domingo, 5 de agosto de 2018

Fala o tractor - António Osório



Fala o tractor

Não gosto deste perfil de gafanhoto.
Constante sou, trepido, usam-me,
servo da gleba. Rasgo e acamo,
tenho um veio de dolorosa, serena
transmissão. Custa levar de rojo
uma vaca à cova. Esmaguei já
uma perna. Detesto o peso do reboque.
Cinco anos e ainda não percebo estas
sujas peças que rodam em mim.
A escavadora, ao menos, uiva
(amo-a). Não me agrada a sucata.





sábado, 4 de agosto de 2018

(Testamento de um fuzilado.) - José Gomes Ferreira

(Testamento de um fuzilado.)


«Não me falem de fé!

Eu não preciso de fé!

Basta-me morrer de frente
- nesta camaradagem
com todos os mortos de mãos dadas
que desde o princípio do mundo
não quiseram morrer inutilmente…

Fé? Fé?
Eu não preciso de fé!

Basta-me morrer de pé
num desdém de sol-nascente.»





sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Parábola… - António Esperança(?)

 
Parábola…

Parábola para
os que se descobrem
mal governados,
mas se afirmam
descrentes
da eficácia do seu protesto


A última gota de água,
Aquela que manifestamente FEZ TRANSBORDAR O [COPO,
de pronto anunciou soberba a singularidade da sua [participação,
arrogando-se de ser a principal obreira do derrame.

Mas eis que do mais fundo do recipiente
a primeira gota contesta:

-- Não fora eu e não serias a última,
mas tão-somente a que te antecede.

 António Esperança

(Desconheço o autor, onde foi publico, e quando; aceito ajudado)



quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Os Pobres na Estação Rodoviária - Lêdo Ivo

Os Pobres na Estação Rodoviária


Os pobres viajam, Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida no névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão que
tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências, não sabem
portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma eles vão o vêm, saltam e seguram
malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidos nos guichês, sussurram
palavras misteriosas
e contemplam os capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida.
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê que doem
na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos
lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.


Lêdo Ivo