responsabilidades a todos aqueles que se demonstre que saquearam os bens do povo e contra ele cometeram crimes, como a repressão, o encarceramento, a tortura e as decisões, ordens e execução de assassinatos, assim como àqueles de quem se prove a suaconduta e má gestão da propriedade pública.

7. A expropriação dos bens de toda a família, das pessoas próximas e envolvidas de todos os responsáveis políticos que utilizaram a sua posição para enriquecerem à custa do povo.

8. Assegurar e gerar emprego para os desempregados e tomar medidas urgentes que garantam os subsídios de desemprego, a cobertura social e de saúde e melhorar o poder de compra do povo.

9. A construção de uma economia nacional ao serviço do povo, onde os setores vitais e estratégicos estejam sob o controlo do estado, a nacionalização de todas as empresas que foram privatizadas e a aplicação de uma política económica e social que rompa com a perspetiva capitalista e liberal.

10. O lançamento das liberdades públicas, individuais e, especialmente, a liberdade de manifestação, organização, expressão, de imprensa, informação e crença, bem como a libertação de todos os detidos e a promulgação da lei da amnistia.

11. A “Frente 14 de Janeiro” saúda o apoio das massas populares e das forças

progressistas do mundo árabe e de todo o mundo e apela a que o mantenham.

12. Rejeitar a normalização de relações com a entidade sionista e criminalizá-la e apoiar os movimentos de libertação nacional do mundo árabe e de todo o mundo.

13. A Frente apela às massas populares e às forças progressistas e patrióticas para

continuarem com as mobilizações e a luta, por todas as formas legítimas - especialmente, as manifestações nas ruas -, até se alcançarem os objetivos propostos.

14. A Frente saúda todas as comissões, associações e organizações populares e apela à ampliação do seu círculo de participação em todos os assuntos públicos e da vida diária e quotidiana.

GLÓRIA AOS MÁRTIRES DA INTIFADA E A VITÓRIA PARA AS

NOSSAS MASSAS POPULARES REVOLUCIONÁRIAS

Tunísia, 20 de janeiro de 2011

ASSOCIAÇÃO DE ESQUERDA – OS TRABALHADORES

MOVIMENTO UNIONISTA NASSERISTA

MOVIMENTO DOS NACIONALISTAS DEMOCRÁTICOS

NACIONALISTAS DEMOCRÁTICOS

CORRENTE BAASISTA

ESQUERDAS INDEPENDENTES

PARTIDO COMUNISTA OPERÁRIO DA TUNÍSIA

PARTIDO NACIONAL DE AÇÃO DEMOCRÁT

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

o 25 de Abril calou fundo...

(o 25 de Abril calou fundo no coração de todos os oprimidos)


Cortados aos quadradinhos e colocados junto às sanitas, os jornais de referência nem servem para limpar o cu. O povo não essa merda, como a classificava Fernando Pessoa. Os jornais de referência perderam de tal modo a credibilidade que são oferecidos como prospectos publicitários. Os jornais de referência acabam na reciclagem com os artigos dos politólogos, astrólogos e outros manhosos a soldo.

O descontentamento popular ignora os jornais de referência e as opiniões dos seus assalariados, essas bestas presumidas que se apresentam como politólogos, economistas ou analistas, vá saber-se der quê.

O telemóvel, mail, facebook ou o SMS que juntou em Madrid uma multidão que desmascarou Aznar, mandam às urtigas os jornais de referência, órgãos de intoxicação social pertença dos senhores do dinheiro.

Temos à nossa disposição as novas armas que tunisinos, egípcios e outros oprimidos manejam à perfeição.

“o mundo pula e avança


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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

NESTA HORA


NESTA HORA

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda

Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo

Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio

E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meia quarto

Ganhar meio salário

Como ter direito

A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade

E o resto joga com habilidade

Porque pensa que o povo pensa metade

Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade

Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo é preciso expor

Partir do olhar da mão e da razão

Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar

Como quem parte da terra onde os homens estão

Para construir o canto do terrestre

-- Sob o ausente olhar silente de atenção

Para construir a festa do terrestre

Na nudez de alegria que nos veste

Sophia de Mello Brayner Andresen

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