segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Bernardo aos cinco anos - Attilio Bertolucci

(Bertolucci pai e filho)


Bernardo aos cinco anos 

A dor está no teu tímido olhar
Na mão infantil que saúda tímida,
A dor dos dias que virão
Já pesa na tua frágil ossatura.

Num dia de outono que deslisa
Quieto os seus fios de névoa no sol
O jogo acabou de repente,
Deixou-te só onde o caminho acaba.  

Maravilhado por tantas folhas no chão
Numa noite, que a todos aqui
Um pensamento surgiu na mente
Da estação que se aproxima rápida.

Saudaste com um leve aceno
E um sorriso cúmplice, permaneceu
Sombra na sombra, um instante, agora corres
A refugiares-te na nossa ansiedade.



Bernardo a cinque anni
Il dolore è nel tuo occhio timido
Nella mano infantile che saluta senza grazia,
Il dolore dei giorni che verranno
Già pesa sulla tua ossatura fragile.

In un giorno d’autunno che dipana
Quieto i suoi fili de nebbia nel sole
Il gioco s’è fermato all’improviso,
Ti ha lasciato solo dove la strada finisce

Splendida per tante foglie a terra
In una notte, sì che a tutti qui
È venuto un pensiero nella mente
Della stagione che s’accosta rapida.

Tu hai salutato con un cenno debole
E un sorriso patito, sei rimasto
Ombra nell’ombra un attimo, ora corri
A rifugiarti nella nostra ansia.
 Attilio Bertolucci

domingo, 25 de novembro de 2018

Como Nossos Pais - Elis Regina Composição de Belchior




Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

Composição de Belchior

sábado, 24 de novembro de 2018

DE QUEM SÃO - José Viale Moutinho

DE QUEM SÃO

à Raquel e ao Antunes Ferreira

de quem são todas estas mãos
dentro dos meus bolsos vasculhando
o cotão à procura da última moeda
perguntava para consigo aquele
que fingia desconhecer quem governava

pobre companheiro de jornada teus olhos
nesse musgo enredado que cega
mereciam o grande prémio do apoio
a quem em ti se apoia sem pudor
na terra roubada e no muito suor

silêncio é então o que respondes
receoso de que tenham instituído
de novo aquela polícia tão secreta
e que se metia em toda a parte e ouvia
o bater do teu coração como prova de culpa

levanta-te meu caro e prepara-te
o pontapé é agora já todos sabemos
que tem de ser agora: afia a bota que
de todos esses monstros de rapina
nem um deve ficar de amostra ou pista