quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Retrato do Herói - Ary dos Santos

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve

O fogo da palavra que o liberta:

Sangue do homem novo que diz povo

e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve

lhe ser o nome próprio traz aberta

a alma à fome fechado o corpo ao breve

instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado

Não é santo nem mártir nem soldado

Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado

dá o sangue ao futuro e fica ileso

pois lutando apagado morre aceso.

 

Ary dos Santos

 

 

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

AS PESSOAS SENSÍVEIS - Sophia de Mello Breyner Andresen

 
 
 

As Pessoas Sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes 
De matar galinhas 
Porém são capazes 
De comer galinhas 

O dinheiro cheira a pobre e cheira 
À roupa do seu corpo 
Aquela roupa 
Que depois da chuva secou sobre o corpo 
Porque não tinham outra 
O dinheiro cheira a pobre e cheira 
A roupa 

Que depois do suor não foi lavada 
Porque não tinham outra 

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto» 
Assim nos foi imposto 
E não: 
«Com o suor dos outros ganharás o pão» 

Ó vendilhões do templo 
Ó construtores 
Das grandes estátuas balofas e pesadas 
Ó cheios de devoção e de proveito 

Perdoai-lhes Senhor 
Porque eles sabem o que fazem. 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

in "Livro Sexto" (2.ª Ed. 1964)

 

sábado, 13 de janeiro de 2024

"Palestina Vermelha" - Canção italiana pró-palestina

"Rossa Palestine" (Palestina Vermelha) é uma canção italiana antissionista e pró-palestina escrita durante os Anos de Chumbo na Itália em 1973 por Umberto Fiori. Interpretada aqui pelo Edizioni Movimento Estudantil.

"Rossa Palestine"

Laggiù nel Medioriente, come un bufalo ferito
Infuria il pirata americano,
Ma nei campi, sulle dune, sono armati anche i bambini,
Ogni donna impugna il suo fucile,
No, non fan paura i carri armati d’Israele:
La tua terra tu la devi liberare.

Abbiamo alzato il rosso, il verde, il bianco e il nero,
Stretto in pugno la bandiera: i colori di Al-Fatah.
Abbiamo alzato la bandiera partigiana della Rossa Palestina
Accanto a quella del Vietnam!

Li chiamano «banditi» i giornali dei padroni
Che chiamavano «assassini» i partigiani,
Noi non crederemo ai bollettini israeliani,
Al tiranno giordano traditore.
Quante volte ci hanno detto «E’ finita in Palestina»
E ancora cantavamo la canzone.

Abbiamo alzato il rosso, il verde, il bianco e il nero,
Stretto in pugno la bandiera: i colori di Al-Fatah.
Abbiamo alzato la bandiera partigiana della Rossa Palestina
Accanto a quella del Vietnam!

Al di là di questo mare c’è un popolo fratello:
Ogni lotta aiuta un altra lotta,
Ogni colpo sparato sul nemico sionista
In Italia colpisce chi comanda.
Coi popoli in rivolta si muove oggi la storia,
Rivoluzione, fino alla vittoria!

Abbiamo alzato il rosso, il verde, il bianco e il nero,
Stretto in pugno la bandiera: i colori di Al-Fatah.
Abbiamo alzato la bandiera partigiana della Rossa Palestina
Accanto a quella del Vietnam!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

II Gaza - André Luís Alves

II

Gaza

 

Quis dizer estrada

Mas só tinha olfacto,

Quis dizer parágrafo, mas não sabia ler,

Quis dizer Gaza, mas só disse, checkpoint.

 

Atravessaram-se como travessões num discurso interrompido, à mira

de soldados suspensos no ar, com a violência de Golias, prontos a esmagar

olhos ébrios, excitados, entre o poder e o medo, a eros da certeza da missão,

que plano face à juventude das labaredas ou ao halo das inconsciências,

para disparar não preciso de alvo, treino com os meus amigos, entramos em casas,

deixo-lhes doces para as crianças, vinte shequels na mesa, uma simples patrulha nos telhados, os inocentes são culpados, porque aqui todos são culpados,

Sem língua, falar o quê, que a sorte já não existe, que a sombra já comeu a razão?

Nas vésperas do ataque, um, dois, três, todos os números, num calendário de décadas, entre aldeias sem luz, os pesadelos da noite anterior,

todas as estrelas que contemplámos, as searas de ódio que semeámos sobre as terras

“uma terra sem pessoas, para nós, pessoas sem terra”, colonizadas as raízes, a natureza reduzida a rectângulos, kibutz, colonatos, a ocupação militar, manobras em escuta, manobras aleatórias, mais uma patrulha indistinguível, como as cabeças, que as comandam, executam ou perseguem.

 

Cem dedadas no cérebro tenro duma criança é apenas um símbolo,

Daud, e o sangue amiúde de estilhaços escorre sobre os olivais que choram depois de queimados.

 

Toda esta terra proibida, nem a areia é nossa,

passa-nos entre os dedos, roça-os num arrepio

esperamos os ossos na carne,

a carne sem osso, as crianças,

todos os ossos desejam o tendão dum país

e diante disto, desisto esmorecido,

pareço cego a lançar rockets, quatro mil rockets,

invenções mais anti-bloqueio que anti-semitas.

Todos somos semitas, todos precisamos duma casa, um quarto.

Eis-nos diante da esperança.

 

Derrubam um homem numa cadeira de rodas.

 

Ele sozinho

Quis dizer estrada, mas só possuía o ar em volta do nariz,

Quis ele dizer país, mas só lhe pertencia o nada.

 

Queria dizer medo, mas só tinha cegueira,

meda de balbucios e gritos, porque sim, e o que arrepia

é que eu que cresci com esta guerra em casa,

numa casa sem porta,

porta sem estrada,

estrada para o nada,

e o presente despedaçado.

 

Aquele orifício no muro é uma estrada,

um espelho, a chama dum rosto, uma farpa, uma lupa,

uma navalha afiada vista de perto na glote, que pende sufocada,

mesmo quando vejo um olho dum velho já morto do outro lado,

mesmo quando vejo jovens judeus bêbados em Hebron no Purim

mesmo quando vejo um árabe louco, de ambos os lados,

mesmo quando vejo, e já não vejo nada, e a confusão explode.

 

Corremos paralelos para a reunião do confronto, quem atacou quem?

Primeiro, segundo. Espiamo-nos de lados opostos do mesmo muro,

o muro que é um espelho de fantasmas, de esqueletos que habitam na ruína

nas vinhas da ira em que bebemos o ódio iracundo, rutilante,

que refulge com armas e berços, facas que afiamos na língua,

granadas e fisgas, actos que se pagam caro, quando à noite

acordamos com um laser na testa, inocentes, crianças, tanto faz

o horror funda-se no aleatório da banalidade, uma, duas, três vezes, as estrelas

o refutar da causalidade da guerra, mas que pergunta, mato-te porque és

não porque me atacas, e ao sê-lo, cegas-me numa cabala sem limites.

 

“Não existia terra sem pessoas – nós criámos este sonho que impõe um pesadelo aos outros.”

 

 

Só tínhamos olfacto,

e os outro tinham terra, ferramentas, água e minerais,

tralhas, memórias e traumas,

Vieram duma promessa, e nós somos por isso os sem terra, Nakba desde então.

Não esqueceremos, o dia, a pedra em todos os sapatos desde que os pés correm, e as cabeças fogem, na terra que tremeu, e treme.

Com a nossa fuga, abriu-se uma fossa na Palestina, um aterro fundado no maestro

calor que foi ordem naquele caos, destino Beirute, nas estrelas o massacre escrito,

as estrelas sempre esse confronto de cores, na noite sem cor, que ali engolfava os dias. A serpente de mil cabeças teleguiadas ou a surata do elefante.

 André Luís Alves