terça-feira, 27 de junho de 2017

“É preciso avisar toda a gente…” - João Apolinário

“É preciso avisar toda a gente…”

É preciso avisar toda a gente
dar notícias informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha.

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores.
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores.

A força da poesia
Este poema foi dito pelo Armando Caldas (apresentado pelo Correia da Fonseca) em 1966 no Café da Cooperativa Piedense a transbordar de gente com os PIDE à mistura. É difícil descrever a emoção causada: todos, todos chorávamos de raiva pela opressão que sufocava e pela esperança militante que nunca nos deixou.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

LIBERDADE - Sérgio Godinho


 

LIBERDADE

Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente


Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quanto não se teve nada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada


Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.


Sérgio Godinho

domingo, 25 de junho de 2017

Mina - ANTÓNIO CALVINHO



Mina

Caminhada lenta
vagarosa.
Passos inseguros
duros!
- Como duros e inseguros
são os passos
que antecedem a morte!
Caminhada longa
que,
com o estrondo,
se fez breve.
Mas mais longa ainda
e mais penosa.
…
E o fumo
O sangue
Os ossos
pedaços
destroços
E os gritos
Os urros
Os gemidos
de jovens escravos
vencidos!
E o cheiro acre da pólvora!
E uma raiva que nasce
Um ódio que se acende
Uma guerra que se justifica:
- Matar para não morrer!
…
E lá longe
Num dito “jardim à beira-mar plantado”
Uma besta que ri
Que delira contente
Bebendo sequiosa
O sangue fresco
Dum corpo jovem
Inocente!

ANTÓNIO CALVINHO

Calvinho, António (1999)
Trinta facadas de raiva. Lisboa: ADFA, pp. 37-38.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Candidatos Usurários - Almeida Faria


Guia para candidatos aos infernos
IV - Candidatos Usurários
Fiéis amantes do alheio, não nos venham dizer que isto é defeito.
Cobiçosos do que não é nosso, somos insatisfeitos de nascença.
Nascemos com cabeças de mealheiro, mas há mais deploráveis cabeças.
Nascemos com diversos pares de pernas, por isso andamos mais depressa.
Somos devotos do deus Money, nosso verdadeiro deus.
Somos em geral poupados. Alguns, vá lá, talvez ávidos.
Não negociamos com promessas.
Não há paraíso na nossa igreja.
Nossos credos são a bolsa, os mercados emergentes, as redes.
Houve usurários padres, bispos, cardeais e até papas, e nem por isso menos louvados.
Príncipes, reis, imperadores foram vaidosos usurários, e nem por isso menos louvados.
Doges usurários pagaram aos Bellini, a Tiziano, a Veronese, e ainda bem.
A persistente devoção à usura fez dos grandes do mundo respeitados mecenas.
Desconfiamos de quem nos vem dizer que despreza a usura, “cancro contra natura”.
Haverá mais imperturbável usurária que a própria natureza?
Sigamos-lhe o exemplo: aceitemos o reino da usura.
Por ela e com ela teremos direito aos eternos infernos.

terça-feira, 20 de junho de 2017

A Coisa Pública e a Privada - Affonso Romano Sant’Anna

A Coisa Pública e a Privada

Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.

Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.

Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?

O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?

— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.

 Affonso Romano Sant’Anna