terça-feira, 14 de agosto de 2018

As Amoras - Eugénio de Andrade

As Amoras


O meu país sabe às amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


domingo, 12 de agosto de 2018

Sol de mendigo - Manuel da Fonseca


Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira…

Pela manhã acorda tonto de luz
vai ao povoado e grita:
– Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios rosnam:
– Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o chão
dorme, dorme….



sábado, 11 de agosto de 2018

EXCEPÇÃO - MURID BARGHUTY

EXCEPÇÃO

Todos chegam
Rio e comboio
Som e barco
Luz e cartas
Os telegramas de pêsames
Os convites para jantar
A mala diplomática
A nave espacial
Todos chegam, todos excepto os meus passos em direcção ao meu próprio país...

MURID BARGHUTY

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Contos Cubanos - Mahmud Darwish




Contos Cubanos

I

Não tenho tempo agora
De contar as histórias dos mártires
Não tenho tempo
Os lábios das feridas em curso
Me sangram... devoram meus últimos instantes
Mas tu não chores
Meu sangue é um fio de azeite
Que alimenta a lâmpada da liberdade
Não chores tu
Enquanto cuba esteja em pé


II

Mãe
As lágrimas sobre mártires vivos
São uma grande vergonha
Ora pela terra verde
Que seja pródiga em pães para seus filhos
Reza pelos vivos
Que permaneçam anos em sua pátria
Não comi meu pão... Ó mãe
Os inimigos se fartaram... inclusive de minha carne
E amanhã... os corvos dos bosques negros
Disputarão meu corpo
Mas ficarão o pão e Cuba
Para os cubanos livres


III

Minha tumba Ó mãe... minha tumba não tem endereço
Eu vivo em todas as partes
Caminho... e não tenho pernas
Falo... e não tenho língua
Vejo... e não tenho olhos
Eu vivo em todas as partes
Sou o deus deste século
Filho de Revolução... e da dor


De Crônicas da dor palestina

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

AMÉRICA - Allen Ginsberg



AMÉRICA

América eu lhe dei tudo e agora não sou nada.
América dois dólares 27 centavos 17 de janeiro, 1956.
América não aguento mais minha própria mente.
América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com sua bomba atômica…
Não estou legal não me encha o saco
Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.
América quando é que você será angelical?
Quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?
Quando você merecerá seu milhão de trotskistas?
América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?
América quando mandará seus ovos para a India?
Estou cheio das suas exigências malucas?
Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso
Só com minha boa aparência?
América afinal eu e você é que somos perfeitos não o outro mundo.
Sua maquinaria é demais para mim.
Você me faz querer ser santo.
Deve haver um jeito de resolver isso.
Burroughs está em Tanger acho que ele não vai voltar mais isso é sinistro.
Estará você sendo sinistra ou isso é uma brincadeira?
Estou tentando entrar no assunto.
Recuso-me a abrir mão das minhas obsessões.
América pare de me empurrar sei oque estou fazendo.
América as pétalas das ameixeiras estão caindo.
Faz meses que não leio os jornais todo o dia alguém é julgado por assassinatos.
América fico sentimental por causa dos Wobblies.
América eu era comunista quando criança e não me arrependo.
Fumo maconha toda vez que posso.
Fico em casa dias seguidos olhando as rosas do armário.
quando vou ao Bairro Chinês fico bêbado e nunca consigo alguém para trepar.
Eu resolvi vai haver confusão.
Você devia ter me visto lendo Marx.
meu psicanalista acha que estou muito bem.
Não direi as orações ao senhor.
Eu tenho visões místicas e vibrações cósmicas.
América ainda não lhe contei o que você fez com Tio Max depois que ele voltou da Rússia.
Eu estou falando com você.
Você vai deixar que sua vida emocional seja conduzida pelo Time Magazine?
Estou obcecado pelo Time Magazine.
Leio-o toda semana.
Sua capa me encara toda vez que passo furtivamente pela confeitaria da esquina.
Leio-o no porão da biblioteca Pública de Berkeley.
Está sempre me falando de responsabilidades. Os homens de negócios são sérios. Os produtores de cinema são sérios. Todo o mundo é sério menos eu.
Passa pela minha cabeça que eu sou a América.
Estou de novo falando sozinho.
A Ásia ergue-se contra mim.
Não tenho nenhuma chance de chinês.
É bom eu verificar meus recursos nacionais.
Meus recursos nacionais consistem em dois cigarros de maconha milhões de genitais uma literatura pessoal impublicável a 2000
quilómetros por hora e vinte e cinco mil hospícios.
Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados
que vivem nos meus vasos de fçores à luz de quinhentos sóis.
América liberte Tom Mooney
América salve os legalistas espanhóis.
América
Sacco e Vanzetti não podem morrer
América eu sou os garotos de Scottsboro
América quando eu tinha sete anos minha mãe me levou a uma reunião da cédula do Partido Comunista eles nos vendiam grão de bico um bocado por um bilhete um bilhete por um tostão e todos podiam falar todos eram angelicais e sentimentais para com os trabalhadores era tudo tão sincero você não imagina que coisa boa era o partido em 1935
Scott Nearing era um velho formidável gente boa de verdade Mãe Bloor me fazia chorar certa vez vi Israel Amster cara a cara. Todo mundo devia ser espião
 (…)
Soldados Manifestantes contra a Guerra do Vietnã
punidos
Por Lesa-Presidência
Trabalhos Forçados
Conhece-te a Eles mesmos nos Depósitos de Petróleo
da Refinaria Shell…

Serafins do Poder Financeiro em planícies texanas
homens imensos obesos poderosos
enviando carradas de Capital
via trem
Através dos prados –
Enfiando mensagens em milhões de ouvidos limpos-inocentes
Mensagens espirituais sobre a guerra espiritual –
Vinde a Jesus
que é onde a grana está
vozes do Texas
Cantando blues do Vietnã
com voz nasalada…