domingo, 25 de setembro de 2016

GEOGRAFIA SENTIMENTAL - Albano Martins




GEOGRAFIA SENTIMENTAL

Pertenço a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho.

Albano Martins

sábado, 24 de setembro de 2016

Sobre Dores de Cabeça - ROQUE DALTON



Sobre Dores de Cabeça

É belo ser comunista,
ainda que cause muitas dores de cabeça.

E é que a dor de cabeça dos comunistas
se supõe histórica, melhor dizendo,
que não cede ante as pílulas analgésicas
senão somente quando da realização do Paraíso na terra.
Assim é a coisa.

Sob o capitalismo nos dói a cabeça
e nos arrancam a cabeça.
Na luta pela Revolução a cabeça é uma bomba de retardo.
Na construção socialista planificamos a dor de cabeça
a qual não diminui, muito pelo contrário.

O comunismo será, entre outras coisas,
uma aspirina do tamanho do sol.



Sobre Dolores de Cabeza

Es bello ser comunista,
aunque cause muchos dolores de cabeza.
Y es que el dolor de cabeza de los comunistas
se supone histórico, es decir
que no cede ante las tabletas analgésicas
sino sólo ante la realización del Paraíso en la tierra.
Así es la cosa.
Bajo el capitalismo nos duele la cabeza
y nos arrancan la cabeza.
En la lucha por la Revolución la cabeza es una
bomba de retardo.
En la construcción socialista
planificamos el dolor de cabeza
lo cual no lo hace escasear, sino todo lo contrario.
El comunismo será, entre otras cosas,
una aspirina del tamaño del sol.


ROQUE DALTON

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

OS SÁTRAPAS - PABLO NERUDA

OS SÁTRAPAS

Nixon, Frei e Pinochet até hoje
até este amargo e doloroso mês de Setembro
do desgraçado ano de 1973.
Juntamente com Bordaberry, Garrastazu e Banzer,
são hienas vorazes da nossa história, roedores
a corroerem com venenosos dentes os pendões conquistados
com tanto sangue vertido e no meio de tanto fogo,
são réus infernais,
enlameados no pantanal das riquezas mal adquiridas,
sátrapas mil vezes vendidos e vendedores
incitados pelos lobos de Nova Iorque.
São máquinas esfomeadas por dólares,
manchadas no sacrifício
dos seus povos martirizados,
mercadores prostituídos
do pão e do ar das Américas,
cloacas assassinas e mal cheirosas
chefes de rebanhos de homens
sem conhecerem outra lei senão a da tortura, da fome e do chicote
que impõem aos seus povos.


CHILE, 15 de Setembro de 1973
(O último poema de Neruda – publicado no Semanário
«A OPINIÃO» em Outubro de 1973.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

SALAMARGO - Eduardo Alves da Costa



SALAMARGO


Salamargo é o pão de cada dia;
pão de suor, amargonia.
Amargura por viver nesta agonia,
salamargando a tirania.

Salamargo é o tirano, segundo a segundo
amargo sal que salga o mundo.
Assassino das manhãs, carrasco das tardes,
ladrão de todas as noites
e de seu mistério profundo;
carcereiro de seu irmão, a transmudar
a fantasia em noite de alcatrão.

Amaro é fado de nascer escravo,
amargonauta em mar de sal,
nesta salsa-ardente irreal em que cravo
unha e dentes, buscando viver
como um bravo entre decadentes.

Salamargo, tão amargo quanto
o mais amargo sal, é comer
o pão de cada dia sob o tacão
da tirania. Um pão amargo,
sem sal, pobre de amor e fantasia.
Salamargo existir sem poesia.

no livro “No Caminho com Maiakóvski”