terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A Humana Súmula - William Blake

Retrato de William Blake, por Thomas Phillips


A Humana Súmula

A Piedade deixaria de existir
Se não fizéssemos nós os Pobres de pedir;
E a Compaixão também acabaria
Se a todos, como nós, feliz chegasse o dia.

E a paz se alcança com mútuo terror,
Até crescer o egoísmo do amor:
A Crueldade tece então a sua rede,
E lança seu isco, cuidadosa, adrede.

Senta-se depois com temores sagrados,
E de lágrimas os chãos ficam regados;
A raiz da Humildade ali então se gera
Debaixo do seu pé, atenta, espera.

Em breve sobre a cabeça se lhe estende
A sombra daquele Mistério que ofende;
É aí que Verme e Mosca se sustentam
Do Mistério que ambos acalentam.

E o fruto que gera é o do Engano
Doce ao comer e tão malsano;
E o Corvo o seu ninho ali o faz
No mais espesso da sombra que lhe apraz.

Todos os Deuses, quer da terra quer do mar,
P'la Natureza esta Árvore foram procurar;
Mas foi em vão esta procura insana,
Esta Árvore cresce só na Mente Humana.

William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

OS BANCOS - Armando Silva Carvalho




OS BANCOS

Era bom descolar dos bancos, erguer o olhar acima
das cantarias, deste peso rotundo,
desta massa de cifras, destes arranjos de papéis abstractos,
destes homens que sou obrigado a ler e ouvir
como tributo ao facto de estar ainda vivo.
Tudo isto e o futebol
e os seus comentadores de camisa aberta,
deprime a minha idade, mata-me
mais cedo.

Eu descubro a febre antes dela me chegar aos membros,
olho-me ao espelho e pareço um cientista ambulante
desses que ganham prémios
e só lhes falta fixamente o próximo
para alcançarem o cómodo lugar de santos laicos.
As doenças estendem-se nos mapas
as pestes são como as mariposas,
e tudo parece esvoaçar na febre programada.

Mas melhor mesmo era descolar dos bancos,
subir acima do mármore, adormecer sem idade nem estrela,
ou descer tão baixo que a água não consiga encontrar-me,
e os vermes duma beleza estranha, azul, tão movediça,
venham beijar-me os poemas, discípulos da morte.
Sim, descolar dos bancos, encher a boca de terra,
enfim, saber dormir.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

MÃOS DE PEDRA - do livro “a criança e a vida”

MÃOS DE PEDRA

Estas mãos são muito tristes.
Parecem pedras.
Tem estas cores porque estiveram muito tempo
debaixo de água.
Eram mãos de amigos que iam para longe
e os outros não queriam e choravam.
Nunca mais se encontraram.
As mãos ficaram de pedra, à espera,
à espera, à espera, à espera, muito tempo.
Dos dedos nasceram formigas e flores encarnadas.

Maria da Conceição (1966)

do livro “a criança e a vida”
coletânea de textos infantis coligidos por Maria Rosa Colaço

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Soneto para Cesário - Diniz Machado

Soneto para Cesário

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te - sei lá! - desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.