sexta-feira, 21 de abril de 2017

25 de Abril, sempre! - Jorge Castro




25 de Abril, sempre!

na leveza em que a mão se abre em cravo
no enlevo dessa luz que vem beijá-lo
nós seremos sempre Abril
tão rubro e claro
se fizermos
sempre mais
para merecê-lo

Jorge Castro

25 Abril - Vasco Costa Marques




25 Abril

A muitos bastou
a solução
barata
de ir para a repartição
de barba por fazer
e sem gravata
 
Vasco Costa Marques

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Abril - Rui Namorado



abril

2.

Abril é uma palavra abandonada
à vertigem de todos os mistérios

um tempo aberto   rigoroso   puro
a casa que sabemos e nos espera

mil vezes esquecidos    nunca ausentes
cabemos neste mês de corpo inteiro

somos nós os recantos deste Abril


em Sete Caminhos, Coimbra:
Fora do Texto, 1ª edição, 61º volume da colecção
Poesia/Nosso Tempo, 1996, p. 41.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

'a janela da esperança' - Vasco Costa Marques


Traz tanto ódio dentro o vagão do amor

Traz tanto ódio dentro o vagão do amor,
tanto tédio envenena a raiz da alegria,
que é natural, amor, que a tristeza demore
sobre as nossas cabeças uma nuvem sombria.

Nem um dia sequer, nem no dia mais negro
se encerrou para nós a janela da esperança,
era impossível ser, com tantos olhos, cego,
e tendo tantas mãos perder a confiança.

Mas vem sempre atrasada a palavra devida,
tão ingrato este chão, tão fechado este céu,
que “é noite”, diz por vezes a canção, e o dia,
vai a estrofe no meio, amanheceu.

(sugerido por Correia da Fonseca – Algés)

terça-feira, 18 de abril de 2017

Abril - Sophia de Mello Breyner Andresen



Abril

Vinhas descendo ao longo das estradas,
Mais leve do que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.

E o jardim tremeu,
Pálido de esperança.

 (do livro “Dia do Mar-I-1947)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Primeiro poema para a manhã - JOAQUIM BENITE



Pág. Juvenil República 11.608 – 7-5-1963

Primeiro poema para a manhã

Agora sou a criatura que prepara as asas para o voo
sou o chefe da estação que se esqueceu de apitar
sou a beata que falhou na missa
aparentemente o barro solto num jardim
perdido perdido
na imensidade das mãos
das curvas e dos sons das névoas que elas traçam
Sim hoje amor a tarde ou a manhã de nunca
hoje as balas o sangue a confusão
decisivas horas que se arrastam sem cor
e cerram janelas pombas de luto vermelho
Agora a partida com aviões silenciosos
aéreos e possíveis os desejos
a dança a enxada
o campo juncado de berros oceânicos
as trevas a noite grandes infindáveis
e na sombra das casas
a luz brilha
e a esperança nasce
no grito do miúdo da quinta geração de estátuas
nas asas do primeiro anti-porteiro
Agora hoje choro sinto
o canto sobe
e há arestas quebradas
montras sem vidros
e bolos agora há bolos pão
e fome saciada
sou como um café
de muitos agrupados muitos de comboio e sempre direitos
Na metamorfose fatal o grito assoma
a criança rompe a dieta o leito
e pela primeira vez
é um chefe de estação esquecido
uma beata revoltada