domingo, 23 de julho de 2017

Contrariedades - Cesário Verde





Contrariedades


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
    Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
    E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
    E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
    Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
    Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
    Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
    Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
    Que mundo! Coitadinha!


sábado, 22 de julho de 2017

Aço na forja… - Carlos de Oliveira


Aço na forja…

Aço na forja dos dicionários
as palavras são feitas de aspereza:
o primeiro vestígio de beleza
é a cólera dos versos necessários.

(in: Mãe Pobre)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A GRADE - Carl Sandburg

 

 A GRADE

Agora, a mansão à beira do lago já está
        concluída, e os trabalhadores estão
        começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
        de tirar a vida de qualquer um que se
        arrisque sobre elas.
Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
        entrada de todos os famintos e vagabundos
        e de todas as crianças vadias à procura de
        um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
        passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
        Amanhã.

Carl Sandburg
 Tradução: Carlos Machado
 A FENCE

Now the stone house on the lake front is
         finished and the workmen are beginning
         the fence.
The palings are made of iron bars with steel
         points that can stab the life out of any
         man who falls on them.
As a fence, it is a masterpiece, and will shut off
         the rabble and all vagabonds and hungry
         men and all wandering children looking
         for a place to play.
Passing through the bars and over the steel
         points will go nothing except Death
         and the Rain and To-morrow.

terça-feira, 18 de julho de 2017

1ª Canção - Daniel Filipe

1ª Canção

De ti sabes o nome
a hora exacta o martelo no relógio
a escassa visão do tempo novo, a vida
sempre imatura e entanto desejada
 
De ti sabes a calma citadina
a distância entre a casa e o emprego o perfil
da amante
o sabor do café matinal
a maresia súbita.
 
De ti sabes a idade a altura o peso e o vigor
dos músculos a suave atracção
da porta do cinema
a misteriosa voz lunar palavras soltas
gagarine vostok estação espacial
 
De ti sabes os sinais característicos
quando pode ser escrito medido registado
em fichas passaportes cartões de identidade
não sabes da bala da pólvora da arma
não sabes das mãos como as tuas plebeias
erradas mãos do povo
não sabes do medo do ódio da terrível  impotência
 
não sabes da morte antes do tempo
exilado na pátria numa tarde de Maio