sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Chão Nosso - Francisco Viana (música Os Trovante)


(Trovante)

Chão Nosso

Chão nosso,
Labutado,
Pão-a-pão,
No teu ventre semeado.

Dia-em-dia
Te daremos
A vontade
Do nosso corpo ainda acorrentado.

Contigo
Nos libertaremos
Das ofensas que não perdoamos.

Chão nosso,
Desvendado,
Sol-a-sol
Pelo fogo do arado.

Pela mão
Oprimida
Da razão
Luta de morte e de vida.

Chão nosso
Da nossa batalha.
Glória, glória
A quem o trabalha.

Chão nosso
Da nossa batalha.
Glória, glória
A quem o trabalha.

Chão nosso fecundado
De amor e suor,
A manhã sem perigo,
Clamor dos servos cravos,
Camponeses sem terra.
E de ti chão nosso
Se levantará liberto
Nas mãos obreiras
Nosso pão de cada dia. (x2)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

CANTAR - Gastão Cruz

CANTAR

Este cantar dos anos de pobreza
diferente da vida e tão diverso
do poderoso som da esperança

por entre os dentes vis de que se nutre
a sua boca
sopra da aflição a turva música

Este cantar dos anos que a mudança
do canto fez diverso da esperança
é um canto de esperança enquanto canta

Gastão Cruz

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

CRISE Poema de Antonio Miranda


CRISE
Poema de António Miranda

Tem um anti-herói - Macunaíma - levitando no Congresso.

Os intelectuais estão mudos, perplexos
monologando sobre a utopia corrompida
relendo manifestos. Paquidermes ressentidos.

Os políticos sangram, desencantam
(quem foi estilingue virou vidraça)
sugam as entranhas do poder
num inferno a céu aberto.
Em posições trocadas, os canalhas
em espelhismos e disfarces sutis
exorcizam fantasmas redivivos
- ou seriam mortos-vivos
canibalizados.

Um batráquio atônito discursa
para as colunas surdas
para ouvir o próprio eco.

Não, não e não!!! é o bordão
dos acusados. Ato falho, coerção
enquanto os jornalistas sádicos
regozijam, triunfantes
sobre os escombros.

Os urubus planam ávidos
sobre a esplanada desconcertante
e os ratos roem os alicerces
precários.

Os banqueiros estão blindados
mas assustados.
Os militares cegos, os religiosos surdos
e os juízes calados.

A população aturdida
- enquanto a lama medra -
não entende mas pressente
a véspera do nada.

Antonio Miranda

Brasília, 3 de setembro de 2005
*"Estrutura" Bandeira do Brasil, trabalho em cimento armado colorido, de autoria de Antonio Miranda, construido na Chácara Irecê, no município de Cocalzinho, Goiás.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Fernando Pessoa



V

Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.

XXXVI

Aborreço-me da possibilidade
De vida eterna; o tédio
De viver sempre deve ser imenso.
Talvez o infinito seja isso…
Já o tédio de o pensar é horroroso.



domingo, 13 de agosto de 2017

Retrato de uma princesa desconhecida - Sophia de Mello Breyner Andresen



Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que seu pulso tivessem um quebrar de caule
Para que seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino.

1972