quarta-feira, 28 de junho de 2017

Luís Vaz de Camões




28
 
Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino, e ao povo, caridade,
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade.
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e vã severidade.
Leis em favor do Rei se estabelecem;
As em favor do povo só perecem.
 
LUÍS VAZ DE CAMÕES

Canto IX (Parte I)

terça-feira, 27 de junho de 2017

“É preciso avisar toda a gente…” - João Apolinário

“É preciso avisar toda a gente…”

É preciso avisar toda a gente
dar notícias informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha.

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores.
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores.

A força da poesia
Este poema foi dito pelo Armando Caldas (apresentado pelo Correia da Fonseca) em 1966 no Café da Cooperativa Piedense a transbordar de gente com os PIDE à mistura. É difícil descrever a emoção causada: todos, todos chorávamos de raiva pela opressão que sufocava e pela esperança militante que nunca nos deixou.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

LIBERDADE - Sérgio Godinho


 

LIBERDADE

Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente


Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quanto não se teve nada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada


Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.


Sérgio Godinho

domingo, 25 de junho de 2017

Mina - ANTÓNIO CALVINHO



Mina

Caminhada lenta
vagarosa.
Passos inseguros
duros!
- Como duros e inseguros
são os passos
que antecedem a morte!
Caminhada longa
que,
com o estrondo,
se fez breve.
Mas mais longa ainda
e mais penosa.

E o fumo
O sangue
Os ossos
pedaços
destroços
E os gritos
Os urros
Os gemidos
de jovens escravos
vencidos!
E o cheiro acre da pólvora!
E uma raiva que nasce
Um ódio que se acende
Uma guerra que se justifica:
- Matar para não morrer!

E lá longe
Num dito “jardim à beira-mar plantado”
Uma besta que ri
Que delira contente
Bebendo sequiosa
O sangue fresco
Dum corpo jovem
Inocente!

ANTÓNIO CALVINHO

Calvinho, António (1999)
Trinta facadas de raiva. Lisboa: ADFA, pp. 37-38.