domingo, 31 de janeiro de 2016

ÚLTIMO POEMA - Cochat Osório



ÚLTIMO POEMA
Sair do temporal!
é ganhar tempo pra coser as velas.
é ganhar tempo pra fazer aguada
e aparelhar
O meu destino certo e tão inquieto
é o destino trémulo e concreto
duma agulha de marear.
Ah, não esperem que eu espere,
nem acreditem que eu tema
ou que eu possa naufragar...
Numa vela renovada
há insistência pra conter o vento,
há arrogância pra conter o mundo,
há energia pra domar o tempo
e força pra singrar.
Sair do temporal
é ter a nostalgia do combate
.que vai começar.
Tomei o gosto às horas de calema
e sou irmão do mar.

Cochat Osório
(Calema 1956)


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sábado, 30 de janeiro de 2016

O VIAJANTE CLANDESTINO/III - Daniel Filipe



O VIAJANTE CLANDESTINO/III*

Este é o local, o dia, o mês, a hora.
O jornal ilustrado aberto em vão.
No flanco esquerdo, o medo é uma espora
fincada, firme, imperiosa. Não
espero mais. Porquê esta demora?
Porquê temores, suores? Que vultos são
aqueles, além? Quem vive ali? Quem mora
nesta casa sombria? Onde estão
os olhos que espiavam ainda agora?
O medo, a espora, o ansiado coração,
a noite, a longa noite sedutora,
o conchego do amor, a tua mão…

Era o local, o dia, o mês, a hora.
Cerraram sobre ti os muros da prisão.


Daniel Filipe - 1973


*[Viver esta angústia para sentir o poema]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI - Eduardo Alves da Costa



NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski,
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite, eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo de repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma ténue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem que de nós emana o poder,
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa
In, No Caminho, com Maiakóvski
Outubro de 2003


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

MALVADAS LÍNGUAS QUE DÃO FEL À FAMA - Natália Correia



MALVADAS LÍNGUAS QUE DÃO FEL À FAMA


Malvadas línguas que dão fel à fama
Dizem que nestes lúdicos quadrantes,
Os políticos querem é ter mama.
Como não hão-de querer se são lactantes?

Do tenro Alfaia o génio petroleiro
Já no berço os emires embasbacou.
Mal saltou o rebento do cueiro
Logo espantosa basta sobraçou.

Entre os gigantes sociais, um ás
Com chucha e birra na pueril veneta.
Todo o planeta assombra: é o Ferraz.
Como não há-de a CIP querer chupeta?

Muito a preceito dos cristãos fervores
Do CDS, o Lucas é o retrato
De um Menino Jesus entre os doutores
A meter Mestre Freitas num sapato.

Também o PSD lá nos seus topes
Um prodígio infantil com brio exibe.
É o pasmoso bebé Santana Lopes
Que PR há-de ser de arquinho e bibe.

Há ainda o Jaiminho que nas cristas
Do PS a singrar é mesmo um Gama.
Dá beliscões no Soares sem dar nas vistas.
Faça o que faça o puto não se trama.

Porém como o Marcelo neste mapa
A brincar aos cow-boys não há nenhum.
Passa rasteira: o mais subtil derrapa;
Dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.

Onde os meninos de tudo são senhores
Forçoso é que da asneira haja fartura.
E se alguns deles são uns estupores,
É só por traquinice. É só candura.

Natália Correia
In O Bisnau, nº 5. 1983