domingo, 4 de janeiro de 2015

Manoel de Barros - 19/12/1916 – 13/11/2014

19/12/1916 – 13/11/2014

«Poesia é voar fora da asa.»
Manoel de Barros
O Livro das Ignorãças


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser
Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros

sábado, 3 de janeiro de 2015

Num filme de B. de Mille - Mário de Andrade





Num filme de B. de Mille
Eu vi pela quinta vez
    A triste vida de Cristo
          Rei dos Reis.

Num mictório de São Paulo
    Pouco depois li uma vez,
    Sobre o desenho dum pênis,
          Rei dos reis.

    Num automóvel de luxo,
    Sessenta vezes por mês,
    Bem barbeado, bom charuto,
          Rei dos reis...

    Oh, vós todos, homens, homens,
    Homens, o escravo sereis,
    Se dentro em breve não fordes
          Rei dos reis!

Mário de Andrade
Poemas da Negra
Desenhos de Di Cavalcanti.
Rio de Janeiro edições Aluimbramento, 1976.  59 p; ilus. 
Exemplar 421 de uma edição de 450.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

ARTE POÉTICA - Hélia Correia

ARTE POÉTICA

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.

Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.

Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Hélia Correia

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Cortar o tempo - Carlos Drummond de Andrade

(por William Medeiros)
Cortar o tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente

Carlos Drummond de Andrade