domingo, 31 de dezembro de 2023

Antes que Seja Tarde - Manuel da Fonseca

 

Antes que Seja Tarde

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca

in "Poemas Dispersos"

 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

25 dezembro 2023, Natal de Gaza

 

O ataque de domingo 25 de dezembro foi um dos mais mortíferos desde 7 de outubro

«Nesta manhã de 25 de Dezembro de 2023, um ataque do Exército israelita deixou pelo menos 106 mortos no campo de refugiados de Maghazi, um sobrevivente disse ser “o completo extermínio de uma zona residencial”, segundo a emissora pan-árabe Al Jazeera. Foi um dos ataques mais mortíferos de Israel na Faixa de Gaza desde 7 de outubro.

O sobrevivente Abu al-Eis, ouvido pela Al Jazeera, contou que, além das famílias que viviam no local, havia ainda muitas pessoas deslocadas de outras zonas do território.

A jornalista Hind Khoudary descreveu como as pessoas estavam a tentar, com as próprias mãos, retirar sobreviventes dos escombros, já que não havia equipas de socorristas presentes nem ambulâncias. “Um homem diz que cinco familiares seus estão debaixo dos escombros, incluindo o filho de dois meses”, disse Khoudary. “Cheira a sangue, vemos corpos desfeitos, e acabámos de ver ser retirado um bebé dos escombros.”»

Os administradores dos colonatos do Ocidentais, vulgo Europa” mantêm-se coniventes com os genocidas sionistas, nem só um boicote uma só sanção a Israel, tão lestos que têm sido em seguir os ditames dos USA para com a Federação Russa.

ANTIDEUTERONOMIO II - ADÃO CRUZ

ANTIDEUTERONOMIO II 

No tempo em que as sardinheiras das varandas dos pobres

faziam parte dos nossos sonhos

florindo em poemas de sol e de cor

no tempo em que as andorinhas

teciam grinaldas de vida nos beirais

no tempo em que os rios bordavam a terra de areia branca

no tempo em que a brisa sussurrava

por entre as flores

e as fontes murmuravam seus amores

a aurora da nossa inquietação tinha o cheiro a maçãs

e o pulsar das coisas vivas

e o levíssimo sorriso dos jardins do paraíso.

Tudo amávamos em nobre sentimento de exaltação

o mundo era transparente e fácil de amar

e cheirava a feno

a razão ondulava a frágil seara

em suave alento na quietude universal da liberdade

como harmoniosa mulher suspirando ao vento.

Tão inocente amor

tanta alegria

quem pensaria que os rios de pranto

haveriam de chegar um dia

em negra nuvem de calado voo.

Não podemos deixar que a nuvem negra

se abata sobre nós e o pensamento…

e o pensamento nos agarre no desértico silêncio

sentados ao vento

no falso sol da varanda da ilusão

e da erosão da consciência adormecida.

Não podemos deixar que a todos nos transforme

em filhos da morte

filhos de nenhum lugar e de toda a parte

figuras do vale das sombras

esgueirando-se nas sombras de outras sombras

sonâmbulos fantasmas

sem gestos de vida que nos façam acordar.

E quando for dia de sol bem alto

porque haverá sempre um dia

a rasgar a deuteronómica nuvem negra

que ameaça os campos do futuro

e o sereno assombro das pedras

e os peixes verdes dos poemas

e os rubros sorrisos que cheiram a mar

e os passos dos que aprendem a andar

e os rios que correm nos olhos de uma criança

e a memória sem tempo

jamais a exaltação da santidade

estará na morte e nas cinzas da cidade.

E não haverá espinhos nos olhos

e aguilhões nos flancos da vida…

E não haverá armas de destruição maciça

no coração das mães dos filhos exterminados.

Na diáfana manhã de um novo dia

apenas a plangente harmonia de um Stabat Mater.

 

ADÃO CRUZ

 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

OS NOVE MONSTROS - César Vallejo

OS NOVE MONSTROS

 

E, desgraçadamente,

a dor cresce no mundo a cada instante,

cresce a trinta minutos por segundo, passo a passo,

e a natureza da dor é a dor duas vezes

e a condição do martírio, carnívoro, voraz,

é a dor duas vezes

e a função de erva puríssima, a dor

duas vezes

e o bem de ser, nos doer duplamente.

 

Jamais, homens humanos,

houve tanta dor no peito, na lapela, na carteira,

no copo, no açougue, na aritmética!

Jamais tanto carinho doloroso,

jamais tão perto o longe malferiu,

nunca o fogo jamais

fez tão bem seu papel de frio morto!

Jamais, senhor ministro da saúde, foi a saúde

mais mortal

e a enxaqueca tirou tanta fronte da fronte!

E o móvel teve, em sua gaveta dor,

o coração, na sua gaveta, dor,

a lagartixa, na gaveta, dor.

 

Cresce o infortúnio, irmãos homens,

mais veloz do que a máquina, dez máquinas, e cresce

com a besta de Rousseau, com nossas barbas;

cresce o mal por razões que não sabemos

e é uma inundação com próprios líquidos,

com barro próprio e própria nuvem sólida!

O sofrimento inverte posições, dá espetáculo

no qual o humor aquoso é vertical

ao pavimento,

o olho é visto e esta orelha é ouvida,

e esta orelha dá nove campanadas na hora

do raio, e nove gargalhadas

na hora do trigo, e nove sons fêmeas

na hora do pranto, e nove cânticos

na hora da fome e nove trovões

e nove látegos, menos um grito.

 

A dor nos agarra, irmãos homens,

por detrás, de perfil,

e nos entoca nos cinemas,

nos crava nos gramofones,

nos descrava dos leitos, cai perpendicularmente

a nossos tíquetes, a nossas cartas;

e é tão grave sofrer, mesmo rezando...

De consequências

da dor, existem alguns

que nascem, outros crescem, outros morrem,

e outros que nascem e não morrem, outros

que morrem sem haver nascido e outros

que não nascem nem morrem (a maioria).

 

E também por efeitos

do sofrimento, estou triste

até a cabeça, e mais triste até o tornozelo,

de ver o pão, crucificado, o nabo

ensanguentado,

a cebola chorando,

os cereais, em geral, feitos farinha,

o sal desfeito em poeira, a água fugitiva,

o vinho um ecce-homo,

e tão pálida a neve, e tão árdego o sol!

Como, irmãos humanos,

não vos dizer que já não posso e

já não posso com tanta gaveta,

tanto minuto, tanta

lagartixa e tanta

inversão, tanto longe e tanta sede de sede!

Senhor ministro da saúde, que fazer?

Ah, desgraçadamente, homens humanos,

há, meus irmãos, muitíssimo a fazer.

 

 César Vallejo

Los nueve monstruos

Y, desgraciadamente,
el dolor crece en el mundo a cada rato,
crece a treinta minutos por segundo, paso a paso,
y la naturaleza del dolor, es el dolor dos veces
y la condición del martirio, carnívora, voraz,
es el dolor dos veces
y la función de la yerba purísima, el dolor
dos veces
y el bien de ser, dolernos doblemente.

¡Jamás, hombres humanos,
hubo tanto dolor en el pecho, en la solapa, en la cartera,
en el vaso, en la carnicería, en la aritmética!
Jamás tanto cariño doloroso,
jamás tan cerca arremetió lo lejos,
jamás el fuego nunca
jugó mejor su rol de frío muerto!
¡Jamás, señor ministro de salud, fue la salud
más mortal
y la migraña extrajo tanta frente de la frente!
Y el mueble tuvo en su cajón, dolor,
el corazón, en su cajón, dolor,
la lagartija, en su cajón, dolor.

Crece la desdicha, hermanos hombres,
más pronto que la máquina, a diez máquinas, y crece
con la res de Rousseau, con nuestras barbas;
crece el mal por razones que ignoramos
y es una inundación con propios líquidos,
con propio barro y propia nube sólida!
Invierte el sufrimiento posiciones, da función
en que el humor acuoso es vertical
al pavimento,
el ojo es visto y esta oreja oída,
y esta oreja da nueve campanadas a la hora
del rayo, y nueve carcajadas
a la hora del trigo, y nueve sones hembras
a la hora del llanto, y nueve cánticos
a la hora del hambre y nueve truenos
y nueve látigos, menos un grito.

El dolor nos agarra, hermanos hombres,
por detrás de perfíl,
y nos aloca en los cinemas,
nos clava en los gramófonos,
nos desclava en los lechos, cae perpendicularmente
a nuestros boletos, a nuestras cartas;
y es muy grave sufrir, puede uno orar…
Pues de resultas
del dolor, hay algunos
que nacen, otros crecen, otros mueren,
y otros que nacen y no mueren, otros
que sin haber nacido, mueren, y otros
que no nacen ni mueren (son los más)
y también de resultas
del sufrimiento, estoy triste
hasta la cabeza, y más triste hasta el tobillo,
de ver al pan, crucificado, al nabo,
ensangrentado,
llorando, a la cebolla,
al cereal, en general, harina,
a la sal, hecha polvo, al agua, huyendo,
al vino, un ecce-homo,
tan pálida a la nieve, al sol tan ardio!.
¡Cómo, hermanos humanos,
no deciros que ya no puedo y
ya no puedo con tanto cajón,
tanto minuto, tanta
lagartija y tanta
inversión, tanto lejos y tanta sed de sed!
Señor Ministro de Salud: ¿qué hacer?
¡Ah! desgraciadamente, hombres humanos,
hay, hermanos, muchísimo que hacer.

Poemas humanos, 1939.

César Vallejo

POEMAS DE CESAR VALLEJO

“A obra de um poeta da grandeza de Cesar Vallejo (1892-1938) só pode ser entendida na coerência e amplitude que fazem de sua vida e de sua obra uma só totalidade. Em sua íntima inteireza. Na variedade dos recursos formais que encontrou, para tratar temas tão diversos: a vida familiar (e dentro dela, centro dela, a permanente figura da Mãe), o amor, a terra, o trabalho, o tempo, o índio, mas também a necessidade de absoluto, a busca de sentido e o desamparo da condição humana. Poeta de uma raça, de um povo, de uma cultura, intérprete autêntico da alma peruana, Vallejo acima de tudo é o atormentado cantor do homem ferido pela ferocidade do mundo contemporâneo.” Thiago de Mello

 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

A paisagem cambiante - Jacques Prèvert

 

A paisagem cambiante

 

Das duas coisas a lua

a outra é o sol

os pobres os trabalhadores não vêem essas coisas

o sol deles é a sede o pó o suor o alcatrão

e quando trabalham ao sol o trabalho esconde-lhes o sol

o sol deles é a insolação

e o luar para trabalhadores noturnos

é a bronquite a farmácia as preocupações as chatices

e quando o trabalhador adormece é embalado pela insónia

e quando o seu despertador o acorda

encontra sempre aos pés da cama

a carranca do trabalho

que escarnece e zomba dele

então ele levanta-se

então ele lava-se

e sai para a rua semiacordado

caminha na rua semiacordado semiadormecido

e apanha o carro operário

e o carro operário o condutor o revisor

e todos os trabalhadores semiacordados semiadormecidos

atravessam a paisagem petrificada entre a noite e a madrugada

a paisagem de tijolo de janelas sem vidros de becos

a paisagem eclipse

a paisagem prisão

a paisagem sem ar sem luz sem risos nem estações do ano

a paisagem gelada dos bairros operários gelados tanto em pleno verão como em pleno inverno

a paisagem triste

a paisagem vazia

a paisagem explorada aviltada engolida escamoteada

a paisagem carvão

a paisagem pó

a paisagem óleo

a paisagem escória

a paisagem castrada apagada mutilada degradada e atirada para a sombra

para a grande sombra

a sombra do capital

a sombra do lucro

Nessa paisagem por vezes brilha um astro

um único

o falso sol

o sol baço

o sol escondido

sol cão do capital

o velho sol de cobre

o velho clarão

o velho sol cibório

o velho sol fístula

o odioso sol do rei sol

o sol de Austerlitz

o sol de Verdun

o sol ídolo

o sol tricolor e incolor

o astro das catástrofes

o estro da pulhice

o astro da matança

o astro da estupidez

o sol morto.


E a paisagem semiconstruída semidemolida

semiacordada semiadormecida

desaba na guerra na desgraça e no esquecimento

e depois recomeça passada a guerra

reconstrói-se a si mesma na sombra

e o capital sorri

mas um dia há-de vir o verdadeiro sol

um verdadeiro sol quente e forte que despertará a paisagem entorpecida

e os trabalhadores sairão para a rua

e então verão o sol

o verdadeiro o violento e vermelho sol da revolução

e eles contar-se-ão

e compreender-se-ão

e verão o seu número

e olharão a sombra

e rirão

e avançarão

pela última vez o capital quererá impedi-los de rir

eles matá-lo-ão

e enterrá-lo-ão sob a paisagem da miséria

e a paisagem da miséria dos lucros da poeira e do carvão

e queimarão

e arrasarão

a paisagem de miséria de lucro de pó e de carvão

e cantando construirão

uma paisagem nova e bela

uma verdadeira paisagem viva

farão muitas coisas com o sol

e transformarão mesmo o inverno em primavera.

Jacques Prèvert

Le paysage changeur

De deux choses lune
l’autre c’est le soleil
les pauvres les travailleurs ne voient pas ces choses
leur soleil c’est la soif la poussière la sueur le goudron
et s’ils travaillent en plein soleil le travail leur cache le soleil
leur soleil c’est l’insolation
et le clair de lune pour les travailleurs de nuit
c’est la bronchite la pharmacie les emmerdements les ennuis
et quand le travailleur s’endort il est bercé par l’insomnie
et quand son réveil le réveille
il trouve chaque jour devant son lit
la sale gueule du travail
qui ricane qui se fout de lui
alors il se lève
alors il se lave
et puis il sort à moitié éveillé à moitié endormi
il marche dans la rue à moitié éveillée à moitié endormie
et il prend l’autobus
le service ouvrier
et l’autobus le chauffeur le receveur
et tous les travailleurs à moitié réveillés à moitié endormis
traversent le passage figé entre le petit jour et la nuit
le paysage de briques de fenêtres à courants d’air de corridors
le paysage éclipse
le paysage prison
le paysage sans air sans lumière sans rires ni saisons
le paysage glacé des cités ouvrières glacées en plein été comme au cœur de l’hiver
le paysage éteint
le paysage sans rien
le paysage exploité affamé dévoré escamoté
le paysage charbon
le paysage poussière
le paysage cambouis
le paysage mâchefer
le paysage châtré gommé effacé relégué et rejeté dans l’ombre
dans la grande ombre
l’ombre du capital
l’ombre du profit.
Sur ce paysage parfois un astre luit
un seul
le faux soleil
le soleil blême
le soleil couché
le soleil chien du capital
le vieux soleil de cuivre
le vieux soleil clairon
le vieux soleil ciboire
le vieux soleil fistule
le dégoûtant soleil du roi soleil
le soleil d’Austerlitz
le soleil de Verdun
le soleil fétiche
le soleil tricolore et incolore
l’astre des désastres
l’astre de la vacherie
l’astre de la tuerie
l’astre de la connerie
le soleil mort.

Et le paysage à moitié construit à moitié démoli
à moitié réveillé à moitié endormi
s’effondre dans la guerre le malheur et l’oubli
et puis il recommence une fois la guerre finie
il se rebâtit lui-même dans l’ombre
et le capital sourit
mais un jour le vrai soleil viendra
un vrai soleil dur qui réveillera le paysage trop mou
et les travailleurs sortiront
ils verront alors le soleil
le vrai le dur le rouge soleil de la révolution
et ils se compteront
et ils se comprendront
et ils verront leur nombre
et ils regarderont l’ombre
et ils riront
et ils s’avanceront
une dernière fois le capital voudra les empêcher de rire
ils le tueront
et ils l’enterreront dans la terre sous le paysage de misère
et le paysage de misère de profits de poussières et de charbon
ils le brûleront
ils le raseront
et ils en fabriqueront un autre en chantant
un paysage tout nouveau tout beau
un vrai paysage tout vivant
ils feront beaucoup de choses avec le soleil
et même ils changeront l’hiver en printemps.