sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Da felicidade - Mário Quintana







Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda a parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

MALVADAS LÍNGUAS QUE DÃO FEL À FAMA - Natália Correia

MALVADAS LÍNGUAS QUE DÃO FEL À FAMA


Malvadas línguas que dão fel à fama
Dizem que nestes lúdicos quadrantes,
Os políticos querem é ter mama.
Como não hão-de querer se são lactantes?

Do tenro Alfaia o génio petroleiro
Já no berço os emires embasbacou.
Mal saltou o rebento do cueiro
Logo espantosa basta sobraçou.

Entre os gigantes sociais, um ás
Com chucha e birra na pueril veneta.
Todo o planeta assombra: é o Ferraz.
Como não há-de a CIP querer chupeta?

Muito a preceito dos cristãos fervores
Do CDS, o Lucas é o retrato
De um Menino Jesus entre os doutores
A meter Mestre Freitas num sapato.

Também o PSD lá nos seus topes
Um prodígio infantil com brio exibe.
É o pasmoso bebé Santana Lopes
Que PR há-de ser de arquinho e bibe.

Há ainda o Jaiminho que nas cristas
Do PS a singrar é mesmo um Gama.
Dá beliscões no Soares sem dar nas vistas.
Faça o que faça o puto não se trama.

Porém como o Marcelo neste mapa
A brincar aos cow-boys não há nenhum.
Passa rasteira: o mais subtil derrapa;
Dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.

Onde os meninos de tudo são senhores
Forçoso é que da asneira haja fartura.
E se alguns deles são uns estupores,
É só por traquinice. É só candura.

In O Bisnau, nº 5. 1983



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

As pessoas sensíveis - Sophia de Mello Breyner Andresen

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
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Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

In Obra poética

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O MAIOR POEMA - Mário Dionísio

O MAIOR POEMA

Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Sopa - Carl Sandburg

Sopa

Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
Com uma colher.


SOUP

I saw a famous man eating soup.
I say he was lifting a fat broth
Into his mouth with a spoon.
His name was in the newspapers that day
Spelled out in tall black headlines
And thousands of people were talking about him.
When I saw him,
He sat bending his head over a plate
Putting soup in his mouth with a spoon