sábado, 16 de fevereiro de 2019

A UM CAMARADA - José Régio



A UM CAMARADA


Se me dás essa mão calosa e deformada,
Aperto-ta na minha, camarada.
Também, do meu labor, sou eu cativo,
E a tinta que me suja a mão é sangue vivo.

Também, na minha testa, há gotas de suor.
Gelado, o meu. Não sei se teu, pior.
Exausto, ao fim do dia, és uma simples besta
Que dorme; e a insónia, a mim, mais me regela a testa.

Com pedra, terra, cal, cimento, ferro, aço,
Povoas ou constróis cidades. O que eu faço
Não se vê tanto! é longe; é lá no escuro
Das teias do passado e do futuro.

Pedem-te os filhos pão, que após sofrer, lutar,
Nem sempre terás tu para lho dar.
E a mim, - canções, fervor, calor contra o seu frio;
E eu finjo encher a mão no coração vazio!

Teu nome, obscuro som, conhecem-no bem poucos.
Mas o meu, como os doutros que tais loucos,
Já sem sentido por demais ouvido,
Pregoam-no os jornais; - e é o dum desconhecido.

Talvez tu, auto-escravo fixo à terra,
Nunca erguesses o olhar ao céu, e ao que ele encerra.
Eu ergo-o; mas, daquela imensidão composta,
Recaio sobre mim num grito sem resposta.

Cumpre-se, em ambos nós, a velha praga...E em breve,
sobre ti, sobre mim, nos seja a terra leve.
Deixa-os, esses que odeiam, entre nós erguer a espada!
Dá-me a tua mão suja e honesta camarada.


(1901-1969) in "A Chaga do Lado"
(Portugália Abril de 1956)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

FERNANDO LOPES GRAÇA - José Carlos González

FERNANDO LOPES GRAÇA

 

Lenda      legenda    e revolta

canto fundo de prisões e desterros

Carpe Diem    Carpe Diem

nos martelos do som

nas foices de ouro

na voz do corpo dum povo

por ti amado e sofrido

por ti cantado longamente.

Coro de todos nós

seara batida por raios

mas erguida pelo sangue.


Clave de sol: Livros Horizonte, 1988


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A Defesa do Poeta - Natália Correia



A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.


Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias", 1993)


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Teoria da narrativa familiar - Luís Filipe Parrado

Teoria da narrativa familiar.

Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

Luís Filipe Parrado

Luís Filipe Parrado
Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa, 2012.
LUÍS FILIPE PARRADO nasceu no Seixal em 1968. É professor do ensino secundário. Acaba de publicar um excelente primeiro livro de poemas, “Entre a carne e o osso”, na editora Língua Morta, de Lisboa. Trata-se de um surpreendente livro de poesia contemporânea, que percorre em tom biográfico e confessional, as primeiras décadas do autor, através da construção de uma personna literária que nos fala de dentro da vida, de dentro dos dias, com o distanciamento, porém, suficiente para evitar o derramamento lírico. A ironia, o uso da sinédoque e da metonímia, algum humor, servidos por entre um lírismo áspero, seco, contido, bem como um certo tom disfórico e desiludido na conclusão dos poemas são as principais armas de que o poeta se serve para dar corpo a uma original poesia figurativa que faz a transição, na perfeição, entre a lírica portuguesa surgida nos anos 90 e a poesia mais recente, surgida depois de 2000, quer pelos temas que escolhe (o espaço da família e da cidade, as coisas enquanto naturezas-mortas, enquanto objectos solitários), quer pelo tom terno mas dorido, desencantado mas indesistente. Um hino à tradição, ao ofício, à originalidade.