quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Amércia Latina - Nicomedes Santa Cruz

Amércia Latina

Meu Camarada
Meu sócio**
Meu irmão

Parceiro
Camará**
Companheiro

Minhas pernas
Meu filhinho
Campesino…

Aqui estão meus vizinhos.
Aqui estão meus irmãos.

As mesmas caras latinoamericanas
de qualquer ponto da América Latina:

Índiobranquinegros
Branquinegríndios
e Negríndiobrancos

Louros beiçudos
Índios barbudos
e negros alisados

Todos se queixam:
-Ah, se em meu país
não houvesse tanta política…!
-Ah, se em meu país
não houvesse gente paleolítica…!
-Ah, se em meu país
não houvesse militarismo,
nem oligarquía
nem chauvinismo
nem burocracia
nem hipocrisia
nem clerezia
nem antropofagia…
-Ah, se em meu país…!

Alguém pergunta de onde sou
(Eu não respondo o seguinte):

Nasci perto de Cuzco
admiro a Puebla
me inspira o rum das Antilhas
canto com voz argentina
creio em Santa Rosa de Lima
e nos Orixás da Bahia
Eu não colori meu Continente
nem pintei de verde o Brasil
amarelo Peru
vermelha Bolívia

Eu não tracei linhas territoriais
separando irmão de irmão.

Pouso a testa sobre Río Grande
me afirmo pétreo sobre o Cabo de Hornos
afundo meu braço esquerdo no Pacífico
e submerjo meu direito no Atlântico.

Pelas costas do oriente e ocidente
duzentas milhas entro à cada Oceano
submerjo mão e mão
e assim me aferro à nosso Continente
em um abraço Latinoamericano.



**”socio” talvez pudesse ser melhor traduzido como “parceiro”, mas como ele utiliza “aparcerado” logo abaixo, optei por um outro sentido possível de “socio” que é “sócio” mesmo…
**a palavra original é “camarado” pra qual não existe tradução… é “camarada” aplicada ao homem…

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

OFICINA - Pedro Tierra

OFICINA

Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.
Che Guevara

Ao companheiro Luiz José da Cunha,
assassinado em julho de 1973

Há nesta cidade uma oficina.
Há nesta noite uma oficina.
Os ferreiros são apenas sombras,
na hora tardia dos encontros.

Reter a palavra quando o gesto é possível.
Descer a rua como a bruma sobre o mar.
O vigia não perceba mais que o vento,
um sereno mais intenso.

Há neste país uma oficina.
Há uma oficina na América.
Percebemos daqui o martelar das ordens:
recortar no aço o rosto dos ferreiros,

a mão taciturna dos ferreiros.
Trabalhar no ferro a vontade
dos escolhidos, a alma retificada
na dor, a crença que resistiu purificada.

Há na madrugada uma oficina.
Há no sangue do povo uma oficina
de reservas infinitas,
que se reconstrói a cada minuto.

Você, companheiro, encontre os homens
que labutam na forja
e diz a eles por mim:
não malhem na bigorna sem ternura.



terça-feira, 21 de novembro de 2017

SE FORES AO ALENTEJO... - Eduardo Olímpio

SE FORES AO ALENTEJO...

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o coração aberto,
E ao lado do coração
Leva a rosa da justiça
E o teu filho pela mão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o teu braço liberto
Para abraçar teu irmão;
Esse irmão que está tão perto
Do teu aperto de mão
E que tão longe amanhece
Nos campos da solidão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva a alegria de seres
Irmão de quem vai parir
Uma seara de trigo,
Uma charneca a florir,
Um rebanho e um abrigo
E um amanhã que há-de vir
Como se fosse outro amigo
Dentro do sol, a sorrir.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o coração aberto
E o teu filho pela mão.

Eduardo Olímpio