domingo, 16 de junho de 2019

dia de camoens - CÉSAR PRÍNCIPE

dia de camoens

enfatuado
ufano
enche-se de ar o peito lusitano
intruso
sobe à tribuna
arrebata (come)nda das mãos do presi(dente)
que nem sempre
saberá
quantos cantos tem a epopeia
 e se a ilha dos amores
fica perto da madeira
ou lá mais para oriente
sou luiz
soldado prático
cativo-indi(gente)
defunto e ausente
ouvi falar no meu nome
peço desculpa
se fui inconveniente
hoje
quero ser
berardo
vara
bava
simples(mente)

para recitar/com as devidas vénias/no 10 de junho

CÉSAR PRÍNCIPE

sábado, 15 de junho de 2019

A Guerra - A. M. Pires Cabral


A Guerra

pai
escrevo esta de miragens exausto
de perpendiculares dias habitado
de sedes insolentes
perseguido
pai creio devagar
que as densas coisas minhas recordadas
estão longe e ficam cada vez
mais longe em tão rebelde tão pesada
tão árdua resignação

do peito pai
irrompe este mole desperdiçar
da respiração
estrangulada nesta farda (neste arame)
em que nos debatemos filhos tantos
de como tu
pai diverso repetido

pai
limpo a espingarda para um tiro mais puro
mais mortal
semeio ferro obrigado a acreditar
que é paz o que disperso
nos ventos e nas almas

caminho vestido pai de espesso mato
têxtil
a um lado e outro farejo instruído
sinais de presença contenciosa
dos que a terra possuem e não a querem dar

pai o sargento ralhou muito
ralhou tanto o intrépido sargento
pai diz à terra
que voltando a amarei de insensato
e fundo amor ferido

pai escreve
claro largo fresco breve
dá saudades à mãe sem lhe contar
recebe
um abraço deste teu
(guerreiro) filho

 (1974), Algures a Nordeste. Catálogo de Feios, Simples e Humildes. Macedo de Cavaleiros: Edição de Autor, pp. 40-41.


sexta-feira, 14 de junho de 2019

POEMA - Álvaro Feijó




POEMA

Fundiu-se o olhar do poeta em lágrimas salgadas
e o poeta não quis cantar o que os seus olhos viram.
É que o poeta só cantava
para as meninas dos balcões floridos
de cactos e de cravos,
para aquelas
que sonham com estrelas
e príncipes de lenda.
- E preferiu cegar.
Fechar os olhos ao vaivém da rua
e continuar morando em sua Torre de Marfim.

Ah! Poeta inútil!
Enrouqueceu a cantar as líricas inúteis
aos cravos das janelas
das meninas fúteis
e ninguém mais se lembrará de ti.
Mas se cantares a rua, a fome, o sofrimento,
se abrires os olhos sobre o nosso mundo,
se conseguires que toda a gente o veja
e o sinta, e sofra, só de ver sofrer,
ninguém se lembrará de ti, poeta,
mas terás feito a tua luta,
e, nela,
justificado uma razão de ser.

Puema do Dalai lima



quinta-feira, 13 de junho de 2019

Ode à vida - Pablo Neruda

Ode à vida

Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonia, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos creem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho
nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não saíram da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargores
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia
da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adopte nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios.

Pablo Neruda
(Tradução de Luís Pignatelli,
publicações Dom Quixote, 1977
original: Odas elementales, 1954)