terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

PROJECTO DE PREFÁCIO - Mário Quintana




Fere de leve a frase… E esquece… Nada
Convém que se repita…
em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

PROJECTO DE PREFÁCIO

Sábias agudezas… refinamentos…
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre…
Um poema que não te ajuda a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Bibliocausto - Guimarães Rosa





Bibliocausto

Que a minha mão não trema
ao deitar no fogo forte e primitivo
todos os traidores
que me deram veneno.

Queimarei o frio
geometrizador da vida
lapidada através de lentes bem polidas
(ah, o horror daquela pedra voando,
tangida pela mão de não sei que demônio,
e a pensar, pelo espaço, que ainda tem arbítrio!…)…

Queimarei o detrator,
maníaco e vaidoso,
que quis deter a vida numa câmara lenta,
para a tingir depois numa câmara escura
(ah, o inferno galopando às doidas
nos cavalos sem freios
da vontade cega e sem destino!…)

Queimarei o louco,
ébrio de orgulho,
raivoso de fraqueza,
que destilava haxixe em frascos verdes
na paisagem alpina
(ah, o prazer com que ainda o queimaria
em cada uma das voltas pavorosas
do seu Eterno Retorno!…)…

E só ficará comigo
o riso rubro das chamas, alumiando o preto
das estantes vazias.
Porque eu só preciso de pés livres
de mãos dadas,
e de olhos bem abertos…

Guimarães Rosa

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Barca Bela - Almeida Garrett


 
Barca Bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

SÍMBOLO

(Foto de Fernando DC Ribeiro – Blog Chaves)

Emerge da Terra, húmus de onde emanámos, orgulho de sermos o que somos. Imagem de um Povo que dia-a-dia se refaz, resiste e avança de bordão amparo e guia, desbravando o futuro ancorado no labor secular que deixa sulcos indeléveis na tez dos que são e se afirmam como os principais sujeitos da história.

É a Terra de onde vim e irei. É minha e pertenço-Lhe.