segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Quanto a Mim, Sonharei com Portugal - Eduardo Alves da Costa




Quanto a Mim, Sonharei com Portugal

Às vezes, quando
estou triste e há silêncio
nos corredores e nas veias,
vem-me um desejo de voltar
a Portugal. Nunca lá estive,
é certo, como também
é certo meu coração, em dias tais,
ser um deserto.

(...)

Chegamos ao fim da vida
com dois ou três parentes
que restaram por inércia;
um amor sem pétalas,
guardado no livro de aventuras
que a imaginação viveu por nós;
e a esperança de que os frutos
desse amor alimentem os pardais,
nossos ancestrais de voo curto
e cor de bolor.

Quero para mim outro destino.
Cantem o hino os que se aprazem
no chá das cinco, em companhia dos deuses.
Quanto a mim, sonharei com Portugal.
Quem sabe, numa dessas noites
amarelas, quando o sono
adormece e nos esquece,
um marinheiro bêbado me arraste
com ele para a grande messe
dos mares; ou desperte eu com a alma
nos lugares, metido na vida até os joelhos!

Não me importa qual porta se abra.
Quero ir a nado para o outro
lado de mim mesmo,
por um mar de perigos.
Uma nau é o que procuro;
uma nau para ganhar o mundo,
longe deste porto em que, seguro,
me vou ao fundo.

Eduardo Alves da Costa
In: No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Três Poemas Portugueses

domingo, 24 de setembro de 2017

Há uma música do povo - Fernando Pessoa

Há uma música do povo

Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…

E ouço-a embalado e sozinho…
É isso mesmo que eu quis…
Perdi a fé e o caminho…
Quem não fui é que é feliz.

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!



(1888-1935)

sábado, 23 de setembro de 2017

Pão com Pão - Márcio Faraco


Pão com Pão

Sambando se foi a mulata
Ficou milionária em Berlim
Aqui nada mudou pra nós
Será que nunca terá fim?

Ela foi vendendo ilusão
Papagaio, coqueiro, banana,
O que será, será que tem
No tabuleiro da baiana?

Pede moleque de rua
Cocada boliviana
Humiliação ou milho-assado?
Quem não conhece, se engana

Se o paraíso é assim
Para isso que eu quero saltar
O satã sentou do meu lado
Vou fugir pra não virar

Brasileiro sem dinheiro
Sem futuro, sem razão
Convivendo com o medo
Só comendo pão com pão