domingo, 16 de dezembro de 2018

Morna - DANIEL FILIPE


 

É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
- subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece



In: A ilha e a solidão

sábado, 15 de dezembro de 2018

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores - Geraldo Vandré



Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer


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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

PÔR DO SOL - Miguel de Unamuno



PÔR DO SOL

Sabeis qual é o mais feroz tormento?
É o de um orador tornar-se mudo:
o de a um pintor, p'ra quem a forma é tudo,
tremer a mão, perder seu talento

ante os néscios, e é, nesse momento
que em combate se torna mais rudo,
ficar só, sem lança e sem escudo,
p'ra ao inimigo dar contentamento.

Ver-se envolto entre nuvens do ocaso
em que enfim nosso sol desaparece
é pior que morrer. Terrível passo

sentir que nossa mente desfalece!
Nosso pecado é tão horrendo acaso
que o martírio de
Luzebel assim merece?

Miguel de Unamuno

In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento
PUESTA DE SOL
¿Sabéis cuál es el más fiero tormento?
Es el de un orador volverse mudo;
el de un pintor, supremo en el desnudo,
temblón de mano; perder el talento

ante los necios, y es en el momento
en que el combate trábase más rudo
sólo hallarse, sin lanza y sin escudo,
llenando al enemigo de contento.

Verse envuelto en las nubes del ocaso
en que al fin nuestro sol desaparece
es peor que morir. ¡Terrible paso

sentir que nuestra mente desfallece!
¿Nuestro pecado es tan horrendo acaso
que así el martirio de Luzbel merece?

Bilbao, IX-1910.

Miguel de Unamuno


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

ROMANCE DE TOMASINHO-CARA-FEIA - DANIEL FILIPE

ROMANCE DE TOMASINHO-CARA-FEIA

Farto de sol e de areia,
que é o mais que a terra dá,
Tomasinho-Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornara?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destino.
Só nhá fortuna, a mãe,
que é velha e não tem ninguém, chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igualzinho ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho-Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?)
Foi prá pesca da baleia.

-- E nunca mais voltará.