segunda-feira, 29 de maio de 2017

VÍDEO-GAME - Augusto de Guimaraens Cavalcanti



VÍDEO-GAME
Para Domingos Guimaraens

E quantos campeões de vídeo-gama não são perdedores na vida? Afinal que delicada poesia é essa que evapora fácil e ainda assim é poesia, mais real que o real. Deuses de vidro, igrejas de sal. Vídeo-games deveriam se chamar dilúvios azuis. Que delicados maestros são esses que conquistam o mundo inteirinho e depois se apagam quando a tela se suicida? E quantos deus do vídeo-game não morrem na simulação da vida, nessa estrada de idiotas. E quantas histórias lindas não são facilmente descartáveis pela tirania e quantos vídeo-games bonitos não apodrecem no vento? E quantos campeões de vídeo-games não são perdedores na vida?

domingo, 28 de maio de 2017

Autorretrato - Pablo Neruda

Poster exposto em um dos jardins de La Chascona (foto de C. de Assis)
Autorretrato

De minha parte,
sou ou creio ser duro de nariz,
mínimo de olhos,
escasso de pelos na cabeça,
crescente de abdómen,
comprido de pernas,
largo de solas,
amarelo de tez,
generoso de amores,
impossível de cálculos,
confuso de palavras,
terno de mãos,
lento de andar,
inoxidável de coração,
aficionado às estrelas, marés, maremotos,
administrador de escaravelhos,
caminhante de areias,
torpe de instituições,
perpetuamente chileno,
amigo de meus amigos,
mudo de inimigos,
intrometido entre pássaros,
mal educado em casa,
tímido nos salões,
arrependido sem objeto,
horrendo administrador,
navegante de boca,
ervateiro da tinta,
discreto entre os animais,
afortunado nos nuvarrões,
investigador em mercados,
obscuro nas bibliotecas,
melancólico nas cordilheiras,
incansável nos bosques,
lentíssimo de contestações,
ocorrente anos depois,
vulgar durante todo o ano,
resplandecente com meu caderno,
monumental de apetite,
tigre para dormir,
sossegado na alegria,
inspetor do céu noturno,
trabalhador invisível,
desordenado, persistente,
valente por necessidade,
covarde sem pecado,
sonolento por vocação,
amável com mulheres,
ativo por padecimento,
poeta por maldição e bobo com chapéu de burro
.

versão ao Português de Cleto de Assis

Autorretrato
Por mi parte,
soy o creo ser duro de nariz,
mínimo de ojos,
escaso de pelos en la cabeza,
creciente de abdomen,
largo de piernas,
ancho de suelas,
amarillo de tez,
generoso de amores,
imposible de cálculos,
confuso de palabras,
tierno de manos,
lento de andar,
inoxidable de corazón,
aficionado a las estrellas, mareas, maremotos,
administrador de escarabajos,
caminante de arenas,
torpe de instituciones,
chileno a perpetuidad,
amigo de mis amigos,
mudo de enemigos,
entrometido entre pájaros,
mal educado en casa,
tímido en los salones,
arrepentido sin objeto,
horrendo administrador,
navegante de boca,
yerbatero de la tinta,
discreto entre los animales,
afortunado de nubarrones,
investigador en mercados,
oscuro en las bibliotecas,
melancólico en las cordilleras,
incansable en los bosques,
lentisimo de contestaciones,
ocurrente años después,
vulgar durante todo el año,
resplandeciente con mi cuaderno,
monumental de apetito,
tigre para dormir,
sosegado en la alegría,
inspector del cielo nocturno,
trabajador invisible,
desordenado, persistente,
valiente por necesidad,
cobarde sin pecado,
soñoliento de vocación,
amable de mujeres,
activo por padecimiento,
poeta por maldición y tonto de capirote.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

DIZEM ALGUNS… - Albano Martins

Álvaro Cunhal
10/11/1913 – 13/6/2005

dIZEM ALGUNS…

Dizem
alguns que tu
foste uma lenda arrancada
das páginas da história. Que a tua
palavra ardia
como uma tocha, às vezes
como uma lança cravada
na carne da ignomínia.
Eu diria
apenas que foste
a encarnação dum sonho, o rosto
humano da utopia.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

QUE PAÍS É ESTE? - Affonso Romano de Sant’Anna



Circula na Internet o fac-simile deste poema publicado no “Jornal do Brasil” (Rio de Janeiro) no domingo, 6 de janeiro de 1980. E porque tenho especial admiração pelo autor facilito-vos a leitura do poema que se mantém actual.


QUE PAÍS É ESTE?

1

Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra um regimento.
Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno Avante

    — e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
  
 — discursando rios e pretensão.

                                       Uma coisa é um país,
                                        outra um fingimento.
                                        Uma coisa é um país,
                                        outra um monumento.
                                        Uma coisa é um país,
                                        outra o aviltamento.
Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? Ou deveria
parar de ler jornais
             e ler a anais
como anal
            animal
                    hiena patética
                                         na fossa nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano,
a viciosa visão do paraíso que nos impeliu a errar aqui?
Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos nacionais,
como qualquer santo barroco
                                                     a rebuscar
                             no mofo dos papiros, no bolor
                             das pias batismais, no bodum das vestes reais
                              a ver o que se salvou com o tempo
                              e ao mesmo tempo
                                                              -- nos trai.
2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
       que o futuro a Deus pertence,
       que Deus nasceu na Bahia,
       que São Jorge é que é guerreiro,
       que do amanhã ninguém sabe,
       que connosco ninguém pode,
       que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
       não somos nada violentos,
       quem espera sempre alcança
       e quem não chora não mama
       ou quem tem padrinho vivo
       não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
      este é o país do futuro,
      antes tarde do que nunca,
      mais vale quem Deus ajuda
      e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
      somos raposas verdes
      colhendo uvas com os olhos,
      semeamos promessas e vento
      com tempestades na boca,
       sonhamos a paz na Suécia
       com suíças militares,
       vendemos siris na estrada
       e papagaios em Haia,
       senzalamos casas grandes
       e sobradamos mocambos,
       bebemos cachaça e brahma
       Joaquim Silvério e derrama,
        a polícia nos dispersa
        e o futebol nos conclama,
        cantamos salve-rainhas
        e salve-se quem puder,
        pois Jesus Cristo nos mata
        num carnaval de mulatas.

Este é um país de síndicos em geral,
este é um país de cínicos em geral,
este é um país de civis e generais.

Este é o país do descontínuo
onde nada congemina,
e somos índios perdidos
na eletrônica oficina
Nada nada congemina:

      a mão leve do político
      com nossa dura rotina,
      o salário que nos come
      e nossa sede canina,
      a esperança que emparedam
      e a nossa fé em ruina,
      nada nada congemina:

      a placidez desses santos
      a nossa dor peregrina,
      e nesse mundo às avessas
      a cor da noite é obsclara
      e a claridez vespertina.

3
Sei que há outras pátrias. Mas
mato o touro nesta Espanha,
planto o lodo neste Nilo,
caço o almoço nesta Zâmbia,
me batizo neste Ganges,
vivo eterno em meu Nepal.

   Esta é a rua em que brinquei,
   a bola de meia que chutei,
   a cabra-cega que encontrei,
   o passa-anel que repassei,
   a carniça que pulei.

   Este é o país que pude
               que me deram
                       e ao que me dei,
   e é possível, que por ele, imerecido.
                                                  -- ainda me morrerei.

4

             Minha geração se fez de terços e rosários:
                                                                    -- um terço se exilou
                                                                     -- um terço se fuzilou
                                                                      --um terço desesperou
e nessa missa enganosa
                                 -- houve sangue e desamor. Por isto,
canto-o-chão mais áspero e cato-me
                                                           ao nível da emoção.
Caí de quatro
                      animal
                                    sem compaixão.
                                    
                                    Uma coisa é um país,
                                      outra uma cicatriz.
                                      Uma coisa é um país,
                                      outra a abatida cerviz,
                                      Uma coisa é um país,
                                       outra esses duros perfis.

Deveria eu calar os que sobraram,
                            os que se arrependeram,
                             os que sobreviveram em suas tocas
e num seminário de arredios ratos
                                                         suplicar:
                                                                       -- expliquem-me a mim
                                                                        e ao meu país?
Vivo no século vinte, sigo para o vinte um
ainda preso ao dezanove
                                    como um tonto guarani
                                     e aldeado vacum. Sei que daqui a pouco
                                     não haverá mais país.

País:

       loucura de quantos generais a cavalo
       escalpelando índios nos murais,
      
       queimando caravelas e livros
                                               -- nas fogueiras e cais,

       homens gordos melosos sorrisos comensais
       politicando subúrbios e arando votos
       e benesses nos palanques oficiais.

Leio, releio os exegetas.
Quanto mais leio, descreio, Insisto?
Deve ser um mal do século
-- se não for um mal da vista.
Já pensei: -- é erro meu. Não nasci no tempo certo.
                                    Em vez de um poeta crente
                                    sou um profeta ateu
                                    em vez de epopeia nobre,
                                    os do meu tempo me legam
                                    como tema
                                                     -- a farsa
                                     e o amargo riso plebeu.

5

Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto e sinto muito o que falo
                                                              -- pois morro sempre que calo.
Minha geração se fez de lições mal-aprendidas.
                                                                            -- e classes despreparadas.
Olhávamos ávidos o calendário. Eramos jovens.
Tínhamos a “história” ao nosso lado. Muitos
maduravam um rubro outubro
                                                          outros iam ardendo um torpe agosto.
Mas nem sempre ao verde abril
                                                        se  segue a flor de maio.
Às vezes se segue o fosso
                                                     -- e o roer do magro osso.
E o que era revolução outrora
                                                     agora passa à convulsão inglória.
E enquanto ardíamos a derrota como escória
e os vencedores nos palácios espocavam suas champagnes sobre a aurora
o reprovado aluno aprendia

                                              com quantos paus se faz a derrisória estória

Convertidos em alvo e presa da real caçada
abriu-se embandeirado
                                   um festival de caça aos pombos
                               -- enquanto sangrava sanguínea a fresca madrugada.

Os mais afoitos e desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos desertos
seguiram no horizonte uma miragem
                                                   e logo da luta
                                                                         passaram
                                                        ao luto.

                         Vi-os lubrificando suas armas
                             e os vi tombando pelas ruas e grutas.

                         Vi-os arrebatando louros e mulheres
                        e serem sepultados às ocultas
                     
                        Vi-os pisando o palco da tropical tragédia
                            e por mais que lhes advertisse do inevitável final
                            não pude lhes poupar o sangue e o ritual.

                         Hoje
                                 os que sobraram vivem em escuras
                                 e europeias alamedas, em subterrâneos
                                 de saudade, aspirando um chão-de-estrelas
                                 plangendo um violão com seu violado desejo
                                 a colher flores em suecos cemitérios

                        Talvez
                                  todo país seja apenas um ajuntamento
                                   e o consequente aviltamento
                                   -- e uma insolvente cicatriz.
                                    Mas este é o que me deram,
                                    e este é o que eu lamento,
                                    e é neste que espero

                                                                      -- livrar-me do meu tormento.

                         Meu problema, parece, é mesmo de princípio:
                          -- do prazer e da realidade
                                                                        -- que eu pensava
com o tempo resolver
                                     -- mas só agora com a idade.

Há quem se ajuste
engolindo seu fel com mel.
Eu escrevo o desajuste
vomitando no papel.

6

                             Mas este é um povo bom

                                                                         me pedem que repita
                                                                         como um monge cenobita
                                                                         enquanto me dão porrada
                                                                         e me vigiam a escrita.

Sim. Este é um povo bom. Mas isto também diziam os faraós
enquanto amassavam o barro da carne escrava.
Isso digo toda noite
enquanto me assaltam a casa,
isso digo
aos montes em desalento
enquanto recolho meu sermão ao vento.
Povo. Como cicatrizar nas faces sua imagem per/versa e una?
Desconfio muito do povo. O povo com razão,
                                        -- desconfia muito de mim.

Estivemos juntos na praça, na trapaça e na desgraça,
mas ele não me entende
-- nem eu posso convertê-lo.
A menos que suba estádios, antenas, montanhas
e com três mentiras eternas
o seduza para além da ordem moral.

Quando cruzamos pelas ruas
não vejo nenhum carinho ou especial predileção nos seus olhos.
Há antes incomoda suspeita. Agarro documentos, embrulhos, família
a prevenir mal-entendidos sangrentos.

Daí, já vejo as manchetes;
                                             -- o poeta que matou o povo
                                             -- o povo que so/çobrou ao poeta
                                             -- (ou o poeta apesar do povo?)

-- Eles não vão te perdoar
-- me adverte o exegeta.
Mas como um país não é a soma de rios, leis,
nomes de ruas, questionários e geladeiras,
e a cidade do interior não e apenas gás néon, quermesse e fonte luminosa,
uma mulher também não é só capa de revista, bundas e peitos
fingindo que é coisa nossa.

                            Povo
                                   também são falsários
                             e não apenas os operários,
                             povo
                                    também são os sifilíticos
                             não só atletas e políticos.
                             povo
                                      são as bichas, putas e artistas
                           e não só escoteiros e heróis de falsas lutas,
                           povo
                           são as costureiras e dondocas
                           e os carcereiros
                           e os que estão nos eitos e docas.

                    Assim como uma religião não se faz só de missas na matriz,
                    mas de mártires e esmolas, muito sangue e cicatriz,
                    a escravidão
                    para resgatar os ferros dos seus ombros
                    requer
                    poetas negros que refaçam seus palmares e quilombos.

                   Um país não pode ser só a soma
                   de  censuras redondas e quilómetros
                   quadrados de aventura, e o povo
                   não é nada novo
                   -- é um ovo
                  que ora gera e degenera
                  que pode ser coisa viva
                  -- ou ave torta
                  depende de quem a põe
                  -- ou quem o gala.

7

Percebo  que não sou um poeta brasileiro. Sequer
              um poeta mineiro. Não há fazendas, morros,
              casas velhas, barroquismos nos meus versos.
Embora meu pai viesse de Ouro Preto com bandas de música polícia militar
             /casos de assombração e uma calma milenar
embora minha mãe fosse imigrando hortaliças protestantes
tecendo filhos nas fábricas e amassando a fé e o pão.

olho Minas com um amor distante,
como se eu, e não minha mulher
                                                    -- fosse um poeta etíope.
Fácil não era apenas ao tempo das arcádias
entre cupidos e sanfoninhas,
fácil também era ao tempo dos partidos – o poeta sabia “história”,
                             vivia em sua “célula”,
                             o povo era seu lobby e profissão,
                             o povo era seu cristo e salvação.
                             O povo, no entanto, não é o cão e o patrão – o lobo
                             Ambos são povo.
                             E o povo sendo ambíguo
                             é o seu próprio cão e lobo.
Uma coisa é o povo, outra a fome.
Se chamais povo à malta de famintos,
se chamais povo à marcha regular das armas,
se chamais povo os urros e silvos no exporte popular
então mais amo uma manada de búfalos em Marajó
e diferença já não há
entre as formigas que devastam minha horta
e as hordas de gafanhotos de 1948
                                             -- que em carnaval de fome
                                            o próprio povo celebrou.

                         Povo
                                não pode ser sempre o coletivo de fome.
                         Povo
                               não pode ser um séquito sem nome.
                         Povo
                                não pode ser o diminutivo de homem.
                         O povo, aliás,
                               deve estar cansado desse nome,
                         embora seu instinto o leve à agressão
                         e embora o aumentativo de fome
                                         possa ser
                                                         revolução.