sábado, 21 de fevereiro de 2015

CÂNTICO - Manoel de Andrade




CÂNTICO




Eu cantei tantas vezes essa aurora ainda por vir
e saudei comovido o reencontro da bravura.

Quem dera que essa estrela na lapela dos sobreviventes
seja o sol que entreabre a madrugada
e que essa luz não se apague pelas sombras insinuantes do poder
para que não seja abortado esse parto da esperança.
Quem dera que aqueles que agora hasteiam o estandarte da conquista
construam para este povo a morada da justiça
e anunciem ainda um dia a véspera de um perene amanhecer.
Quem dera ver enfim a grande primavera
e o chão da pátria por inteiro semeado
qual útero e celeiro da real fraternidade.

Saúdo os que sobreviveram
na amarga história de um tempo aprisionado.
Na lembrança e na saudade de um bando de pássaros que arribaram
e pousaram nos nostálgicos territórios da distância.
Saúdo os sobreviventes de tantas lutas abortadas
de tantas trincheiras abertas pela fé de uma bandeira.
Companheiro, meu irmão, meu camarada…
na vida e na morte,
na intenção do bom combate
e no imortal sacrário da poesia,
brindo teu nome com a taça do lirismo
e te ofereço o sabor rebelde dos meus versos
para saudar-te na memória imperecível dos caídos
e com a paz da utopia que buscamos.
Manoel de Andrade
Curitiba, Junho de 2003
Este poema consta do livro CANTARES, editado por Escrituras.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Adriano Correia de Oliveira - Jorge Castro



Adriano Correia de Oliveira

não sei cantar para ti como cantaste
numa noite coimbrã de fogo aceso
corações eles foram tantos que tocaste
tal o meu também voando estando preso

vens de um tempo das afrontas sufocadas
de grilhões prendendo mãos e pensamento
nesse tempo em que ao som de guitarradas
descobrimos ser tão livres como o vento

era um tempo de combate e duras pedras
já cantavam na tão velha escadaria
era negra-negra a noite e as capas negras
mas em cada olhar a esperança se fez dia

na denúncia do algoz soltando amarras
como arauto no combate à força bruta
a tua voz na plangência das guitarras
ia unindo a alma e o corpo à mesma luta

era de Maio essa cor que então cantavas
ou de Abril nesse Inverno descontente
e o calor de rubras flores onde voavas
era o azul de um novo céu de nova gente

eram cores e sons de Abril que já trazias
num assombro de poesias perturbadas
e cantavas naus giestas e alegrias
que fazias ser em nós gume de espadas

à razão deste voz que não se guarda
pressentindo um pulsar que se inquieta
foste o canto a arma e a mão que não se atarda
o percurso firme e tenso de uma seta

ao canto deste a vida e foste esperança
conjugaste em tom diverso o verbo dar
e adivinho o Adriano na criança
que ali corre vida fora junto ao mar

porque somos feitos só de terra e barro
já partiste irmão maior mas entretanto
se nas cinzas se amortalha aquele cigarro
fica em nós presente o grito do teu canto.

Jorge Castro
em Poemas de Menagem, 2008

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

“Olha e observa este vulcão de vozes.” - ARMANDO SILVA CARVALHO


“Olha e observa este vulcão de vozes.”
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Olha e observa este vulcão de vozes.
As inúmeras chamas que desabam nas salas
do poder, aqui, podes ouvi-las.
Sabes como trabalham as palavras
os tijolos e também o cimento.
Agora podes vê-los nas operosas visões
do lume, subindo gota a gota
a estrada incorruptível das raízes
ao cume.
Os amantes do tempo sossegam o desejo.
A praça de vidros cintilantes
ecoa no espaço abrupto cavado pelos sons
que agora te angustiam.
Tens tempo agora de lavar o cérebro
com a alva interior que cristalizou afagos
ausências e prisões.
Não lamentes o choro das mães arrepiadas.
Colhe a participação civil o susto o vento
que acende violento este clarão na chuva.
Entraste nas palavras com toda a vertigem
do silêncio.
E o coro desabou sobre o palácio
as lâminas profundas contra o solo
fendendo a espessa ganga
o pesadelo.
Olha e observa este vulcão de luzes.
Miríficas pupilas que despertam na praça
e recortam no opaco as paredes dum rosto.
Mas não tentes exceder-te.
Encontras nos amigos os travos emotivos
a trave que foi mestra sobre os tetos da história. Não
sejas como aqueles, no jogo absorvidos,
de costas para a cidade,
que cultivam lutas sobre os tabuleiros
e mortos, realmente mortos,
diziam ainda que viviam.

ARMANDO SILVA CARVALHO
(ARMAS BRANCAS – 1977)
- Texto elaborado a partir de uma manifestação de trabalhadores da construção civil, junto ao Palácio de S. Bento.
12 de Novembro de 1975