domingo, 10 de dezembro de 2017

28 DE SETEMBRO - Joaquim Manuel Magalhães

28 DE SETEMBRO

Começou tudo na tourada.
Isto é, como devia ser. O curro
predispunha à intervenção.
Essa urgência de voltar à mesma
havia de turbar o meu regresso
a Lisboa. Barreiras CDE de resistência
coscuvilhavam bagagens à procura
de calibres, uma fila maçada
de automóveis burgueses era vista
como homens de mão do Spínola.
No meu vinham cartuchos,
perto de duzentos com poemas,
rótulo nominal e fio com chumbinho.
O polícia popular não entendeu,
«São livros, meu senhor!»
Outros dois não queriam crer.
Eu ateimei. Acabou tudo a rir-se.



sábado, 9 de dezembro de 2017

Angola - Valdelice Pinheiro

Angola

é preciso medir
o ferro
e a forja
no corpo luminoso
desse negro
e saber
do grito livre
dessa África



Mensagem às crianças do mundo - Jacinta Passos

Jacinta Passos, com a filha Janaína (1948).

Mensagem às crianças do mundo
Crianças da Ásia, a velha escrava lendária
que embalou o berço dos primeiros homens do mundo,
crianças da Ásia, a velha escrava lendária
de cujo seio escorre a riqueza como um leite precioso
que os outros homens do mundo arrancam da boca dos seus filhos.
Crianças chinesas, pequeninos heróis de olhos oblíquos,
na célula inicial do vosso ser
ficou impresso o heroísmo cotidiano da resistência
que já se tornou uma forma de vida do vosso povo, crianças da China.
Crianças da Europa,
da França, Polônia, Itália, Bélgica, Suécia,
vossas pátrias entregaram-se ao invasor
como mulheres que se entregam com medo, sem amor,
vossas pátrias são escravas silenciosas, crianças da Europa.

Crianças alemãs,

fabricadas,
mecanizadas,
exatamente iguais como soldadinhos de chumbo,
que aprendem somente a odiar,
que não conhecem um brinquedo,
crianças sem infância,
vós não sois vós mesmas, crianças da Alemanha.
Crianças judias, vosso povo continua a sofrer,
sobre vós pairam as mesmas mãos assassinas
que degolaram, como há dois mil anos na Judeia,
centenas de cabecinhas infantis e risonhas como as vossas, crianças judias.
Crianças da Rússia, a pátria misteriosa
cujo roteiro os donos do mundo ocultavam
como os antigos roteiros dos tesouros que os bandeirantes, ávidos, buscavam,
crianças da Rússia, a pátria misteriosa
que Stalingrado revelou ao mundo.
Crianças nativas das ilhas oceânicas,
vossos olhos descobrem
que para além das praias e dos coqueiros não existe apenas o mar.
Vossos olhos espiam assustados
as grandes aves metálicas e os monstros marinhos carregados de homens,
homens dos continentes distantes que vêm matar e morrer nas vossas ilhas
oceânicas

Crianças da África, dessa África que no deserto e nas selvas

luta há milênios, luta para ser, luta elementar e titânica
contra o sol, o vento, as águas, as feras bravias e o homem branco.
Crianças da América mestiça, a mulher nova e livre
que concebeu Juarez, Castro Alves, Whitman e Bolívar.

Crianças do mundo, guardai esta mensagem

até o dia em que vossos olhos descubram
que não é apenas um papel rabiscado ou uma lição difícil de soletrar.
Muito além desta hora terrível,
o pão,
o fogo,
a água,
a terra,
o ar,
alegrias elementares pelas quais os homens lutam,
permanecem.

Muito além das dores e dos ódios milenares,

muito além de todas as coisas,
muito além do bem e muito além do mal,
a vida permanece.
Muito além desta hora terrível,
chegará um tempo no tempo
em que a polícia, a moral, as leis e todas as coisas acidentais
serão inúteis para a comunidade humana
como remédios para um organismo que recuperou a saúde.
Chegará um tempo no tempo
em que na terra conquistada, os homens, todos os homens, como vós, minhas
puras criancinhas
receberão a vida, a vida simplesmente, como o dom supremo.


Jacinta Passos
(1942), em "Canção da partida"
São Paulo: Edições Gaveta, 1945.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O inolvidável ARY (07-12-1937 / 18-01-1984)

Texto do jornalista Baptista Bastos publicado no «Diário Popular» de 19 de Janeiro de 1984
«Ary dos Santos morreu com 46 anos, cheio de álcool, de solidão e amargura. O álcool, a esse, não escondia: bebia imoderadamente, gregário ou desacompanhado.
A solidão e a amargura, essas, tentava escondê-las, esquecê-las, mergulhando num oceano de palavras, de frases, de locuções, de imagens - para, depois, emergir desse turbilhão com poemas e cantigas, cantigas e poemas que reflectiam um tempo, uma época, um amor, um encontro ou um desencontro; uma furtiva lágrima, uma precária felicidade.
Mas a essa onda de solidão e de amargura Ary dos Santos opunha o seu vozeirão e impunha as palavras como bandeiras desfraldadas:
.
O que é preciso é termos confiança
Se fizermos de Maio a nossa lança,
isto vai, meus amigos,
isto vai!
.
Isso. Isso mesmo: rasgando o desespero com gritos e com cóleras, juntando a sua voz à voz do imenso protestar colectivo - eis Ary dos Santos:
cabotino, espectaculoso, truculento, corajoso como poucos; cabeça alevantada, punho cerrado e erguido, olhar de fogo, a chispa indomável de uma labareda interior que o consumia:
E, também; um grande poeta - acentue-se: Um grande poeta português, da linhagem de um Guerra Junqueiro, de um Gomes Leal, de um Cesário Verde ou de um Gabriel Marujo ou de um Linhares Barbosa (porque não?), todos na mesma fileira, todos eles empenhados, de uma maneira ou de outra, em restituir a voz àqueles a quem a voz tinham roubado.
A pedanteria lítera endossava a poesia de Ary dos Santos para os fojos mais sombrios das «letras de canções».
Letrista, somente; é o que diziam. Será. À maneira dos trovadores medievais, dos menestréis dos condados, que divertiam o povo e zombavam dos senhores da guerra e do mando.
Mas a poesia de Ary dos Santos supera esses confins de desdenhosa fronteira: foi o que foi, é o que é. E frequentemente; é poesia da melhor que produziu a nossa lírica.
Doente, limitado na vida de liberdade que sempre cultivara com grandeza e esmero, Ary dos Santos continuava a trabalhar.
Redigia um livro autobiográfico; «Estrada da Luz-Rua da Saudade», e preparava a edição de dois livros de versos, «Trinta e Cinco Sonetos» e «As Palavras das Cantigas».
Foram seiscentas, as letras para canções que Ary dos Santos compõs: renovou, discutiu, pôs em causa, fez aluir tabus, impôs uma nova visão e, um novo espelho da própria realidade portuguesa: Formou com Nuno Nazareth Fernandes e Fernando Tordo duas parcerias famosas: estes três homens deram uma volta importantíssima na assim chamada «canção ligeira» e ensinaram-nos uma nova maneira de ouvir sons portugueses com o idioma português.
.
Esteve em todas, o José Carlos Ary dos Santos. Com o irrespeito que lhe era natural; com a irreverência que lhe era comum, com a figura impositiva, imponente, rara.
.
Declamou poemas seus e de outros grandes poetas portugueses em celeiros, estábulos, palanques improvisados, estádios, clubes e colectividades populares; ao ar livre; no tablado dos teatros e no chão rijo das eiras alentejanas.
Cantou a Reforma Agrária, cantou o malho e a bigorna, a Liberdade. Cantou-nos. Cantou Abril, cantou Abril! Engrandeceu-nos e melhorou-nos como seres humanos.
Militante do Partido Comunista Português, nunca foi um espectador passivo ou pacificado dos acontecimentos que fizeram a nossa História próxima recente.
.
A maneira dos grandes poetas portugueses que, ao longo do passado colectivo, com frequência encarnaram o próprio corpo da Nação esquecida, humilhada e ferida, Ary dos Santos foi a cólera, a imprecação, o protesto:
Disse português em Portugal e no estrangeiro.
Disse que estávamos vivos, que éramos pessoas, que estávamos aqui e aqui continuaríamos.
Disse que pertencíamos a uma raça de homens livres e indomáveis, que livre e indomavelmente havia caminhado pelo Mundo, rasgando os sulcos de outras pátrias.
Disse isto e muito mais. Não parava. Nunca parou.
Não há memória de o Ary vez alguma ter parado.
A não ser agora: por motivos de força maior.»